"Pode ser que sim. Pode ser que não. Não posso garantir." - in Astérix, A Volta à Gália

27.11.08

5 no Pireu


A possibilidade de as coisas correrem mal existia. Façam o favor de notar, no post anterior a este (que não perde nada da sua validade), que até tive o cuidado de dizer que podiam correr muito mal. E assim foi.

Que dizer de uma destas? Não muito. Três coisinhas apenas, ficando a mais importante para o fim. As outras duas podem ser vistas como chalaças, mas a última é um assunto muito sério.

1) Ficámos apenas a um de empatar com o Zbordn nesta jornada, equilibrando o facto de o Olympiakos não ser o Barcelona com o não menos facto de termos jogado fora e o Zbordn em casa. Acresce que, tecnicamente, as nossas abébias não são consideradas autogolos e tivemos um anulado (por acaso não vi, mas posso garantir que deve ter sido muito mal anulado).

2) Pode ser que se confirme a teoria de Jesualdo, segundo a qual as derrotas são um factor essencial no crescimento das equipas. Nesse caso, Quique Sánchez Flores demonstra uma invulgar mestria na calendarização dessas necessárias derrotas, que concentra sabiamente na UEFA. Falhou em Berlim, onde só conseguiu perder dois pontos, mas imediatamente corrigiu com os turcos e agora aperfeiçoou com os gregos. Para acelerar o crescimento da equipa já só falta uma convincente derrota caseira com os metalo-ucranianos. Eu sei que não é fácil, mas para as equipas em processo de crescimento não pode haver impossíveis.

3) O Benfica, contra as mais elementares regras do bom senso e do bom gosto, voltou a jogar (chamemos-lhe assim) de calções pretos, o que invariavelmente nos leva à sportinguização das exibições e dos resultados.

Disse.

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Noite negra


Noite negra em Bombaim (vão-me desculpar, mas eu, em podendo, evito os Mumbais e os Beijings). Mas, sobre coisas destas, o que dizer? O choque, o espanto, o horror, o nojo, a raiva, tudo se mistura numa única reacção: o silêncio.

Noite negra, também, em Alvalade. Mais concretamente, no Alvalade, à Churrasqueira. Não aconteceu a única coisa que seria boa para a humanidade — o Barcelona perder. Em termos de resultado, aconteceu normalidade e futebol. Mas a forma como aconteceu, senhores...

Claro que seria mais avisado guardar isto para amanhã, não vá a excursão ao Pireu correr muito mal. Mas nem a maior das tragédias que aconteça hoje pode apagar aquele episódio Monty Pythoniano de ontem.

Não tendo visto a totalidade do episódio, perdi cenas de raríssima beleza. Diz que o tribunal de Alvalade, já em plenos 2-5, assinalava com vigorosos olés uma ou outra troca de bola dos seus defesas. Ao que os estupefactos culés (pouquíssimos, como sempre fora do seu nicho) respondiam imediatamente com olés (imediatamente porque, como é natural, as referidas trocas de bola entre jogadores do Zbordn eram de muito curta duração e o mais habitual era serem os do Bardazona a trocá-la entre si). O tribunal de Alvalade recorreu então a outra palavra de ordem para, de alguma forma, chatear os outros. Entoou-se, então, o nome de Figo, com aquela boa disposição só ao alcance de quem está a levar cinco em casa. Os outros, que eram poucos mas aparentemente bem informados sobre os pontos fracos dos locais, responderam por sua vez com sonorosos Benfica.

Isto foi o que eu, infelizmente, não vi. O que eu vi, ao nível do resumo, foi: um óptimo golo (o do Veloso), o que, em sete, não é grande coisa; duas baldas das defesas que deram ao Messi e ao Liedson oportunidades para, respectivamente, uma assistência e um golo; dois autogolos, qual deles o mais ridículo; uma ciganice, daquelas em que o Bardajona é pródigo, que dá golo ao Messi; um penálti possivelmente ainda mais ridículo que os autogolos e tão mal marcado que devia contar como autogolo, porque até entrou.

Isto foi o que eu vi. Atendendo a que as vitórias do Barejona me desgostam e as derrotas do Zbordn, só por si, não me alegram, não gostei. Teria preferido ver e ouvir, com os meus próprios couratos, a meia dúzia de excursionistas do Batatona aos gritos de Benfica Benfica Benfica nas traseiras da churrasqueira, numa noite negra.

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19.11.08

Democracia? Espera aí que eu já te atendo.

Aqui vai o meu modesto tributo a Manuela Ferreira Leite, a verdadeira Mulher-Falcão. A hipótese de suspender essas trapalhadas da democracia por meia dúzia de meses, só para pôr as coisas a funcionar, não é nova mas é sempre uma boa ideia. Já ouvi e li por aí que se trata de humor do mais refinado, de uma finíssima ironia que só por má fé ou esquerdismo contumaz se pode levar à letra. A julgar pelos mais recentes exemplos do humor da Mulher-Falcão (o desemprego em Cabo Verde e na Ucrânia, os polícias-palhaços, os jornalistas e editores-palhaços, etc. etc. etc.), quem sou eu para dizer que não. É aliás um género humorístico com grandes tradições, com intérpretes tão inspirados como Augusto Pinochet, José Eduardo dos Santos, Vladimir Putin, Pervez Musharraf, Mahmoud Ahmadinejad, Muammar al-Gaddafi, Tejero Molina e tantos outros que vão animando os povos de todo o mundo. Já agora, que fique o registo: Hawke, que não quer dizer falcão, é o nome de uma baía na costa oriental da Ilha do Norte, Nova Zelândia, e Ladyhawke vai estar visível e audível em Lisboa, a 3 de Dezembro, no âmbito do SuperBock em Stock. Isto se não houver nenhuma suspensão temporária das democracias, claro.

18.11.08

80 anos com a cabeça entre as orelhas

O velho Mickey faz hoje 80 anos. Aqui vão os parabéns.

13.11.08

Aos abrigos! Eles estão de volta! (tanto ponto de exclamação!)

Tremei, ó infiéis! Ao longo dos últimos meses, não recebi um único pedido para retomar a interrompida partilha d'Os Tugíadas. Essa é apenas umas das razões que me leva, ou levam, à retoma. As outras não faço ideia quais sejam. Tomem lá e não digam nada, que ainda pode ser pior.




À pequenita nunca a descobriram,
Sobre ela se abateu pesado manto; 

Enquanto as novidades se arranjaram
Chorou do peito o luso grosso pranto,
Em contraste c’os pais, que não choraram:
Mais pareciam feitos de amianto,
Ou de aço temperado na desfeita
Que fizeram... ou não, fica a suspeita.



Revive-se outro caso, doutro dia,
Daqueles Ciprianos, que afligiam,
Não pelo seu sotaque, de algarvia
Lavra, mas outrossim por que diziam.
Também da filha a mãe já não sabia,
Na pequena Joana só batiam:

“Matá-la? Não! Que horror! Por quem nos crêem? 

Se souberem notícias, que nos dêem!”

(...)

11.11.08

What is it good for?

A guerra que ia acabar com todas as guerras acabou faz hoje 90 anos. Na altura era mais conhecida como Grande Guerra. Hoje chamamos-lhe Primeira Guerra Mundial, porque logo 20 anos depois veio a outra. E com os mesmos protagonistas. Ou seja: em termos de acabamentos, a Grande Guerra não se pode considerar um grande sucesso. Ainda hoje serve de exemplo de que derrotar o inimigo é só a parte mais fácil de ganhar a guerra. Serve também para demonstrar a suprema estupidez da guerra, na medida em que o Tio Adolfo andou lá metido e nem sequer morreu.

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10.11.08

Os ontens, os hojes e os amanhãs


A Kristallnacht, o grande pogrom prenunciador do Holocausto, foi na noite de 9 para 10 de Novembro de 1938. Fez esta noite 70 anos.

Muito mais a propósito do que possa parecer: hoje, ainda no rescaldo da vitória de Obama, vai-se ao Haaretz e encontra-se este texto sobre a (im)possibilidade de um árabe ser eleito primeiro-ministro em Israel.

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Abatut ou valetut?


Vem o que se segue a propósito dos recentes percalços na banca e restante sistema financeiro. Vem muito particularmente a propósito do percalço BPN.

Aqui há tempo, referi aqui um livro chamado A Catedral do Mar. A acção passa-se em Barcelona, em tempos medievais, e lá pelo meio há referências históricas muito interessantes ao sistema de regulação das actividades financeiras. Daí o ter-me ocorrido.

Sem querer enquadrar demasiado (isto é, sem chegar ao ponto Weber e à influência da ética protestante no espírito capitalista), há que pelo menos referir que a cristandade da altura não via o juro com bons olhos. As actividades de agiotagem, financiamento, seguros e quejandas eram interditas ou desaconselhadas a cristãos. E eram muito reguladas.

Em Barcelona, no tal exemplo que me chegou via Catedral do Mar, havia um código penal bastante penalizador das aventuras e dos incumprimentos. Um tipo com loja (de dinheiro) aberta que por algum motivo deixasse de assegurar o cumprimento das suas obrigações era considerado abatut. Esta figura jurídica não deveria andar longe daquilo a que chamamos falência e resultava directamente da incapacidade de respeitar determinados rácios de solvabilidade. Uma vez constatada a situação de abatut, o financeiro em causa tinha um período de tempo (não muito extenso) para regularizar as suas contas. A parte final desse período de tempo era passada já na condição de engaiolado. Findo o tal prazo, se o abatut se mantivesse, o sujeito era decapitado.

Descontada a brutalidade da época, compreende-se a intenção de manter sãs as operações financeiras. É que o dinheiro já na altura tinha a mania de não cair do céu. Então como agora, em Barcelona como cá ou em qualquer parte, quando alguém decide ficar com muito mais do que tinha, há uma tendência fortíssima para que outrém fique com muito menos.

Parece-me muito bem que, no século XXI, já não cheguemos ao ponto da decapitação. Mas não me parece nada bem que, cá pelos nossos lados, se tenha evoluído para um sistema de impunidade total. As leis da física monetária não se alteraram — ele continua a não cair do céu, continua a não nascer do chão e continua a fazer falta a todos. Por isso, não há razão para que os códigos e as práticas penais não continuem a punir todas as formas de apropriação indevida, comummente conhecida por roubo. Mas, se há coisa de que podemos estar certos, é que nada vai acontecer e os negócios de Portugal (os do dinheiro e os da justiça) continuarão como de costume. Ou seja, mal.

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Obrigado ao L. Rodrigues, que me indicou a via para a reapropriação do tão necessário mini-caixotinho.
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7.11.08

Berlusconi, Hamas, tanto faz

A unanimidade é um fenómeno raro entre os humanos. Um fenómeno tão raro e tão anti-natura que nos deve sempre fazer desconfiar. Quando em excesso, a concórdia chega a ser pior que a discórdia.

Vem esta filosofia a propósito das reacções à vitória de Obama. Quando já podíamos temer um nefasto unanimismo, eis que duas preciosas contribuições vêm reconfortar-nos:

"É jovem, belo e bronzeado", observa Berlusconi. "Obama? McCain? Tanto faz, dá igual", é a reacção de um fedelho qualquer, em nome do Hamas.

Obrigado a ambos os cavalheiros. Obrigado por nos fazerem acreditar ainda mais. Sim, nós podemos ter razão. Nós, as pessoas normais. Nós, as pessoas habitualmente decentes. Nós, incluindo John McCain, Condoleezza Rice, George W. Bush e o próprio senhor das barbas da Quadratura do Círculo.

6.11.08

Há que dar mérito ao dragão

Era preciso o segundo golo? Marcou-se o segundo golo, pois então. Não se deixando perturbar pelo lugar pouco habitual que ocupa na Liga, esta vitória a meio da semana coloca o clube de novo entre os grandes.
Sai uma Carlsberg fresquinha pelo Olhanense, com o reconhecimento devido a Jorge Costa!

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5.11.08

Palavras de honra e substância

O L. Rodrigues chamou-me a atenção para o que perdi esta noite, nos momentos em que estive desacordado. Como acontece frequentemente, ele (o L. Rodrigues) tinha razão. O discurso de John McCain, aqui muito bem resumido e comentado, não é para se perder.

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Yes yes yes!


Yes they could
Yes we care
Yes we.

4.11.08

TVGuia para esta noite

Com a preciosa colaboração do Dallas Morning News, aqui vai um guião para a noite eleitoral. Os resultados que interessam, para quê e a que horas (de Lisboa).

19.45

• À laia de aperitivo para o tão aguardado embate Republicanos Vs Democratas, a RTP1 serve o Monárquicos da Churrasqueira Vs Plutocratas do Kalmius.

23.30

• Interrompa o Trio d'Ataque para ver os primeiros resultados do Indiana, Ohio e Virginia. Bons indicadores para ver se há sucesso de Obama em estados tradicionalmente republicanos.

• Obama ganhou a Virginia? Então pode começar a chamar os Urbanos para a mudança para a Casa Branca. Se houver equilíbrio no Ohio e Indiana, há que fazer fé nas zonas predominantemente negras de Cleveland e Gary (mais populosas, devem levar mais tempo a sair; esqueça o Trio d'Ataque). Se Obama ganhar estes três estados podemos começar a dizer mal dele, na sua nova qualidade de Presidente dos EUA.

• Para os verdadeiros junkies, há a eleição para o Senado no Kentucky. Uma derrota aqui pode ser o prenúncio de uma noite de Halloween aprés la lettre para a elefantaria republicana.

00.00

• McCain fez bem ou fez mal em gastar tanto como gastou (em dinheiro e em tempo) na Pensilvânia? É o que vamos saber ao soar das doze badaladas. Outra coisa que se poderá detectar é o famoso efeito Bradley — se as sondagens puxaram Obama para cima, a Pensilvânia seria um bom sítio para o recambiar para baixo.

• Pista importante: quanto tempo é que as CNNs da vida levam a arriscar um prognóstico? Quanto mais tempo levar, mais hipóteses para McCain. A CBS promete uma projecção do vencedor para as 23.00 se os resultados o permitirem (leia-se se a sova for das grandes).

• Como ficou visto em 2000, não é de esperar resultados rápidos na Florida. O estado é pão para a boca de McCain, enquanto para Obama seria a cereja no cimo do muffin.

• Olho no Missouri, que é visto como um dos estados que podem cair para o lado de McCain. Também serve de barómetro à receptividade do eleitorado mais rural a um presidente Barack Hussein Obama (o mesmo vale para a Pensilvânia e Ohio).

• Se a política interna texana o fascina, não perca a corrida a xerife do condado de Dallas (Valdez, o detentor do título, no canto azul, contra Cannaday, no canto vermelho).

00.30

• A Carolina do Norte fecha as urnas. Aqui está um belo indicador para se ter uma ideia do quão longa se tornará a espera dos democratas até poder deitar os foguetes. Uma vitória de Obama é quase sinónimo de bye-bye McCain. Na eleição para o Senado, uma vitória de Kay Hagan (à custa da actual Senadora Elizabeth Dole) pode ser o prenúncio de uma jornada muito lucrativa para toda a turminha do burro.

01.00

• Se McCain ainda não tiver ido ao tapete, o Colorado torna-se muito importante. Um bom resultado negaria todas as sondagens mais recentes e as multidões que foram engrossando a Obamania.

• Juntamente com o Novo México e o Minnesota, o Colorado pode ajudar a definir se os democratas alcançam uma maioria das antigas no Senado.

• No Vermelhistão profundo que é o Texas, a única coisa a observar serão eventuais sinais de baixa de popularidade dos republicanos (coisas da eleição estadual e da Câmara dos Representantes). O McCain perder aqui é o mesmo que o Alberto João perder na Madeira.

02.00

• O Nevada é mais um dos tais estados que tanto pode dar um novo fôlego a McCain como dar mais uma orelha a Obama.

• O Montana, onde as sondagens deram uma surpreendente aproximação de Obama, é outro bom indicador sobre a noite republicana: dá para sonhar ou é pesadelo certo?

03.00

• California über alles. Com os seus 55 votos no Colégio Eleitoral, pode ser o sinal para largar a rolha do champanhe azul. Mas porém no entanto e contudo, se houver muito equilíbrio noutros estados e/ou trapalhada com os escrutínios, nem a Califórnia chega para arrumar a questão.

03.00

• Para quem não esteja demasiado absorvido nos referendos locais ou na eleição do reitor da escola, é uma boa altura para ver o que se passou na Liga dos Campeões (ou até mesmo para ir dormir, sabe-se lá).

04.00

• Se a corrida ainda não acabou a esta hora é dar os parabéns a McCain pela combatividade, uma última olhadela ao Abrupto e retirar airosamente para Lennsoll Valley.

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3.11.08

Homens de Olhão à proa da canoa

Do que se passa na Liga da Cerveja toda a gente sabe. O Desinfeliz tenta, sempre que possível, divulgar o que vai acontecendo na muito menos mediática Liga da Água.

Ora o que se passou este fim-de-semana na Liga da Água é ainda mais brilhante do que os paralelos acontecimentos na divisão cervejeira: o Olhanense deslocou-se ao Barlavento (as gentes locais chamam a esta visita a Invasão de Portimão, que veio suprir a falta das saudosas Invasões de Faro nos actuais calendários desportivos, derivado ao gigantesco trambolhão do Farense) e veio de lá com belíssimo 3-2. Isto no sábado. No domingo todos os restantes empecilhos (Santas Claras, Sportings das Covilhãs, Boavistas, Varzins e afins) encarregaram-se de empatar ou perder. Resultado: à sétima jornada o Olhanense é líder destacado (destacado por um ponto inteiro) da Liga Vitalis.

Se isto não acrescenta beleza ao Mundo, não sei que mais posso fazer. Se fosse cidadão americano, poderia e votaria Obama. Sendo tuga em regime de exclusividade, só posso deixar aqui o meu tributo aos Heróis do Mar que intrépidos lideram as tabelas dos respectivos elementos líquidos (os de Olhão e os de Matosinhos).

31.10.08

A facilidade matou o Rabin


Este moço (o do meio, o que não está fardado) é Yigal Amir, o extremista (de direita) que matou o primeiro-ministro Isaac Rabin (em 1995, se bem se lembram). Está preso, que é o que acontece a certas pessoas em certos países quando são apanhadas depois de terem feito certas coisas... mas não é isso que interessa agora. O que interessa é que está preso.

Estando preso, o jovem Amir deu uma entrevista via telefone a dois canais de televisão israelitas, na qual explica de onde lhe veio a ideia de matar Rabin. E a história é tão só uma variante da celebérrima ocasião que faz o ladrão.

Amir conta que foi a um casamento onde se encontrava também Rabin. Não pôde evitar reparar que o primeiro-ministro se fazia acompanhar de um único guarda-costas. "Se lhe apertasse a mão podia facilmente dar-lhe um tiro, se quisesse. Eu tinha uma arma comigo. Vi que era tão fácil e disse a mim próprio que passados uns anos me ia arrepender de não o ter matado".

Esta terá sido, então, a inspiração para o acto que veio a cometer pouco tempo depois. Se é tão fácil, por que não? Quanto às motivações mais profundas, os por que sins: à pergunta sobre quem o influenciou na decisão de assassinar Rabin, Amir responde "todos os que entendem as coisas militares. Todos os peritos militares disseram que os Acordos de Oslo foram um desastre". E pronto. Está explicado.

Entre os muitos que se mostraram chocados com a entrevista (a família de Rabin, por exemplo) encontram-se os Serviços Prisionais de Israel. É que Amir não tinha autorização para dar entrevista nenhuma. Ao contrário do que se passava há uns tempos, as chamadas de Amir não estavam a ser 'monitorizadas' (escutadas, portanto) e a entrevista surpreendeu fortemente os responsáveis dos ditos serviços.

Para além da facilidade no uso da pistola, Amir demonstra também ser exímio no manejo do telefone. No passado mês de Agosto, utilizou o telefone da prisão (o mais fixo dos fixos, diria eu) para dirigir ameaças a um vizinho da Sra Amir, no contexto de um desentendimento sobre canos furados.

Quem também se encontra aos cuidados dos referidos serviços prisionais é Hagai Amir, irmão de Yigal. Menos eficaz que Yigal, talvez mais dado às coisas do espírito, Hagai está dentro por mera conspiração para cometer assassínio. E consta que foi levado a sério quando confidenciou a alguns guardas que lhe bastava fazer uma chamada para mandar o primeiro-ministro pelos ares.

Nessa altura, Hagai perdeu aquilo a que se chama os privilégios de telefone. Agora, a mesma medida foi aplicada a Yigal. Um dos canais já anunciou que não vai transmitir a programada segunda parte da entrevista, enquanto o outro mantém a intenção de a divulgar.

Moral da história? Convenhamos que não há.

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27.10.08

2 em 1 (ou mais)

Ganhar por 2 a 1, na mesma jornada em que o comandante perde por 3 a 2 e o rival Sporting empata, não é bom. É óptimo. Mas foi isso mesmo que aconteceu ao Olhanense: 2-1 na Vila das Aves, com o líder Santa Clara a perder em Barcelos por 3-2 e o Sporting da Covilhã a empatar (1-1, em casa, com o Freamunde).

Isto na Liga da Água, porque na Liga da Cerveja foi tudo completamente diferente: o Febóqueluporto perdeu por 3-2 mas foi em casa, o Zborden da Padre Cruz empatou mas foi a zero e o Sport Lisboa e Benfica ganhou por 2-1 mas só alguém manifestamente desrespeitador do bom nome das instituições pode dizer que foi na vila das aves.

E por falar em aves, a jovem Vitória, talvez antecipando o que se ia ver durante os 90 minutos, executou na perfeição uma apertada meia volta sobre a asa direita e saíu pelo caminho mais curto. Sábia Vitória.

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23.10.08

Hear our voices, we entreat

Flight Of The Conchords. Mais uma razão para cantarmos todos, convictamente, God Defend New Zealand.

22.10.08

Desinfecção científica



Se há género literário que nunca apreciei particularmente (e há até muitos géneros literários que nunca apreciei particularmente, mas deu-me jeito começar assim) é a chamada Ficção Científica. Isso já fez com que alguns livros que acabei por apreciar imenso tenham levado umas quantas décadas a penetrar a couraça da minha indiferença. Só por virem com o malfadado rótulo da Ficção Científica. Preconceitos, que se há-de fazer.

Um desses casos, que agora, dito assim, parece quase tão absurdo como na realidade é, deu-se com o Senhor dos Anéis. Ainda eu estava na tal idade que o Reininho recomenda para a leitura d'A Obra quando dei pela existência d'A Obra. Mas alguém, vá-se lá saber quem e porquê, me disse que aquilo era bestial e que era Ficção Científica. Bestial, escuso de ler, terei eu pensado. Aguardei, pois, que um neozelandês barbudo me mostrasse que não, que aquilo não era Ficção Científica, para poder ler sossegadamente A Obra.

Deu-se-me agora outro desses casos, com o jovem Arthur C. Clarke. Mão amiga ofereceu-me recentemente uma caixinha cheia de DVDs do Kubrick, entre os quais o 2001 Odisseia no Espaço. Para além do filme, o DVD prima por ter extras verdadeiramente bestiais. Nesses extras aparece o jovem Arthur C. Clarke a dizer coisas. Talvez por isso, e certamente por já terem passado mais de cinquenta anos sobre as edições originais, dirigi-me à prateleira respectiva do escritório lá de casa e experimentei um dos Clarkes que lá tenho. Gostei, experimentei outro, não desgostei, estou a experimentar outro, e a gostar, e assim sucessivamente.

Há várias coisas bestiais nisto. Uma é que escuso de gastar dinheiro, até porque quando acabar os que tenho não me vou pôr a comprar Clarkes. Outra é que aquilo deixou de ser Ficção Científica e passou a ser outra coisa qualquer, muito mais próxima de coisas de que eu gosto muito mais, como por exemplo a História. Num registo que só aparentemente é diferente do Senhor dos Anéis, o que Clarke partilhava com o resto da humanidade nos anos 50 não era a costumeira ficção situada em cenários alcunhados de científicos. Tal como Tolkien com a Terra-média, e ao contrário dos escribas menores, o que verdadeiramente interessava a Clarke era o cenário em si.

Tolkien deu-se ao trabalho de criar todo um mundo, que só por acaso não existiu, para que nesse mundo se pudessem ter falado e evoluído as línguas que lhe apetecia inventar; os hobbits, os anões, os elfos, os orcs, os feiticeiros, os entes e o resto da matilha toda são os acessórios indispensáveis à composição desse mundo. É curioso que o mundo que Clarke se deu ao trabalho de partilhar connsoco era e continua a ser perfeitamente possível, porque a sua base, as leis da física, ainda não mudaram substantivamente, mas hoje está muito mais distante do que na altura em que era considerado Ficção Científica.

Por mim, tudo bem. Leio os livritos, aclaro ligeiramente alguns dos imensos buracos negros da minha ignorância das coisas da Física e derivados, fico a saber a que velocidade é que tenho de me pôr a andar se algum dia quiser entrar em órbita, e quanto mais é que preciso de acelerar para chegar a Vénus ou a Marte, o que é tão deliciosamente inútil como saber agradecer em Sindarin ou dizer adeus em Quenya, e com isto fico todo contente.

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21.10.08

Nós e os outros

First they came for the Communists but I was not a Communist so I did not speak out;
Then they came for the Socialists and the Trade Unionists but I was not one of them, so I did not speak out;
Then they came for the Jews but I was not Jewish so I did not speak out.
And when they came for me, there was no one left to speak out for me.


Martin Niemoller, 1892-1984

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Amis, filho de Amis


Acabo de ler o meu primeiro Amis filho. Gosto muito do Amis pai. Também não desgostei do Amis filho. Em certos momentos chegou a lembrar-me o velho Damon Runyon, e não sei o que posso dizer de mais elogioso. Mas também me tocou uma campainha de Lobo Antunes mas de quando eu gostava de Lobo Antunes mas agora já não, por isso não sei.

Não desrecomendo a ninguém, antes pelo contrário, a leitura de Yellow Dog, da autoria de Amis, Martin, filho de Amis, Kingsley, mas para mim, na minha opinião, parece-me pessoalmente que vou continuar a preferir o pai. Freud, filho de Jacob, poderia explicar. Mas ninguém garante que explicasse bem ou que alguém entendesse.

Lá pelo meio, há um personagem deliciosamente Runyonesco (creio que dá pelo nome de Tony Eist) e que nos é apresentado como um bandido entre bandidos, um tipo tão intrinsecamente desonesto que comete crimes mesmo nos seus alibis. Do género: Mas como é que eu podia fazer a caixa do Multibanco no Montijo se a essa hora estava a enrolar uma velha na Trofa? No caso da edição que li, valeu a pena ler chegar a páginas 261 para dar com este Tony Eist.

Por falar em nomes, agora vejo que há também neste cão amarelo algo de reminiscente do bom velho Diniz Machado e do seu Molero. Desde Austin, Mister DeLuxe, Peida Gadocha, Descoiso e companhia que não apanhava uma galeria de personagens com nomes tão tão tão: Russia, uma americana; He, uma mulher extremamente oriental; Love, um criado do rei; Car, um ex-futebolista galês caído em desgraça; And, um gajo qualquer; e outros, muitos outros. Exuberante e prodigiosa, a nomenclatura Amisiana filha.

E prontos. Não asso mais carapaus. Leiam, se quiserem, ou não, se não.

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