"Pode ser que sim. Pode ser que não. Não posso garantir." - in Astérix, A Volta à Gália
15.3.09
Ontem, hoje e amanhã
Já hoje, logo pela fresca, no José Arcanjo, quatro secos ao Portimonense, incluindo hat-trick de Djalmir, dos de letra, com os três seguidinhos, praticamente garantem a subida do Olhanense, se bem que o título ainda não.
É assim a vida. O mais chato é não se poder exterminar o Flores.
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8.2.09
Blogue temporariamente activo
E para quê, perguntar-se-á o cliente habitual, já habituado a vir aqui e não ver nada de novo, quiçá num derradeiro descargo de consciência antes de apagar definitivamente o bookmark. Perguntar-se-á muitíssimo bem, esse cliente habitual, pois nem eu próprio saberia o que lhe responder há exactamente um minuto atrás.
Agora já estou em posição de avançar o pretexto para a suspensão da suspensão (digo o pretexto porque estou convencido que a verdadeira razão para a suspensão da suspensão será a própria suspensão da suspensão, fazer prova de vida, uma pessoa afeiçoa-se aos blogues, e não é só aos dos outros). Mas, passado o interlúdio pseudoanalítico, cá vai o pretexto: fui ver o Benjamin Button.
É verdade. Fui ver o Benjamin Button. E não é que gostei? Não detectei aquele fenómeno relatado por outras testemeunhas oculares, e que é perfeitamente compreensível, de a sala se encher de mulherio após o intervalo. Na minha sessão (chame-se-lhe imodéstia, mas é assim que penso nas sessões a que assisto) não se verificou esse afluxo. Diria, a quem ainda não tenha visto o filme e pense fazê-lo para ver o Brad Pitt em estado novo, que já agora aproveite e veja também a primeira parte. Não paga mais por isso e, no meu desentendimento, ainda beneficia da oportunidade de ver um excelente filme de fio a pavio.
É verdade. Um excelente filme. Não me vou pôr a dizer mais, até porque já disse duas vezes (agora será a terceira) que é um excelente filme, e até porque a internet do tal eventual cliente habitual será certamente capaz de lhe fornecer bastantes e diversos resumos, críticas e outras opiniões que tais, mas sempre acrescento que, para além do Brad Pitt, vale a pena ver a Cate Blanchett, vale a pena tentar pronunciar o nome do neguinho que faz de Mr. Weathers, vale a pena reparar em pormenores como a formação dos logotipos da produtora e da distribuidora (coisa que o mulherio da segunda parte nunca viu), ou como as lentes dos óculos de Benjamin, num plano ou outro, devidamente sujas como só nós, os caixas-de-óculos, sabemos.
Para não abusar dos adjectivos e para não repetir o excelente pela quinta vez, fico-me pelo proverbial gostei. E agora vou ali e, quiçá, já venho.
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19.1.09
Every little bit hurts
O Desinfeliz já tinha prometido e, para gáudio de uns e tédio de outros, vai cumprir: The Clash, o livro, vai abrilhantar este humilde weblog. Não porque as leis em vigor o não permitam (que não permitem certamente), mas por uma réstea de bom senso e por uma enorme dose de egoísmo, não vou transcrever a obra na íntegra. Excertos, meros excertos, é o que se me oferece oferecer.
Começo, por exemplo, pelo princípio. Que é, não por acaso, o fim. O começo do livro, o fim da banda.
(Perdoem-me, todos, o possível excesso de parêntesis; deve ser da idade, não sei o que é que me anda a dar para meter disto a torto e a direito, ainda consigo conter as reticências em público e é um pau; perdoem-me, também, os que já sabiam certas coisas que eu não; vamos lá a isto, pessoal; tradução, edição e adaptação by Desinfeliz).
O princípio do fim foi quando o Topper (Headon) foi corrido, em 1982. A saída do Mick (Jones) um ano depois foi a dissolução final da lendária formação dos Clash. Embora Joe (Strummer) e Paul (Simonon) tenham continuado, recrutando três novos elementos para substituir Topper e Mick, em 1984, Joe é peremptório nas suas entrevistas para este livro: o the end dos The Clash começou com essa perda de Topper.
Confesso que o mundo tal como eu o conhecia me desabou aos pés enquanto lia este parágrafo. Desde os meus vinte anos até à data presente vivi (vegetei, melhor dizendo) na convicção de que a saída de Mick Jones tinha sido o princípio do fim. Nunca, nem antes nem depois disso, foi a massa obtusa a que chamo cérebro capaz de admitir a hipótese de Topper Headon ser algo mais do que um figurante capaz de acertar com uns paus nuns tambores sem perder o ritmo.
Um parágrafo, uma revelação. Hão-de desculpar-me os crentes, mais ou menos praticantes, mas nem a Bíblia, nem o Corão, nem tão pouco A Filha do Corsário Negro (só refiro obras que já li) apresentam semelhante contundência, se é que é isso que eu quero dizer.
Por hoje, para começar, isto acaba aqui. Depois logo se vê, ou não, antes pelo contrário. OK?
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Na boca de Obama

Estes dias são dias negros para aqueles que acreditam na paz na Terra Santa. Mas a História já mostrou que a violência pode dar lugar à razão, a novas realidades e a oportunidades insuspeitadas. Cabe-nos a nós procurá-las, explorá-las e acarinhá-las.
Ao povo Palestiniano: neste dia declaramo-nos vossos aliados. Aliados, porque sabemos que o vosso desejo de paz, de um futuro estável e produtivo, de liberdade e auto-determinação, é um desejo real. A vossa causa é justa. O vosso desafio é monumental. Os vossos sacrifícios têm sido heróicos. Mas se queremos que os vossos filhos conheçam a paz, numa Palestina independente, haverá novos sacrifícios a fazer, que não exigirão menor bravura da vossa parte e talvez exijam muito mais.
Tal como escolheis as vossas batalhas, assim tereis de escolher os vossos sonhos. Escolhei a paz. Renovai o vosso compromisso com a coexistência. Fazei essa escolha e nós comprometemo-nos solenemente a ser mais que um intermediário. Seremos vossos defensores.
Aprendemos a vossa história, aprendemos a compreender as tragédias que sofrestes e a dor que suportais. Admiramo-vos pela vossa determinação. Valorizamos a vossa profunda ligação à Terra Santa. Sabemos que não podeis ser quebrados. Sabemos que não podeis ser forçados, que não sereis vergados.
Sabemos que a grande maioria dos Palestinianos ainda deseja uma paz de dois estados para dois povos, mas que deixou de acreditar nessa paz. A nossa própria história, as nossas próprias lutas e sofrimentos mostraram-nos que uma casa onde reina a divisão não se pode manter de pé. Mas aprendemos, ao mesmo tempo, que a cura é possível e renova as forças e a esperança. A cura promove a unidade e, com o tempo, responde à raiva.
Não ficaremos inertes. Comprometemo-nos, em primeiro lugar e acima de tudo, a ouvir-vos. Juntamente com outros parceiros na comunidade internacional, comprometemo-nos a ajudar-vos a reconstruir. Comprometemo-nos, também, a ajudar-vos a reconstruir uma ponte para a paz. Sabemos que muitas pontes para a paz cederam e caíram no abismo. Fazei a escolha, e nós nos comprometemos a ficar ao vosso lado nos vossos primeiros passos sobre essa ponte ainda incerta.
Ao povo de Israel: neste lugar, nesta hora difícil, afirmamos livremente a nossa gratidão pela vossa continuada amizade e sublinhamos o nosso compromisso para com a vossa segurança.
Tomamos a liberdade de vos falar com a franqueza de velhos amigos. O conflito exige, a quem o quer resolver, novas ideias, um novo entendimento e uma renovada vontade de consenso.
Sabemos que, para uma grande maioria dos Israelitas, o objectivo da paz é primordial. Durante os anos 90, Israelitas e Palestinianos aproximaram-se com passos corajosos, tornando-se aliados na busca de um fim para uma guerra sem fim.
Desde então, no entanto, ganhou assinalável terreno uma minoria de extremistas dos dois lados, de inimigos da paz, cujas acções ensombram as vidas da maioria. Floresceram aqueles cujas acções visam ferir o entendimento e a crença na paz.
Para que os Israelitas iniciem a travessia de uma nova ponte para a paz é preciso que haja confiança, e é preciso que haja amigos em quem confiar. Declaramos este compromisso: não ficaremos inertes, a assistir. Estaremos ao vosso lado sobre essa ponte.
Aos Israelitas e aos Palestinianos, a ambos:
Povo algum sobre a terra lutou mais tenazmente ou durante mais tempo pela liberdade, pela justiça e pela segurança. Só por esse facto, enquanto ambos os vossos povos não tiverem uma paz que inclua a liberdade, a justiça e a segurança, nenhum dos dois a terá.
A Terra Santa é, de sua própria natureza, um legado sagrado. Pertence-vos a vós, e também ao mundo. A vossa paz é a paz do mundo.
Acreditar na paz é estimar as crianças, ajudando a criar o seu futuro. Iremos pedir a vossa opinião, e dar-lhe-emos todo o seu valor. Queremos ouvi-la, não só dos dirigentes, mas dos pais, dos filhos, dos netos, do clero. Digam-nos e escrevam-nos o que pensam.
Digam-nos o que sentem, o que temem, o que acreditam que pode ser a solução.
Nós escutar-vos-emos. Não vemos maior honra nem maior imperativo diplomático do que apoiar-vos, a vós, Palestinianos e Israelitas, numa luta tenaz, numa luta contra todos os obstáculos, numa luta pela paz.
- Fim de tradução -
Naturalmente, não se pode esperar que o homem — Obama — dedique tanto tempo do discurso inaugural a uma só questão internacional, mesmo que seja esta. Mas eu — eu José, o Alfredo, o Bradley, o Burston, dirá da justiça dele, se assim o entender e se não lhe cair nenhum qassam na tola — eu cá não me admiro que o homem diga mais ou menos isto, ainda que em menos palavras.
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A isenção em pessoa
Já não é a primeira vez que, a propósito da tendência para a convergência de pontos de vista aparentemente opostos, como por exemplo os da extrema-direita e os da extrema-esquerda, vou buscar este moço. Mas o moço justifica o privilégio de surgir como figura anexa.
Não sei se mais alguém sem ser eu se penitencia a ver o Eixo do Mal. Quando vejo aquilo, que não é sempre e nunca é na totalidade, tenho dificuldade em imaginar que haja mais tontinhos a fazer o mesmo. Mas nunca se sabe. Se é o seu caso, consulte o seu médico de família (a minha não recomendo a ninguém) e/ou passe a dedicar a hora do Eixo do Mal (os 50 minutos, na realidade) à Playstation.
Na última sessão, o assunto-Gaza proporcionou mais alguns momentos de indignação ao moço Oliveira, que esteve a pontos de chamar narigudo ou coisa pior ao Henrique Cymerman. O acesso de cólera vinha a propósito da escandalosa falta de isenção dos meios de comunicação social na cobertura e análise do conflito israelo-palestiniano.
Israelo-palestiniano, note-se bem, nunca israelo-árabe. Na cabeça dos moços como o Oliveira, tal como noutras cabeças ainda mais rapadas, o que Israel tem feito é bater furiosamente nos palestinianos. Qualquer teoria de defesa perante os estados árabes é pura fantasia da propaganda sionista.
Perante a incontida fúria do moço Oliveira, e mesmo antes que este chegasse ao ponto de insultar o Cymerman em termos pessoais, o outro moço gorducho, o Marques Lopes, lá tentou chamar a atenção para qualquer coisa, mas o formato do programa impõe que nunca haja menos de três pessoas a falar ao mesmo tempo, de modo a que o eventual espectador possa receber a todo o momento o máximo de opiniões. Pérolas do pluralismo aos porcos deitadas, é o que é. O exemplo que Marques Lopes queria referir, e bem, era o do Expresso da Meia-Noite da semana passada, em que os quatro convidados competiam para ver quem era mais anti-israelita: Clara Ferreira Alves, Miguel Portas, uma sujeita angariada por ter vivido em Israel e um sujeito da Liga dos Amigos do Peito do Islão.
Vista através da retina do moço Oliveira, a nossa imprensa é um departamento de propaganda sionista. Não sei como é que os narigudos (que como se sabe controlam todas as televisões, os jornais e as próprias revistas de culinária) deixam passar aquelas imagens todas de palestinianos mortos, feridos, desalojados e aterrorizados. Deve ser mais uma pérfida manobra, uma maneira de amplificar audiovisualmente o terror infligido in loco.
Não me admiro que um dia destes o moço Oliveira, ou outro careca qualquer, venha comparar o efeito dessas imagens com as sirenes dos Stukas. Deve ser das poucas comparações que ainda não lhes ocorreu para equiparar os judeus aos nazis (paralelo que, curiosamente, equivale a dar uma espécie de um bocadinho de razão aos nazis... como se alguém de esquerda fosse capaz de uma coisa dessas... silly me). A menos que o moço Oliveira até já tenha falado nisso, mas alguém estaria a falar ao mesmo tempo e eu é que não ouvi. Ou teria ido passear o cão, quiçá.
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16.1.09
Mais um temporariamente farto
14.1.09
Blogue temporariamente farto

Farto de quê? Farto de certas merdas, para ser sincero.
Farto da merda da conversa do Paulo Baptista, por exemplo. Então e o Pedro Henriques? Então e o Olegário? Então e o Xistra? Então e o Xistra outra vez? Então e o Baptista Lucílio? Então e o outro Rui Costa? Então os outros todos, não contam?
Farto da conversa do fiscal de linha do Paulo Baptista. Alguém que me corrija se eu estiver errado, mas não é o mesmo gajo que foi capaz de não ver o golo do Petit? Não é o mesmo Houdini que conseguiu transformar um dos maiores frangos do Baía em coisa nenhuma? Vão lá aos arquivos e depois falem comigo. Ou não.
Farto de ouvir dizer que o fora-de-jogo é nítido e é escandaloso. Eu estava lá e não vi nada, só soube que tinha sido fora-de jogo quando as pessoas que estavam a ver as imagens paradas na televisão começaram a mandar mensagens a alertar para o escândalo. Depois, em chegando a casa, vi as mesmas imagens paradas. Sim, é fora-de-jogo, e não, não me parece estranho que com aquela molhada toda pela frente um gajo que não viu o golo do Petit não consiga ver que foi o David Luiz que marcou e que o mesmo David Luiz tinha estado momentaneamente ligeiramente adiantado alguns instantes antes. Vão dar banho ao cão.
Farto da conversa do campo inclinado, do penálti do Luisão (ainda não consegui ver uma imagem que mostre que é penálti), e por outro lado se for o Suazo já não conta, e que sendo o Di Maria também não devia ser penálti, quanto mais não fosse porque o Di Maria, para além de jogar pelo Benfica, festejou a obtenção do penálti (esta conversa, no caso do Oliveira e Costa que não é o que está preventivamente detido e que não se nega a prestar declarações, chega ao ponto de o Paulo Baptista ter perdoado um amarelo ao Di Maria por simulação, mesmo tendo o penálti sido assinalado!). Eu o que vi lá no campo foi o Paulo Baptista a marcar faltas o tempo todo, sempre que alguém do Benfica entrava em qualquer espécie de contacto com alguém do Braga. Se o homem tivesse uniformidade de critérios, o sujeito do Braga que derruba o Di Maria tinha levado vermelho directo. Vão-se catar.
Farto da conversa do Calabote e do clube do regime. O Calabote, que eu saiba, a única coisa que fez foi prolongar algo exageradamente os minutos de compensação. Que eu saiba, foi castigado por isso. E, que eu saiba, o Febóquelupârto foi campeão nesse ano. Porquê o estigma todo, passado tanto tempo? Por causa da merda da conversa do clube do regime. O clube do regime, que foi das poucas instituições genuinamente democráticas que existiram durante todo o tempo da merda do regime. O clube do regime, aquele cuja cor das camisolas tinha que ser sempre referida como encarnada e nunca como vermelha, não fosse haver confusão com outra merda de regime qualquer. O clube do regime, a pata que os pôs.
É desse tipo de merdas, quase tanto como da aflitiva falta de futebol patente no Benfica, que eu estou fartinho. Claro que também estarei farto de outro tipo de merdas, coisas de outros terrenos e de outros jogos, mas dessas ninguém sabe nem tem que saber.
Que se lixe.
Hoje vou ver o Benfica. Hoje vou ver o Olhanense. Pode ainda dar-se o caso de amanhã dizer que ontem vi o Maradona. E vou ver a minha filha a ver isso tudo.
Hoje é um fartote.
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13.1.09
Blogue sem nada para dizer
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8.1.09
Como é que é possível?

Está visto que no futebol não há impossíveis. Exemplo: desde que do outro lado esteja o Luís Filipe, até uma equipa com o Moretto pode ganhar.
Na próxima jornada (4ª feira, 14) é que são elas: o líder Olhanense vem à Luz e, que eu saiba, não há lá nenhum Luís Filipe. Mas também ninguém pode garantir ao Olhanense que o Moretto joga...
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5.1.09
Os enfaixados de Gaza

Não há como a Terra Santa para produzir milagres. Desde mares que se abrem a mortos que ressuscitam e à multiplicação ou transformação de géneros alimentares, o Antigo e o Novo Testamento estão repletos deles. Maomé deu-lhes digno seguimento e não faltam relatos de pequenos e grandes milagres na história das Cruzadas. Mesmo nos nossos dias, ímpios e prosaicos como são, é de lá que vem o milagre da concórdia quase universal. Só mesmo a Palestina para pôr skinheads e o Bloco de Esquerda de acordo, irmanados na condenação de Israel.
No Eixo do Mal, Daniel Oliveira ilustrou a sua visão do assunto brandindo uns mapas em que se via a progressiva redução do território destinado aos palestinianos ao longo dos tempos. Ele não o disse, mas presumo que o primeiro mapa fosse o de 1947. O mapa que Israel aceitou e os países árabes não.
Desgraçadamente, o problema não é que os extremistas de todo o mundo se unam no mesmo discurso. O problema é que os extremistas de lá, os da Palestina (sensu latu, incluindo os de Israel), não fazem outra coisa que não pôr esse discurso em prática. Enquanto assim for, não há quem consiga voltar à tal ideia do mapa de 1947, à tal solução original, à única solução possível: dois estados.
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31.12.08

Passado o Merry Christmas, contraída, chocada e praticamente utltrapassada uma porcaria de uma gripe, eis então chegado o momento do prometido Pippin New Year.
2009 não vai ser fácil, está mais que visto. Mas já terá havido algum ano fácil, nesses 2009 e nos outros todos antes? No que me toca, vai ser o ano em que vou acabar de ler a Viagem do Elefante, desse outro josé, o saramago, que agora lhe deu para escrever os nomes assim, em minúsculas, vá-se lá saber por e para quê. À parte disso, estou a gostar bastante da Viagem. Algo abaixo do Memorial, do Ano da Morte, do Evangelho, do Ensaio sobre a Cegueira (e quantos escritores terão sequer quatro romances desse gabarito, pergunto eu), mas claramente acima do Homem Duplicado, do Ensaio sobre a Lucidez, das Intermitências da Morte e da Jangada de Pedra.
Outro que vou acabar de ler em 2009, se me conseguir conter nas últimas horas do dia, é este:
Não há adjectivos abaixo de colossal que se apliquem. É quase inevitável que numa próxima visita a este estabelecimento o/a estimado/a cliente venha a encontrar excertos da obra.Quanto à Guerra de Gaza, não me ocorre nada que não seja desejar a todos os Palestinianos (todos os que habitam a Palestina, em sentido verdadeiramente lato, englobando os israelitas) que sobrevivam também a 2009 e que de alguma forma comecem a viver. Quanto às propostas de tréguas à francesa, em que Israel fica totalmente concentrado na tarefa de levar com os rockets do Hamas, é melhor mesmo nem dizer nada.
Shalom everybody.
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23.12.08
2008, annus terribilis?
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José, o Padrinho

Uma colega, que por sinal é também minha xará, adoptou recentemente um ursinho de peluche. Quando lhe perguntei como se chamava o pequeno, disse-me que ainda andava de volta desse assunto. Percebeu certamente a minha desaprovação perante tamanha incúria, pois não tardou a convidar-me para padrinho.
Sugeri que fosse Aloísio, naturalmente. A minha homónima gostou muito do nome e o próprio urso não se opôs. Pareceu-me até aliviado, talvez por já se terem sugerido nomes totalmente impróprios para um peluche respeitável.
Creio que José, a Colega, não costuma vir aqui ao Desinfeliz, mas por via das dúvidas não vou dizer o que penso oferecer ao meu afilhado no Natal. O Aloísio era bem capaz de lhe arrancar o segredo e a última coisa que se pretende é dar a um peluche a ideia de que as coisas são como ele quer.
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EXPLICAÇÕES precisam-se
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22.12.08
Ao meu pai, se estiver online
Robert Fuller Murray (1863 – 1894)
It seems a hundred years or more
Since I, with note-book, ink and pen,
In cap and gown, first trod the floor
Which I have often trod since then;
Yet well do I remember when
With fifty other fond fanatics,
I sought delights beyond my ken,
The deep delights of Mathematics.
I knew that two and two made four,
I felt that five times two were ten,
But, as for all profounder lore,
The robin redbreast or the wren,
The sparrow, whether cock or hen,
Knew quite as much about Quadratics,
Was less confused by x and n,
The deep delights of Mathematics.
The Asses' Bridge I passed not o'er,
I floundered in the noisome fen
Which lies behind it and before;
I wandered in the gloomy glen
Where Surds and Factors have their den.
But when I saw the pit of Statics,
I said Good-bye, Farewell, Amen!
The deep delights of Mathematics.
O Bejants! blessed, beardless men,
Who strive with Euclid in your attics,
For worlds I would not taste again
The deep delights of Mathematics.
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17.12.08
Figuras e figurões

Confirma-se o que confirmado já estava há muito tempo: Santana Lopes é o candidato do PPD/PSD à Câmara de Lisboa. Não adianta chover muito mais no molhado do espanto, da suposta credibilização do partido que a eleição de Manuela Ferreira Leite supostamente faria supor, do curriculum do candidato, nomeadamente no exercício do cargo a que se volta a candidatar. Não adianta. O facto da candidatura está consumado.
Para que não se consume o facto da eleição (e nos consuma, a nós, lisboetas, a Lisboa, ao país de que Lisboa é capital, ao próprio Mundo a que Lisboa nunca pode deixar de ambicionar pertencer) o que adianta é pensar no que fazer para que Santana não se alape novamente ao tacho e à montra. António Costa aproveitou e bem o tempo que o PPD/PSD lhe deu com o vai-não-vai, é-o-nosso-candidato-não-é-ainda-o-nosso-candidato, pode-ser-que-sim-pode-ser-que-não. A imagem da cigarra e da formiga resume e ilustra bem a situação, dramatiza o que há para dramatizar em época de vacas escanzeladas, chama os bois pelos nomes, é simples e ainda tem a grande vantagem acrescida de ser verídica. Em termos de eficácia de comunicação, que é justamente o terreno em que Santana Lopes se arrisca sempre a triunfar, António Costa dificilmente conseguiria melhor.
Não sei se o PS estará preparado para seguir o exemplo a nível nacional. Claro que ainda nem sequer há a certeza de que seja Ferreira Leite a encabeçar o PPD/PSD nas legislativas (já dando de barato que o PPD/PSD chega às legislativas), mas essa é certamente a hipótese de trabalho que estará em cima das mesas do Largo do Rato (se é que as mesas não estão todas em S. Bento). A imagem da Avózinha e do Lobo Mau parece-me bastante apropriada para esse duelo. A Avózinha dispensa explicações e Sócrates, para além da aptidão natural para o papel do Lobo Mau, conta com uma conjuntura em que o povo (que talvez se possa equiparar ao Capuchinho Vermelho) prefere dentes afiados a dentaduras postiças.
A esquerda, ou melhor, as esquerdas, por muito que lhes dê para crescer, serão sempre os Sete Anões. Por vontade própria e, ou muito me engano, por vontade dos portugueses, que também não hão-de as fazer crescer assim tanto. A comparação com os hobbits Merry e Pippin seria talvez mais adequada, especialmente se nos lembrarmos do episódio em que bebem aquela excelente água dos Ents e crescem um bocadinho, sem no entanto deixarem de ser hobbits, mas os Sete Anões percebe-se muito mais facilmente e tem a vantagem de sugerir imediatamente a Branca de Neve para o papel de Paulo Portas. Quanto a Manuel Alegre, ainda está a tempo de escolher o seu personagem. Tudo indica que se vê como o Flautista de Hamelin, mas não é de excluir a hipótese de continuar Godot. Ou Super-Pateta. Who cares.
Só espero que o fabulário não entre no registo tão português do compromisso, que seria Sócrates a querer fazer-se passar por Lobo Bom. Aí, poderíamos ter um João Ratão a cair no caldeirão e, escusado será dizer, num cenário desses quem se lixa ainda mais é o Capuchinho. Ou seja, nós, os pequenotes.
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10.12.08
Publicidade desenganosa

Primeiro foi o Banco Best, com a conta McCain/Obama. Agora é o Finibanco, com o Depósito a Prazo Vencedores da Liga Sagres 2008. Taxa de juro até 11% para quem acerte nos quatro primeiros classificados (creio que por ordem, senão a coisa perde a emoção). A publicidade avança com uma paráfrase de João Pinto (o Primeiro): Prognósticos, só no Finibanco.
Não sei se as casas de apostas estabelecidas já apresentaram algum protesto por esta concorrência desleal, não sei se o Constâncio, no meio dos seus novos afazeres com o Banco Privado e com as comissões de inquérito, terá tempo para dar alguma atenção a estas trivialidades, não sei sequer se mais alguém está para se ralar com mais esta naifada na imagem e no conteúdo da desejável credibilidade da banca, mas a mim estas coisas preocupam-me. Sou assim.
E mais: o Finibanco aceitará apostas (perdão, depósitos) de pessoas cuja actuação pode ter efeitos directos na classificação da Liga Sagres 2008? Por exemplo: se o Bruno Paixão, o Pedro Proença, o Lucílio Baptista e o Olegário Benquerença chegarem a um balcão do Finibanco e disserem que querem abrir uma conta conjunta, o bancário de serviço limita-se a abrir a dita conta ou liga discretamente para a Maria José Morgado e para o 24 Horas? Se o Hermínio Loureiro constituir o seu depósito, será possível eu saber em quem é que ele apostou? Não é para copiar, é só para saber. E se o Leixões for campeão e o Febolquelupârto ficar em quinto ou pior, haverá uma taxa extra de 42%?
Aqui há uns tempos, o Finibanco assinava a sua comunicação publicitária não com uma frase, como alguns bancos menos ambiciosos, mas com duas: Em privado, porque você é único. Não sei se a assinatura se mantém, mas tudo me leva a crer que os apostadores (perdão, os depositantes) podem contar com uma boa dose de sigilo nos seus prognósticos. O que é pena, porque seria uma excelente oportunidade para saber, ao certo, se os adeptos do Zbordn apostam maioritariamente as suas poupanças no Zbordn ou no Febolquelupârto.
Outro caso de publicidade desenganosa (no sentido de ainda mais transparente do que se poderia exigir) é o dos cartazes do Bloco de Esquerda que dizem assim: O Governo ajuda os banqueiros. E quem ajuda as pessoas?. Calculo o que seria o chinfrim se uma coligação PNR/Manuela Ferreira Leite pespegasse no Marquês de Pombal o seguinte: O Governo dá emprego aos ucranianos e aos cabo-verdianos. E quem dá emprego às pessoas?
O meu prognóstico é que o Bloco de Esquerda, como sempre, ficará isento de responsabilidades pelos seus actos e, mesmo sem chegar aos 11%, terá um excelente resultado quando o povo depositar os votos. Pelo seu lado, o Finibanco pode bem ser um dos próximos temas do Expresso da Meia Noite ou do Prós e Contras, mas por via da massa que o Estado lá venha a meter, e não pelos níveis de criatividade nos terrenos do marketing e da publicidade.
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5.12.08
A questão da avaliação

O modelo de avaliação dos professores e a sua aplicação, ou não, é um assunto importante. Longe de mim desvalorizá-lo. Mas levei muito tempo a perceber a verdadeira dimensão do problema. Agora, felizmente, já tenho opinião sobre o assunto. Com a minha opinião formada, já posso encarar com outra confiança o ano eleitoral que se avizinha, pois, se bem tenho entendido os debates sobre a questão, a maioria absoluta do PS depende deste assunto. E isso, obviamente, é muito mais importante do que a Educação.
Claro que a minha opinião é totalmente irresponsável. Mas, atendendo a que não sou professor, nem sindicalista, nem secretário de Estado, nem sequer ministro da Educação, vou aproveitar esta falha de responsabilidades para dizer o que eu acho, antes que outro assunto qualquer se torne mais importante.
Para que não restem dúvidas sobre o meu grau de envolvimento na matéria, devo declarar que, até há umas escassas duas décadas, frequentei escolas (sempre na qualidade de aluno). Terminei esse meu envolvimento pessoal no sistema educativo sob a tutela do ministro Roberto Carneiro, na vigência do XI Governo Constitucional, o primeiro liderado pelo actual Presidente da República. Um governo em que o Dias Loureiro era ministro dos Assuntos Parlamentares, o das Finanças chamava-se Beleza e havia dois Arlindos (dois). Coisas de outros tempos. Pelo que, actualmente, o que me preocupa mais no que toca a Educação é a minha filha.
A minha filha frequenta uma escola. Não fosse isso e, egoísta e interesseiro como sou, numa altura destas os problemas da Educação poderiam passar-me ao lado. Mas ontem a minha filha chamou-me a atenção para o verdadeiro cerne do problema. E o verdadeiro cerne do problema da avaliação dos professores é a avaliação dos alunos. Eu explico.
Ontem a minha filha telefonou-me, logo pela manhã. Não é hábito. Confesso que, quando o telemóvel tocou e vi o nome da miúda no visor, fiquei preocupado. "Lá estão eles em greve outra vez", pensei eu (eles, os professores). "Lá andam eles a vadiar pelas ruas ou pelos shoppings", continuei eu a pensar (eles, os alunos).
Enquanto ia pensando estas coisas, premi o botão verde e atendi a chamada. Afinal as minhas preocupações não tinham razão de ser. Tudo estava muito bem com a minha filha. Era intervalo, daí o telemóvel estar ligado, e estava a ligar-me para me comunicar que tinha acabado de receber a nota de um teste de Francês. A nota seguia o modelo de avaliação conhecido por "percentagem". Alguma modéstia me impede de a afixar aqui em toda a sua extensão, mas a nota acabava em meio por cento.
Dei-lhe os parabéns, como se impunha, e fiquei a pensar naquele meio por cento. E foi assim que, finalmente, lá consegui perceber o que se passa com a avaliação dos professores. Para que não fique a ideia de que a maioria absoluta do PS se vai decidir por causa da nota da minha filha num teste de Francês, vou ilustrar a situação, tal como ontem passei a vê-la, com toda a nitidez, mas com nomes e valores fictícios.
A cena passa-se na sala de professores de uma escola secundária. Três professores discutem animadamente a questão da avaliação dos professores: Daniel, professor de Artes e Técnicas do Fogo, Bruno, de Filosofia, e Sónia, Matemática. Sentada um pouco à parte, Idália, professora de Francês, está a acabar de corrigir um molho de testes.
Daniel: Eu acho que já ganhámos, pá.
Bruno: Achas? Não sei... Isso do ganhar é tão relativo...
Daniel: Estás parvo ou quê? Não vistes a adesão à greve?
Bruno: Claro, a greve foi um sucesso, mas não tenho a certeza...
Daniel: És mas é maluco, pá. Noventa e tal por cento!
Sónia: 95,4. O sindicato diz que foram 95,4%.
Daniel: E tu, Idália? Não dizes nada? Não me digas que estás do lado da gaja?
Idália (ainda a acabar de corrigir os testes): O quê? Desculpem lá, estava distraída. Estou aqui a acabar de classificar uns pontos... Certo... Certo... Incompleto...
Daniel (piscando o olho a Sónia e Bruno): É pá, ó Idália, deixa lá essa porcaria, já acabas isso. Cá para mim tu estás é do lado da gaja. Eh eh eh!
Idália: Errado... O quê? Desculpa lá, mas tenho de acabar isto. Ontem foi greve, não me ia pôr a corrigir pontos, pois não? E hoje à noite temos a manif, não vou ter tempo. Deixa lá acabar isto, está quase. 62%. Mais um. Certo, certo, certo...
Sónia: Estive a fazer as contas ao modelo de avaliação. Sabem uma coisa?
Bruno: Eu sinceramente não sei muito bem se sei fazer essas contas, mas o conceito de base é que me parece...
Daniel: Tretas, pá. Diz lá, Sónia, quanto é que te deu as contas?
Sónia: 38,8%.
Daniel: Porra! Quarenta por cento?
Sónia: 38,8. Nas minhas contas dá 38,8%.
Bruno: Mas olha lá, Sónia, que conta é essa?
Sónia: É o tempo que a aplicação do modelo de avaliação nos ia levar a aplicar se a aplicássemos.
Bruno: O tempo? Mas achas que o problema é o tempo? Eu sinceramente acho que é mais o espaço. Onde é que a malta vai fazer isso? É aqui, na sala de professores?
Idália: Tu levas 58%. Não, 60%. Olha, só falta um. O Zacarias. Certo... Certo, certo, certo... Este miúdo é bestial. Certo. Bem. Muito bem. Certíssimo...
Daniel: A verdadeira questão, pá, é a gaja. A gaja deve de ir embora. E mais nada. Tu, Sónia, fizestes as contas. Quarenta e tal por cento do tempo é para a gente avaliarmos os colegas. É ou não é?
Sónia: 38,8%.
Daniel: Prontos, quarenta por cento. É a mesma coisa. Não há condições. Cem por cento de adesão à greve, pá...
Idália: Certo... certo...
Daniel: Vêem? Até a Idália concorda, pá. A gaja não chega às eleições. É certinho! Olha, está a tocar. Embora lá, malta.
Daniel, Sónia e Bruno saem. Idália, que tem o próximo tempo livre, conclui calmamente a avaliação.
Idália: Certo e certo. Grande Zacarias. Este miúdo é impressionante. 100%, sem dúvida. Não, espera. A composição está bestial mas falta aqui qualquer coisa. 'Je adore mon petit chien...' Falta aqui a mot juste... E porque não 'J'adore'? Já demos as contracções apostrofadas... Levas 99%, Zacarias. Não. Também não é justo. 99,5%. É isso. 99,5%.
Idália arruma o molho de pontos na sua pasta e sai da sala.
Esta foi a cena que o telefonema da minha filha me revelou. Até ontem, eu não imaginava que um professor de Francês já tinha de chegar ao meio ponto percentual. Afastado da Educação como tenho andado, pensava que só os ministros das Finanças e os bancos centrais é que iam a esse ponto. Agora compreendo. Agora dou razão à justa luta dos professores e respectivos sindicatos. Só para avaliarem correctamente os alunos, já para nem falar em ensinar-lhes coisas, as 24 horas do dia não chegam. Vem agora uma gaja, lá porque é ministra, a querer aplicar modelos de avaliação? Era o que faltava.
Agora que vi claramente as coisas como elas são, a minha opinião é que os professores têm toda a razão. Avaliação sim, mas assim é que não.

