"Pode ser que sim. Pode ser que não. Não posso garantir." - in Astérix, A Volta à Gália

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22.12.08

Ao meu pai, se estiver online

The Delights of Mathematics
Robert Fuller Murray (1863 – 1894)

It seems a hundred years or more
Since I, with note-book, ink and pen,
In cap and gown, first trod the floor
Which I have often trod since then;
Yet well do I remember when
With fifty other fond fanatics,
I sought delights beyond my ken,
The deep delights of Mathematics.

I knew that two and two made four,
I felt that five times two were ten,
But, as for all profounder lore,
The robin redbreast or the wren,
The sparrow, whether cock or hen,
Knew quite as much about Quadratics,
Was less confused by x and n,
The deep delights of Mathematics.

The Asses' Bridge I passed not o'er,
I floundered in the noisome fen
Which lies behind it and before;
I wandered in the gloomy glen
Where Surds and Factors have their den.
But when I saw the pit of Statics,
I said Good-bye, Farewell, Amen!
The deep delights of Mathematics.

O Bejants! blessed, beardless men,
Who strive with Euclid in your attics,
For worlds I would not taste again
The deep delights of Mathematics.


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22.10.08

Desinfecção científica



Se há género literário que nunca apreciei particularmente (e há até muitos géneros literários que nunca apreciei particularmente, mas deu-me jeito começar assim) é a chamada Ficção Científica. Isso já fez com que alguns livros que acabei por apreciar imenso tenham levado umas quantas décadas a penetrar a couraça da minha indiferença. Só por virem com o malfadado rótulo da Ficção Científica. Preconceitos, que se há-de fazer.

Um desses casos, que agora, dito assim, parece quase tão absurdo como na realidade é, deu-se com o Senhor dos Anéis. Ainda eu estava na tal idade que o Reininho recomenda para a leitura d'A Obra quando dei pela existência d'A Obra. Mas alguém, vá-se lá saber quem e porquê, me disse que aquilo era bestial e que era Ficção Científica. Bestial, escuso de ler, terei eu pensado. Aguardei, pois, que um neozelandês barbudo me mostrasse que não, que aquilo não era Ficção Científica, para poder ler sossegadamente A Obra.

Deu-se-me agora outro desses casos, com o jovem Arthur C. Clarke. Mão amiga ofereceu-me recentemente uma caixinha cheia de DVDs do Kubrick, entre os quais o 2001 Odisseia no Espaço. Para além do filme, o DVD prima por ter extras verdadeiramente bestiais. Nesses extras aparece o jovem Arthur C. Clarke a dizer coisas. Talvez por isso, e certamente por já terem passado mais de cinquenta anos sobre as edições originais, dirigi-me à prateleira respectiva do escritório lá de casa e experimentei um dos Clarkes que lá tenho. Gostei, experimentei outro, não desgostei, estou a experimentar outro, e a gostar, e assim sucessivamente.

Há várias coisas bestiais nisto. Uma é que escuso de gastar dinheiro, até porque quando acabar os que tenho não me vou pôr a comprar Clarkes. Outra é que aquilo deixou de ser Ficção Científica e passou a ser outra coisa qualquer, muito mais próxima de coisas de que eu gosto muito mais, como por exemplo a História. Num registo que só aparentemente é diferente do Senhor dos Anéis, o que Clarke partilhava com o resto da humanidade nos anos 50 não era a costumeira ficção situada em cenários alcunhados de científicos. Tal como Tolkien com a Terra-média, e ao contrário dos escribas menores, o que verdadeiramente interessava a Clarke era o cenário em si.

Tolkien deu-se ao trabalho de criar todo um mundo, que só por acaso não existiu, para que nesse mundo se pudessem ter falado e evoluído as línguas que lhe apetecia inventar; os hobbits, os anões, os elfos, os orcs, os feiticeiros, os entes e o resto da matilha toda são os acessórios indispensáveis à composição desse mundo. É curioso que o mundo que Clarke se deu ao trabalho de partilhar connsoco era e continua a ser perfeitamente possível, porque a sua base, as leis da física, ainda não mudaram substantivamente, mas hoje está muito mais distante do que na altura em que era considerado Ficção Científica.

Por mim, tudo bem. Leio os livritos, aclaro ligeiramente alguns dos imensos buracos negros da minha ignorância das coisas da Física e derivados, fico a saber a que velocidade é que tenho de me pôr a andar se algum dia quiser entrar em órbita, e quanto mais é que preciso de acelerar para chegar a Vénus ou a Marte, o que é tão deliciosamente inútil como saber agradecer em Sindarin ou dizer adeus em Quenya, e com isto fico todo contente.

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21.10.08

Amis, filho de Amis


Acabo de ler o meu primeiro Amis filho. Gosto muito do Amis pai. Também não desgostei do Amis filho. Em certos momentos chegou a lembrar-me o velho Damon Runyon, e não sei o que posso dizer de mais elogioso. Mas também me tocou uma campainha de Lobo Antunes mas de quando eu gostava de Lobo Antunes mas agora já não, por isso não sei.

Não desrecomendo a ninguém, antes pelo contrário, a leitura de Yellow Dog, da autoria de Amis, Martin, filho de Amis, Kingsley, mas para mim, na minha opinião, parece-me pessoalmente que vou continuar a preferir o pai. Freud, filho de Jacob, poderia explicar. Mas ninguém garante que explicasse bem ou que alguém entendesse.

Lá pelo meio, há um personagem deliciosamente Runyonesco (creio que dá pelo nome de Tony Eist) e que nos é apresentado como um bandido entre bandidos, um tipo tão intrinsecamente desonesto que comete crimes mesmo nos seus alibis. Do género: Mas como é que eu podia fazer a caixa do Multibanco no Montijo se a essa hora estava a enrolar uma velha na Trofa? No caso da edição que li, valeu a pena ler chegar a páginas 261 para dar com este Tony Eist.

Por falar em nomes, agora vejo que há também neste cão amarelo algo de reminiscente do bom velho Diniz Machado e do seu Molero. Desde Austin, Mister DeLuxe, Peida Gadocha, Descoiso e companhia que não apanhava uma galeria de personagens com nomes tão tão tão: Russia, uma americana; He, uma mulher extremamente oriental; Love, um criado do rei; Car, um ex-futebolista galês caído em desgraça; And, um gajo qualquer; e outros, muitos outros. Exuberante e prodigiosa, a nomenclatura Amisiana filha.

E prontos. Não asso mais carapaus. Leiam, se quiserem, ou não, se não.

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17.10.08

Viagem de Bentley


'The moustache of Adolf Hitler
Could hardly be littler,'
Was a thought that kept recurring
To Field- Marshal Goering.

'No, sir,' said General Sherman,
'I did not enjoy the sermon;
Nor I didn´t git any
Kick outer the litany.'


'Clerihews'
(excerto), de E.C. Bentley

15.10.08

Random Reflection

How odd
Of God
To choose
The Jews!


Isto deve-se a W. N. Ewer (Ewer, William Norman, 1885-1976, jornalista, evidentemente britânico, também conhecido por Trilby, pseudónimo). Não sei porquê, apeteceu-me botar isto aqui. E apeteceu-me ilustrar isto com o episódio da luta entre Jacob e o Anjo (sendo que Jacob é o artista posteriormente conhecido como Israel e Anjo é provavelmente um pseudónimo de Deus, neste como noutros episódios). Mas que se lixe. A quadrinha é bem caçada e a imagem é bonita, não é? Isso é que interessa. Ou não, talvez. Mas adiante.

Sendo os judeus um povo a quem se tem acusado de tudo menos de falta de sentido de humor, atribui-se a Leo Rosten a seguinte resposta:

Not odd
of God.
Goyim
annoy 'im.


Para quem não saiba e não esteja para se chatear a ir ver, goyim são os gentios, que é o que nós, os não-judeus, somos, para os judeus.

Num registo de quem leva a coisa mais a sério, há esta outra resposta que a Wikipedia não sabe se há-de atribuir a Cecil Brown ou a Ogden Nash. Eu, que só conheço o segundo, diria que não interessa muito de quem é. Diria também que não é preciso ser nenhum Sherlock Holmes para deduzir que é de autoria goyim. É assim:

But not so odd
As those who choose
A Jewish God
Yet spurn the Jews.


Tendo chegado ao Ewer e à sua singela Random Reflection por via do meu já citado Modern Humour, an anthology for the sixties, a Wikipedia é que me permitiu dar estes saltinhos até ao Ogden Nash, com cujo me proponho encerrar o posto. Joyce Kilmer (não faço ideia quem cereja e não se me fez o clique de indagar) terá avançado com isto:

I think that I shall never see a poem lovely as a tree.

E vai o velho Ogden:

I think that I shall never see
A billboard lovely as a tree.
Perhaps, unless the billboards fall,
I'll never see a tree at all.


E com esta me fico. Quanto mais não seja até à próxima.

16.9.08

Poesia McCannica


Father heard his children scream,
So he threw them in the stream,
Saying, as he dropped the third,
'Children should be seen, not heard.'


Harry Graham (Ruthless Rhyme)

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9.9.08

Corsaro mio




Por acasos que não vêm ao caso, reacenderam-se na minha memória os ecos das aventuras de Emilio Salgari. Daí partilhar com vós outros este texto de Paulo Varela Gomes.

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Claro que, entre as minhas memórias e as de Paulo Varela Gomes, há pequenas diferenças de pormenor. Eu comprava-os e posso assegurar que custavam 8$00. 15 mil réis seria um absurdo, uma extravagância, quase uma bicicleta.

Mas, ínfimos detalhes à parte, soube-me tão bem ler estas memórias como me sabia, na altura, chegar a casa com um novo Salgari, acabadinho de sair das penumbras da própria Romano Torres, na Rua Nova de São Mamede, ali à Escola Politécnica, rasgar-lhe as folhas que ainda vinham por abrir (nem sempre com um corta-papel, nem sempre com muito cuidado, que a ânsia era muita e os oito paus desinibiam bastante), e pespegar-me a lê-lo numa postura que não faço ideia onde fui arranjar mas que pratiquei durante bastante tempo e era assim: o livro no chão da sala, aos pés daquilo a que na altura chamávamos um maple, eu também no chão, de joelhos, com a cabeça apoiada no assento do dito maple. Também era nesta figura que me punha para ler outras coisas, evidentemente, mas poucas com tanta voracidade como o Corsário Negro e os irmãos Verde e Vermelho, e a filha, a Iolanda de Vintemilhas, e o Carmaux e o Van Stiller, e o Morgan e o Pedro, o Picardo, e Maracaíbo e as selvas e as tascas e aquilo tudo que este texto veio desassossegar.

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13.8.08

Reininho avant la lettre

A horrorosa natureza como ela é.

Nature
Daniel Pettiward

It's a pity that nature entails
Such things as snails
And that being alone with it implies
So many flies
.

- -
Entomologicamente picado da anteriormente citada antologia.

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12.8.08

Sai um hotel inglês (weather oblige)

Encontrei isto num velhinho e fabuloso Everyman Paperback (Modern Humour, An anthology for the sixties, from Belloc to Wodehouse) e pareceu-me que vinha a calhar. Eu cá gostei. Tendo o autor abandonado o seu envólucro mortal em 1945, só posso deduzir que o texto seja algo anterior. Pouco importa. Eu cá gostei. Tomai e provai.







Hotel Piece
Herbert Farjeon

As manageress of the Talbot Arms
I try to keep the tone up;
I’ve a smile that cheers and a voice that charms
Our visitors when they phone up;
A very good class we cater for
In tweeds and aquascuta
That don’t disgrace our antlers or
Our sporting prints of pewter.
My coiffure cannot fail to pass,
My spray is picturesque,
My nails are nice, and I keep a glass
Of stout behind the desk.
It’s true our guests may sometimes fail
To tip the under-porter,
Our chambermaids could tell a tale
Or two about hot water,
We sometimes find a lady’s comb
In a bedroom that surprises,
But there! to make a home from home
It takes all sorts and sizes.

There’s No. 37 who is given to complain,
And No. 5 whose overcoat has lost its collar-chain,
17 is quite a puzzle — I can’t think what he’s about —
He keeps on going out and coming in and going out;
No. 12 is so extremely hoity-toity and select
He never says Good Morning, which is
not what I expect,
And No. 44
Has forgotten to bring more
Than the top of his pyjamas, which creates a bad effect.
No. 2 is back from Egypt, which is rather more my line,
But you can have the lot if you will give me No. 9 —

Oh, the leather of his suit-case really gave me such a thrill
That every time I see him, I can somehow smell it still;
He’s a dozen pair of boots, and he’s a dozen pait of trees
(You can always tell a gentleman by little things like these),
He telephones to Ascot, and he telephones to Cowes —
It’s for him I wear these lilies of the valley in my blouse.
Oh, No. 9, yes, No. 9 is all the rage with me,
It gives me quite a flutter just to think I have his key,
And his voice! I often mention to him, just to hear him speak,
What simply gorgeous weather we experienced last week.
He’s got a place in Dorking that I gather is divine,
And the extras he has had! the baths! the billiards! the wine!
Oh, I feel that this hotel
Would do very, very well
If we had a few more clients of the class of No. 9.

Our lady guests are apt to be more fussy than the men —
What with draughts and smells and ringing bells, I’m sick of No. 10;
That wretched little dog of hers should really be restrained,
She should keep it in a kennel if she cannot have it trained.
No. 20 is less bother, but I must confess I hope
Next time she leaves the writing-room, she’ll leave
one envelope —
It’s funny how the
Sphere
And the Tatler disappear!
When she goes away on Friday I quite tremble for the soap.
But to all these little troubles I most willingly resign,
For after all, there’s always, yes, there’s always No. 9!
I’ll bet he looks a dream when they take in his morning tea;
He’s A.A. through and through, with not a trace of C.T.C.;
He is always so agreeable, with a pleasant word to say,
I’ll be quite the Madam Butterfly the day he goes away;
Our little conversations are so chatty and so bright
That I’m sure he rather likes me — though of course it’s quite all right.
This morning, when I said the weather really was a shame,
He said it really was — we somehow always think the same —
Then he asked me, Was I busy? and I said: ‘Just one long buzz,
But working stops you thinking’, and he answered: ‘Yes, it does!’
And then I looked straight in his eyes, and he looked straight in mine,
And I said: ‘Well, just for your sake, I do hope it comes out fine.’
Oh, I’m sure that this hotel
Would do very, very well
If we had a few more clients of the class of No. 9.


- - -

A aquascuta do sexto verso intrigou-me ao ponto de me levar a coscuvilhar na internet. Parei com a coscuvilhice poucos segundos depois, ao constatar que aquascutum era uma marca de roupa de alto gabarito que já existia nos tempos de infância do autor, que me parece menino para pluralizar tranquilamente o latim. Não é provável que tal aconteça, mas seria como alguém aparecer no meio de uma versalhada mais contemporânea adornado de rosas & teixeiras, ou c'umas bershkas, consoante o calibre do alguém.

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29.1.08

Restart

Após mais um período de hibernação, o Desinfeliz regressa como se nada fosse. Até porque, em vendo bem e desapaixonadamente a coisa, nada é. O que mais falta para aí é blogues, ninguém fica à míngua.

Nestas ocasiões é muito comum perguntar-se "Onde é que eu ia?". Claro que também há quem volte a si com um simples e directo "Já está na mesa?", ou com um mais filosófico "Quem sou eu?", mas o "Onde é que eu ia?" dá muito mais jeito nas presentes circunstâncias. Dá jeito porquê, perguntará algum deseventual acompanhante deste sucedâneo de raciocínio*. Porque era nos livros que eu ia e é com livros que vou retomar, responde o Desinfeliz.

Vamos então, rapidamente e em força, aos mais recentes inquilinos da mesa de cabeceira do Desinfeliz.

O Paradoxo do Pacheco é tal e qual o que se espera, nem mais nem menos: uma compilação de textos do Pacheco sobre esse ornitorrinco que é o PSD. Bonzinho, portanto.

Já o Maneta do Pulido Valente pode ser classificado, sem grandes receios de incorrer em exagero, como uma valente seca. A evitar cuidadosamente por quem não sente a necessidade imperiosa de saber mais sobre um certo e determinado tipo de consequências das invasões francesas naquilo a que se pode chamar o ordenamento social português e/ou por quem não reaja «bem» às constantes «aberturas» e «fechaduras» de «aspas», que me «pareceram excessivas» e chegam «a» tornar-se «irritantes».

Quem me surpreendeu pela positiva foi a ex-camarada Zita Seabra. Como diria o outro, só tenho dois adjectivos: gostei e recomendo.






* Estou em crer que poucas vezes o estimado leitor terá sido tão achincalhado, na blogosfera ou fora dela. Desenventual acompanhante de sucedâneo de raciocínio não é a coisa mais civilizada para se chamar a quem teve a decência de voltar ao lugar do morto. O morto/ressuscitado pede as devidas desculpas e agradece a militância.

24.10.07

A Sombra da Catedral dos Hussardos de Cabul

Mais por acaso que por outra razão qualquer andei ultimamente a ler umas quantas obras de autores espanhóis, coisa que habitualmente não fazia muito (também por razão nenhuma em particular, apenas porque não calhava). A conclusão a que vou chegando é que, pelo menos para este efeito, os ustédes são como as outras pessoas: uns melhores e outros piores, com uma maioria de assim-assins pelo meio.

A minha amostra é tão absolutamente aleatória que deve ter um alto valor científico. A avaliação baseia-se no mesmo número de obras por autor (uma, concretamente). O único género testado foi o romance. Comecei pelo Pérez-Reverte e estou a acabar no Montalbán, tendo entretanto passado pelo Falcones e pelo Zafón. Note-se que esta familiaridade (o Falcones para cá e o Zafón para lá) é a posteriori; até agora só sabia da existência dos outros dois, o Reverte e o Montalbán, e nunca tinha lido nada de nenhum.

O primeiro que se me atravessou no caminho foi O Hussardo, de Arturo Pérez-Reverte. Não fora o caso de ter ouvido uma entrevista do Arturo, em que só lhe faltou negar peremptoriamente a autoria deste livro, e nunca mais iria ler nada deste ustéd. É daqueles que só se lê até ao fim porque é mesmo pequenino. Nem sequer chega a ser mau, é só de uma inutilidade total. Bem espremidinho, talvez desse um capítulo interessante para um livro como deve ser. Adiante.



Seguiu-se A Catedral do Mar, de Ildefonso Falcones. Este sim. De longe o melhor dos quatro. E o maior também, que é uma coisa que me agrada nos livros que me agradam. Aquilo dá voltas e voltas e mais voltas, sem nunca chegar a enrolar-se irremediavelmente. Notável. A única decepção que me causou foi, pouco tempo depois, ver ao vivo a dita Catedral (mais conhecida localmente por Basílica). Nunca tinha ido a Barcelona e, à conta do Falcones, não descansei enquanto não fui lá meter o bedelho. Quem tenha lido ou venha a ler a coisa há-de concordar que o mínimo que se espera é que as pedras tenham uns três metros de largo por dois de altura e um de fundo. Vai-se a ver e são umas pedritas banalíssimas. Nada que tire beleza à Basílica (nem ao livro).



(Atenção agora: contém spoilers)

Sem sair de Barcelona, passei para A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón. Este intrigou-me particularmente. Que vendeu não sei quantos milhões de exemplares em meia hora, que ganhou os prémios todos e mais alguns, que isto e aquilo e mais o outro... Esqueçam isso tudo. Façam como eu devia ter feito: vejam a foto da capa, que não é má de todo, atentem um bocadinho no título e sigam o instinto que vos diz que alguém capaz de escrever um livro de jeito também seria capaz de lhe arranjar um nome em condições. A Sombra do Vento... Sinceramente. Uma coisa tem que se reconhecer ao Zafón: com um título destes ninguém pode dizer que foi ao engano. A Sombra do Vento. Sem falar em tudo o resto, que é igualmente mau, confesso que fiquei siderado com o truque de ele e ela, os apaixonados até à morte, serem irmãos e não saberem. Julgava que havia uma espécie de acordo tácito entre escritores e leitores para não se voltar a usar esse número fora do domínio das telenovelas. O embuste é de tal ordem que lá para o fim, quando o narrador-protagonista diz que morreu daí a sete dias, a gente já nem se admira. Aliás, até dá algum sentido a tudo o resto, na medida em que dificilmente se podia exigir a um morto que escrevesse como deve ser. Claro que no finzinho mesmo o gajo afinal não morreu. Infelizmente, diga-se. Sempre seria uma pequena consolação para os desinfelizes de juízo que lêem aquela porcaria toda.



Finalmente, eis-me chegado ao famoso Montalbán, Manuel Vásquez. Tendo sobrevivido tão recentemente ao Zafón, não quis abusar da sorte e a páginas 50 já o pus de lado. Bacoco, bazaroco, fraquinho fraquinho, mau, muito mau, péssimo, possidónio, presunçoso, pindérico, apalermado: a dificuldade está em sintetizar tudo o que se poderia e deveria dizer sobre Rumo a Cabul (cuido que seja este o nome do livro, porque aquilo vem adornado com Milénio I e Série Pepe Carvalho, para além dos habituais nomes do autor e da editora). Pode ser só azar meu, porque tanto quanto me é dado perceber o homem escreveu uns quinhentos livros, trezentos dos quais com este Pepe Carvalho (mais um caso para seguir os instintos básicos: Pepe Carvalho...), podendo este ser apenas um dos poucos que enfim, coitadinho...

Conclusões e moral das histórias: pelo seguro, acho que me vou manter tão longe do Montalbán como do Zafón; vou dar uma segunda oportunidade ao Reverte; se me aparecer mais alguma coisa do Falcones marcha imediatamente, na plena consciência de que poderá não estar à altura da Catedral; 50% dos romances espanhóis não valem um calamar; na dúvida, como em quase tudo, é de evitar aqueles de que mais se fala. E olé.

28.5.07

De puto a velho em meia dúzia de páginas


Um puto. Um autêntico puto. Como chamar outra coisa a alguém que nasceu em 1976? Não vou dizer que podia ser meu filho, porque em 1975/76 a minha vida social ainda não tinha atingido esse patamar. Mas não seria biologicamente impossível.

Claro que podia chamar-lhe simplesmente João Pereira Coutinho, sem o puto (que, mesmo assim, não seria do pior que lhe têm chamado). Confesso que, apesar ou talvez por causa das diferenças (geracionais e ideológicas, por exemplo), nunca desgostei de o ler. Antes pelo contrário. Mas também não andava para aí doido a ler tudo e mais alguma coisa do puto, nem entrava em depressão se perdesse uma ou duas dezenas de colunas. Achava piada ao puto, pronto.

Mas confesso que não esperava lê-lo e sentir-me, subitamente, identificado com ele. Com o puto. Então não é que, lá pelo meio da Avenida Paulista (que a Sábado ofereceu, e que é uma colectânea de crónicas publicadas na Folha de São Paulo, ou seja, como prometido pela publicidade, inéditos para o leitor tuga como eu), o puto se revela um verdadeiro e profundo apreciador de P. G. Wodehouse, esse Mestre entre os mestres, que tantas vezes ajudou a iluminar os últimos estertores da minha adolescência e os primeiros e titubeantes passos na idade adulta (ou seja, até hoje)?



Agora, ainda a meio da Avenida Paulista, já me sinto a ler um livro do bom e velho Pereira Coutinho. Righty-ho e what not, João.

18.5.07

Este já está



Isto da net em geral e dos blogues em particular e de uma pessoa aproveitar essas maravilhas dos nossos dias para dizer o que realmente quer, isso tudo tem que se lhe diga. Então não é que, pelos meus anos, alguém me ofereceu mesmo os Filhos de Húrin?

Quem, por esta altura, se achar demasiado fora de jogo, é favor descer um pouco por aí abaixo e ver, nem que seja de relance e na diagonal, um post anterior intitulado Ler ou não ler, comprar ou não comprar...

A história, não tendo mudado, não está nada mal cosida (1 ponto para Christopher). Deu-me até a ideia de estar um pouco aligeirada (não no sentido mais semântico mas no sentido mais literal, ou seja, contada em menos palavras e eventualmente num estilo um pouquinho mais upbeat e uptodate; o que, a ser verdade, retira o tal ponto já atribuído a Christopher, no meu entender, mas posssivelmente acrescenta-lhe mais 2 ou 3 pontos no entender de quem esteja a ler a história pela primeira vez e nunca a tenha visto mais au naturel).



O preço (versão em inglês, Harper Collins, capa dura, €24,75) também tem que se lhe diga. A mesmíssima coisa que eu tinha visto na Fnac (tradução, Europa-América, capa mole) custa agora 22 euros e picos. Pelos vistos, passei ao lado de uma pechincha, até porque aquilo era uma série numerada e tudo... Mas onde eu quero chegar é aqui: se a edição inglesa de capa dura chega cá a 2 euros mais que a local de capa mole, quanto mais será preciso roubarem-nos até que o povo se revolte e defenestre alguém ou deixe pura e simplesmente de reciclar embalagens, pagar impostos e fazer pisca-pisca (os tontos como eu, que fazem essas coisas)?

Quanto ao velho Túrin propriamente dito, foi com algum prazer que o reencontrei nas suas atribuladas e literalmente malditas vidas. Master of doom, by doom mastered. Não sei se, no vastíssimo universo Tolkieniano, não será o personagem com mais cognomes, heterónimos e nicknames. Para além do Turambar, que me estava bem agarrado aos neurónios, ele é o Adanedhel, ele é o Agarwaen, ele é o Bloodstained, ele é o Dread Helm, ele é o Gorthol, ele é o Neithan, ele é o Mormegil (o meu favorito pessoal), ele é o Wildman of the Woods, ele é o The Wronged, ele é o Bane of Glaurung, ele é o The Black Sword... (Não se aceitam reclamações de puristas a dizer que há aqui repetições do mesmo nome em línguas diferentes. Eu é que escrevo isto e faço como eu quero.) Claro que, em comparação, a desgraçada da irmã faz fraquíssima figura, com apenas o nome de nascença (Nienor) e um posteriormente adquirido (Níniel).

Eu, nem que seja a mim próprio, recomendo. Agora que se acabou vou continuar com something completely different que já andava a ler: o velho Rushdie, com o seu Shalimar the Clown. Do bom e do melhor.

17.4.07

Ler ou não ler, comprar ou não comprar, eis as questões


Saíu hoje, se não me engano. Já o vi (na Fnac, a 20 euros e 7 cêntimos) e não o comprei por várias razões: os 7 cêntimos, claro; o facto de ser a versão portuguesa (Europa-América, ainda por cima); o facto de que já li esta história umas três vezes em outros tantos contributos do filho para a divulgação da obra do pai e vice-versa (Silmarillion, Unfinished Tales, The Book of Lost Tales - The History of Middle-earth, vol. II).

A história, em qualquer das versões, é forte e rica, para não lhe chamar densa. O personagem central, Túrin (o homem das mil alcunhas, das quais a única que me ficou foi Turambar) é um cromo dos mais difíceis que imaginar se possa. Comparadas com a vida deste sujeito, as noções de mau-fado e maldição são demasiado benignas. O destino do homem não é pesado nem pesadíssimo, é um pesadelo.

A questão é: conhecendo já três versões diferentes, valerá a pena comprar a quarta? Neste caso, a promessa de Christopher é de eliminar as contradições entre as várias versões quase em bruto que já foi publicando, acrescentando apenas as estritas e necessárias ligações para formar um todo coerente. O exemplo do Silmarillion leva-me a acreditar na promessa. As ilustrações do Alan Lee valem sempre a pena. Sendo eu um releitor quase compulsivo e provavelmente incorrigível, o mais natural seria dar por mim, um destes dias, a reler uma das tais versões em bruto. Ou seja: pelos vistos a questão está resolvida. É de comprar. Em inglês, naturalmente (só acrescento este pormenor porque, a comprar, não é obrigatório que seja eu a fazê-lo e, estando o meu aniversário já relativamente próximo, pode sempre haver quem esteja na dúvida entre o after-shave, a peúga e o Tolkien...).

9.3.07

Pérolas Vermelhas (X)



"Dzhh! Dzhh! Dzhh..." Terão sido estas as últimas palavras de Estaline, na sequência de um badagaio de índole cardíaca que o deixou prostrado durante horas sem que ninguém se atrevesse sequer a ir ver o que é que se passava.

Quando, passadas essas horas, alguém sentiu o medo de não ir ver sobrepor-se ao medo de ir ver, o que viu foi o Ti Zé no chão, em pijama bastante urinado, contorcendo-se a custo e dizendo, apenas, "Dzzhh! Dzhh...". Seguiram-se mais uma carrada de horas, durante as quais o círculo mais próximo do Grande e Estrebuchante Líder procurava decidir o que fazer, para além de pegar no Ti Zé e deitá-lo no sofá da sala onde se encontrava.

Aquilo que noutras circunstâncias e com outras pessoas seria uma acção automática — chamar um médico — foi um dilema muito difícil de ultrapassar. Naquela altura, estava em curso uma purga sistemática da classe médica. Os médicos reconhecidamente mais competentes estavam acusados, presos, degredados e por aí fora. E todos eles, pelo facto de serem médicos, estavam sob suspeita. Havia um certo receio entre os potentados de que o Ti Zé, a reagir, reagisse mal ao simples facto de ver um médico por perto.

Entre todas as versões possíveis e imaginárias, do envenenamento à passividade propositada, a que surge como mais plausível da leitura do Montefiore* é talvez a mais simples e a mais terrível: medo. Medo de Estaline, ainda que visivelmente nas últimas, medo uns dos outros, medo puro, desmedido e entranhado.

The End - Koniec - Dzhh

* Relembro que todas estas pérolas são retiradas de Estaline, A Corte do Czar Vermelho, de Simon Sebag Montefiore.

28.2.07

Pérolas Vermelhas (IX)


Para hoje, seleccionei três pratos. Uma entrada ligeira, uma fortíssima pièce de résistance e uma saída comparativamente doce e airosa.

Para começar, temos Avô de Putin au naturel. Pois é. O avô do actual presidente russo, Vladimir Vladimirovitch Putin, foi chefe de cozinha numa das casas de Estaline. Segundo o neto, o Chef Putin nunca lhe revelou fosse o que fosse sobre esses episódios: "O meu avô mantinha um grande segredo a respeito da sua vida passada". O que é pena porque, antes de confeccionar as pantagruélicas jantaradas do Ti Zé, o Vovô Putin já tinha cozinhado para Lenine. E antes, ainda rapaz, tinha servido o próprio do Rasputine. Há que compreender que o segredo pode muito bem ter sido a alma da longevidade do homem, mas umas memórias deste Mestre dariam certamente umas centenas de páginas suculentas.

Agora, com os devidos avisos aos estômagos mais sensíveis, passamos ao prato principal, à base de carnes batidas e miolos fritos. A dada altura, o pequeno Iezhov supervisava os torturadores, que tinham um jargão próprio para o seu métier, do qual se pode destacar a "luta livre francesa" (frantsuskaya borba, no original), substantivo genérico para a modalidade ou processo de destruição de um ser humano inocente. Quando alguns destes rapazes foram por sua vez interrogados, uns anitos mais tarde, explicaram em detalhe como usavam o zhguti, o taco especial, e o dubenka, ou seja, o bom, velho e simples cacete, bem como as tradicionalíssimas privações do sono e os interrogatórios constantes, a que davam o nick de tapete rolante. A respeito destas sessões, Kaganovitch achava "muito difícil não ser cruel: é preciso ter em consideração que se tratava de Velhos Bolcheviques empedernidos; como poderiam testemunhar voluntariamente?". O sempiterno Molotov sublinha que "o Politburo estava cheio de gangsters". Salvo grandessíssimo erro da minha parte, o Molotov era um dos ingredientes do Politburo...


Para sobremesa, nada como uma apetitosa e calórica dacha. Estas casinhas, que nem sempre eram tão humildes ou rústicas como eu supunha, eram um item muito pretendido entre os potentados do regime (não sei porquê, a palavra dacha sempre me evocou na mente umas cabanitas simplórias e proletárias, mas havia de tudo, desde o antigo palacete recuperado à novíssima vivenda assinada por arquitecto certificado). Vichinski, por exemplo, sempre cobiçara a dacha de Leonid Serebriakov. No âmbito do julgamento de um outro fulano (Radek), Vichinski interrogou e acusou Serebriakov (vá-se lá saber de quê). Tendo o julgamento produzido os efeitos pretendidos, Vichinski exigiu a citada dacha para seu uso, conseguindo inclusivamente ser reembolsado pela sua antiga casa e receber um subsídio de 600.000 rublos para restaurar a 'nova'. Depois da morte do Ti Zé, a família Serebriakov conseguiu reaver metade das propriedades que lhes tinham sido confiscadas, mas os Vichinski conservaram a outra metade. Assim, em 2002, 60 anos depois de o pai ter sido fuzilado por ordem do vizinho, os Serebriakov passavam os seus fins-de-semana paredes-meias com os Vichinski.

De então para cá, não tenho mais notícias que sirvam de café ou de digestivo. À laia de ilustrações, o menú do dia é abrilhantado, não necessariamente por esta ordem, por Vichinski e Putin (o neto, que o avô não se encontra no google com facilidade).

27.2.07

Pérolas Vermelhas (VIII)

Tal como já se havia aqui mencionado muito en passant, o revisionismo histórico-fotográfico era uma das grandes especialidades da casa do Ti Zé. E sem photoshops a ajudar, tudo à unha.


Claro que os artistas mais consagrados estariam ao serviço do Pravda e de outras instituições, mas mesmo ao nível privado havia quem exercitasse os seus dotes de apagador de indesejáveis. Em casa de Anastas Mikoian, homem do núcleo duro que se aguentou até aos tempos de Khrushchev, habitava um jovem de nome Sergei Shaumian que ia sempre actualizando cuidadosamente os álbuns de fotografias da família, apagando todos os Inimigos à medida que iam sendo presos e executados.

Claro que o critério para definir os Inimigos era bastante abrangente. As pessoas eram presas, torturadas, deportadas ou, de preferência, mortas, não pelo que tinham feito, mas essencialmente pelo que poderiam fazer. Molotov explica: "O principal era que, no momento decisivo, não se podia confiar neles. Assinei a maior parte — na realidade todas — das listas de detenções. Debatíamos e tomávamos uma decisão. Havia sempre uma enorme pressa. Como seria possível entrar em todos os pormenores? Por vezes, eram pessoas inocentes. Obviamente, uma ou duas em cada dez foram detidas sem motivo, mas as restantes por boas razões" (num só dia, chegaram a ser aprovadas 3167 execuções). Estaline também não deixa grande lugar a dúvidas: "Um Inimigo do Povo não é só aquele que faz sabotagem, mas também aquele que duvida da justeza da linha do partido. E são muitos, e temos de liquidá-los". E Bukharine eleva o nível do discurso: "Há qualquer coisa de grande e ousado na ideia política de uma purga geral, (porque) fará nascer uma desconfiança perpétua (...). Deste modo, a liderança está a obter uma garantia plena para si mesma".


No seu livro A Casa do Cais, um tal de Trifonov relata como todas as manhãs o porteiro uniformizado da dita casa (um monstrengo à beira-rio, não muito longe do Kremlin, habitado por boa parte da nomenklatura, comissários do povo, Khrushchev incluído, e parentela de Estaline) comunicava aos moradores quem fora preso durante a noite. Para além do photoshop, ainda faltava o e-mail para tudo se fazer com mais comodidade.

Os bigodes do dia são de Mikoian e Molotov.

20.2.07

Pérolas Vermelhas (VII)



Ti Zé no seu melhor, em conversa com Chou En-lai, defendendo a tese de que os norte-coreanos poderiam continuar a lutar indefinidamente, de preferência sem apoio soviético e a expensas diplomáticas da China: "Eles não têm nada a perder, excepto homens". Poder de síntese absoluto .

14.2.07

Pérolas Vermelhas (VI)


Tarde e más horas, o Ti Zé apercebeu-se da importância de ter A Bomba. A guerra estava nos finzinhos, já só faltava mesmo acabar de vez com os japoneses e repartir os despojos (repartir o estritamente indispensável...), e eis que Master Moustachov se apercebe, finalmente, de que a União Soviética tem de correr e bem para conseguir chegar à Bomba em tempo útil.

Vai de arranjar um nome de código a condizer com a importância e premência do projecto (Tarefa Número Um, nada que deixasse grande lugar a dúvidas), vai de nomear o camarada Béria para dirigir o projecto e vai de dar à coisa uma escala russa: qualquer coisa entre 330.000 a 460.000 pessoas, entre as quais 10.000 cientistas e outros técnicos, entre os quais avultava o físico Igor Kurtchatov (Nobel das Barbas, no mínimo).


Béria controlava esta maltósia nas charachkis, umas prisões especialmente concebidas para especialistas técnicos, que Soljenitsine descreve em O Primeiro Círculo. Quando algum dos envolvidos sugeria que talvez pudesse trabalhar melhor em liberdade, Béria, a quem não faltava o sentido de humor, contrapunha: "Não duvido, mas seria perigoso. O trânsito nas ruas é uma loucura, e podia ser atropelado".

Estaline, a quem a ciência aborrecia mas que ainda não estava completamente gagá e não perdia de vista o lado prático das coisas, acreditava num equilíbrio entre ameaças e mimos para pôr os cientistas a render: "Deixem-nos em paz. Podemos sempre fuzilá-los mais tarde".

13.2.07

Pérolas Vermelhas (V)


Hoje em destaque temos o camarada Lazar Kaganovitch, a.k.a. Lazar de Ferro, o ferroviário-mor do imenso país do sovietes. O responsável pela CP da CCCP.

Em parceria com um sujeito chamado Leonid Utesov, escreveu um manual intitulado Como Organizar Conjuntos de Canto e Dança e Orquestras de Jazz nos Caminhos-de-Ferro. A páginas tantas, o manual decretava a necessidade de constituir, implementar e manter em acção uma banda de dzhaz em cada estação de comboios soviética.

Há que reconhecer que sempre seria melhor do que os Mários Matas dos corredores do metro ou que os ceguinhos do acordeão, não desfazendo.