O L. Rodrigues chamou-me a atenção para o que perdi esta noite, nos momentos em que estive desacordado. Como acontece frequentemente, ele (o L. Rodrigues) tinha razão. O discurso de John McCain, aqui muito bem resumido e comentado, não é para se perder.
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"Pode ser que sim. Pode ser que não. Não posso garantir." - in Astérix, A Volta à Gália
4.11.08
TVGuia para esta noite
Com a preciosa colaboração do Dallas Morning News, aqui vai um guião para a noite eleitoral. Os resultados que interessam, para quê e a que horas (de Lisboa). 
19.45
• À laia de aperitivo para o tão aguardado embate Republicanos Vs Democratas, a RTP1 serve o Monárquicos da Churrasqueira Vs Plutocratas do Kalmius.
23.30
• Interrompa o Trio d'Ataque para ver os primeiros resultados do Indiana, Ohio e Virginia. Bons indicadores para ver se há sucesso de Obama em estados tradicionalmente republicanos.
• Obama ganhou a Virginia? Então pode começar a chamar os Urbanos para a mudança para a Casa Branca. Se houver equilíbrio no Ohio e Indiana, há que fazer fé nas zonas predominantemente negras de Cleveland e Gary (mais populosas, devem levar mais tempo a sair; esqueça o Trio d'Ataque). Se Obama ganhar estes três estados podemos começar a dizer mal dele, na sua nova qualidade de Presidente dos EUA.
• Para os verdadeiros junkies, há a eleição para o Senado no Kentucky. Uma derrota aqui pode ser o prenúncio de uma noite de Halloween aprés la lettre para a elefantaria republicana.
00.00
• McCain fez bem ou fez mal em gastar tanto como gastou (em dinheiro e em tempo) na Pensilvânia? É o que vamos saber ao soar das doze badaladas. Outra coisa que se poderá detectar é o famoso efeito Bradley — se as sondagens puxaram Obama para cima, a Pensilvânia seria um bom sítio para o recambiar para baixo.
• Pista importante: quanto tempo é que as CNNs da vida levam a arriscar um prognóstico? Quanto mais tempo levar, mais hipóteses para McCain. A CBS promete uma projecção do vencedor para as 23.00 se os resultados o permitirem (leia-se se a sova for das grandes).
• Como ficou visto em 2000, não é de esperar resultados rápidos na Florida. O estado é pão para a boca de McCain, enquanto para Obama seria a cereja no cimo do muffin.
• Olho no Missouri, que é visto como um dos estados que podem cair para o lado de McCain. Também serve de barómetro à receptividade do eleitorado mais rural a um presidente Barack Hussein Obama (o mesmo vale para a Pensilvânia e Ohio).
• Se a política interna texana o fascina, não perca a corrida a xerife do condado de Dallas (Valdez, o detentor do título, no canto azul, contra Cannaday, no canto vermelho).
00.30
• A Carolina do Norte fecha as urnas. Aqui está um belo indicador para se ter uma ideia do quão longa se tornará a espera dos democratas até poder deitar os foguetes. Uma vitória de Obama é quase sinónimo de bye-bye McCain. Na eleição para o Senado, uma vitória de Kay Hagan (à custa da actual Senadora Elizabeth Dole) pode ser o prenúncio de uma jornada muito lucrativa para toda a turminha do burro.
01.00
• Se McCain ainda não tiver ido ao tapete, o Colorado torna-se muito importante. Um bom resultado negaria todas as sondagens mais recentes e as multidões que foram engrossando a Obamania.
• Juntamente com o Novo México e o Minnesota, o Colorado pode ajudar a definir se os democratas alcançam uma maioria das antigas no Senado.
• No Vermelhistão profundo que é o Texas, a única coisa a observar serão eventuais sinais de baixa de popularidade dos republicanos (coisas da eleição estadual e da Câmara dos Representantes). O McCain perder aqui é o mesmo que o Alberto João perder na Madeira.
02.00
• O Nevada é mais um dos tais estados que tanto pode dar um novo fôlego a McCain como dar mais uma orelha a Obama.
• O Montana, onde as sondagens deram uma surpreendente aproximação de Obama, é outro bom indicador sobre a noite republicana: dá para sonhar ou é pesadelo certo?
03.00
• California über alles. Com os seus 55 votos no Colégio Eleitoral, pode ser o sinal para largar a rolha do champanhe azul. Mas porém no entanto e contudo, se houver muito equilíbrio noutros estados e/ou trapalhada com os escrutínios, nem a Califórnia chega para arrumar a questão.
03.00
• Para quem não esteja demasiado absorvido nos referendos locais ou na eleição do reitor da escola, é uma boa altura para ver o que se passou na Liga dos Campeões (ou até mesmo para ir dormir, sabe-se lá).
04.00
• Se a corrida ainda não acabou a esta hora é dar os parabéns a McCain pela combatividade, uma última olhadela ao Abrupto e retirar airosamente para Lennsoll Valley.
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19.45
• À laia de aperitivo para o tão aguardado embate Republicanos Vs Democratas, a RTP1 serve o Monárquicos da Churrasqueira Vs Plutocratas do Kalmius.
23.30
• Interrompa o Trio d'Ataque para ver os primeiros resultados do Indiana, Ohio e Virginia. Bons indicadores para ver se há sucesso de Obama em estados tradicionalmente republicanos.
• Obama ganhou a Virginia? Então pode começar a chamar os Urbanos para a mudança para a Casa Branca. Se houver equilíbrio no Ohio e Indiana, há que fazer fé nas zonas predominantemente negras de Cleveland e Gary (mais populosas, devem levar mais tempo a sair; esqueça o Trio d'Ataque). Se Obama ganhar estes três estados podemos começar a dizer mal dele, na sua nova qualidade de Presidente dos EUA.
• Para os verdadeiros junkies, há a eleição para o Senado no Kentucky. Uma derrota aqui pode ser o prenúncio de uma noite de Halloween aprés la lettre para a elefantaria republicana.
00.00
• McCain fez bem ou fez mal em gastar tanto como gastou (em dinheiro e em tempo) na Pensilvânia? É o que vamos saber ao soar das doze badaladas. Outra coisa que se poderá detectar é o famoso efeito Bradley — se as sondagens puxaram Obama para cima, a Pensilvânia seria um bom sítio para o recambiar para baixo.
• Pista importante: quanto tempo é que as CNNs da vida levam a arriscar um prognóstico? Quanto mais tempo levar, mais hipóteses para McCain. A CBS promete uma projecção do vencedor para as 23.00 se os resultados o permitirem (leia-se se a sova for das grandes).
• Como ficou visto em 2000, não é de esperar resultados rápidos na Florida. O estado é pão para a boca de McCain, enquanto para Obama seria a cereja no cimo do muffin.
• Olho no Missouri, que é visto como um dos estados que podem cair para o lado de McCain. Também serve de barómetro à receptividade do eleitorado mais rural a um presidente Barack Hussein Obama (o mesmo vale para a Pensilvânia e Ohio).
• Se a política interna texana o fascina, não perca a corrida a xerife do condado de Dallas (Valdez, o detentor do título, no canto azul, contra Cannaday, no canto vermelho).
00.30
• A Carolina do Norte fecha as urnas. Aqui está um belo indicador para se ter uma ideia do quão longa se tornará a espera dos democratas até poder deitar os foguetes. Uma vitória de Obama é quase sinónimo de bye-bye McCain. Na eleição para o Senado, uma vitória de Kay Hagan (à custa da actual Senadora Elizabeth Dole) pode ser o prenúncio de uma jornada muito lucrativa para toda a turminha do burro.
01.00
• Se McCain ainda não tiver ido ao tapete, o Colorado torna-se muito importante. Um bom resultado negaria todas as sondagens mais recentes e as multidões que foram engrossando a Obamania.
• Juntamente com o Novo México e o Minnesota, o Colorado pode ajudar a definir se os democratas alcançam uma maioria das antigas no Senado.
• No Vermelhistão profundo que é o Texas, a única coisa a observar serão eventuais sinais de baixa de popularidade dos republicanos (coisas da eleição estadual e da Câmara dos Representantes). O McCain perder aqui é o mesmo que o Alberto João perder na Madeira.
02.00
• O Nevada é mais um dos tais estados que tanto pode dar um novo fôlego a McCain como dar mais uma orelha a Obama.
• O Montana, onde as sondagens deram uma surpreendente aproximação de Obama, é outro bom indicador sobre a noite republicana: dá para sonhar ou é pesadelo certo?
03.00
• California über alles. Com os seus 55 votos no Colégio Eleitoral, pode ser o sinal para largar a rolha do champanhe azul. Mas porém no entanto e contudo, se houver muito equilíbrio noutros estados e/ou trapalhada com os escrutínios, nem a Califórnia chega para arrumar a questão.
03.00
• Para quem não esteja demasiado absorvido nos referendos locais ou na eleição do reitor da escola, é uma boa altura para ver o que se passou na Liga dos Campeões (ou até mesmo para ir dormir, sabe-se lá).
04.00
• Se a corrida ainda não acabou a esta hora é dar os parabéns a McCain pela combatividade, uma última olhadela ao Abrupto e retirar airosamente para Lennsoll Valley.
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3.11.08
Homens de Olhão à proa da canoa
Do que se passa na Liga da Cerveja toda a gente sabe. O Desinfeliz tenta, sempre que possível, divulgar o que vai acontecendo na muito menos mediática Liga da Água.Ora o que se passou este fim-de-semana na Liga da Água é ainda mais brilhante do que os paralelos acontecimentos na divisão cervejeira: o Olhanense deslocou-se ao Barlavento (as gentes locais chamam a esta visita a Invasão de Portimão, que veio suprir a falta das saudosas Invasões de Faro nos actuais calendários desportivos, derivado ao gigantesco trambolhão do Farense) e veio de lá com belíssimo 3-2. Isto no sábado. No domingo todos os restantes empecilhos (Santas Claras, Sportings das Covilhãs, Boavistas, Varzins e afins) encarregaram-se de empatar ou perder. Resultado: à sétima jornada o Olhanense é líder destacado (destacado por um ponto inteiro) da Liga Vitalis.
Se isto não acrescenta beleza ao Mundo, não sei que mais posso fazer. Se fosse cidadão americano, poderia e votaria Obama. Sendo tuga em regime de exclusividade, só posso deixar aqui o meu tributo aos Heróis do Mar que intrépidos lideram as tabelas dos respectivos elementos líquidos (os de Olhão e os de Matosinhos).
31.10.08
A facilidade matou o Rabin

Este moço (o do meio, o que não está fardado) é Yigal Amir, o extremista (de direita) que matou o primeiro-ministro Isaac Rabin (em 1995, se bem se lembram). Está preso, que é o que acontece a certas pessoas em certos países quando são apanhadas depois de terem feito certas coisas... mas não é isso que interessa agora. O que interessa é que está preso.
Estando preso, o jovem Amir deu uma entrevista via telefone a dois canais de televisão israelitas, na qual explica de onde lhe veio a ideia de matar Rabin. E a história é tão só uma variante da celebérrima ocasião que faz o ladrão.
Amir conta que foi a um casamento onde se encontrava também Rabin. Não pôde evitar reparar que o primeiro-ministro se fazia acompanhar de um único guarda-costas. "Se lhe apertasse a mão podia facilmente dar-lhe um tiro, se quisesse. Eu tinha uma arma comigo. Vi que era tão fácil e disse a mim próprio que passados uns anos me ia arrepender de não o ter matado".
Esta terá sido, então, a inspiração para o acto que veio a cometer pouco tempo depois. Se é tão fácil, por que não? Quanto às motivações mais profundas, os por que sins: à pergunta sobre quem o influenciou na decisão de assassinar Rabin, Amir responde "todos os que entendem as coisas militares. Todos os peritos militares disseram que os Acordos de Oslo foram um desastre". E pronto. Está explicado.
Entre os muitos que se mostraram chocados com a entrevista (a família de Rabin, por exemplo) encontram-se os Serviços Prisionais de Israel. É que Amir não tinha autorização para dar entrevista nenhuma. Ao contrário do que se passava há uns tempos, as chamadas de Amir não estavam a ser 'monitorizadas' (escutadas, portanto) e a entrevista surpreendeu fortemente os responsáveis dos ditos serviços.
Para além da facilidade no uso da pistola, Amir demonstra também ser exímio no manejo do telefone. No passado mês de Agosto, utilizou o telefone da prisão (o mais fixo dos fixos, diria eu) para dirigir ameaças a um vizinho da Sra Amir, no contexto de um desentendimento sobre canos furados.
Quem também se encontra aos cuidados dos referidos serviços prisionais é Hagai Amir, irmão de Yigal. Menos eficaz que Yigal, talvez mais dado às coisas do espírito, Hagai está dentro por mera conspiração para cometer assassínio. E consta que foi levado a sério quando confidenciou a alguns guardas que lhe bastava fazer uma chamada para mandar o primeiro-ministro pelos ares.
Nessa altura, Hagai perdeu aquilo a que se chama os privilégios de telefone. Agora, a mesma medida foi aplicada a Yigal. Um dos canais já anunciou que não vai transmitir a programada segunda parte da entrevista, enquanto o outro mantém a intenção de a divulgar.
Moral da história? Convenhamos que não há.
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27.10.08
2 em 1 (ou mais)
Ganhar por 2 a 1, na mesma jornada em que o comandante perde por 3 a 2 e o rival Sporting empata, não é bom. É óptimo. Mas foi isso mesmo que aconteceu ao Olhanense: 2-1 na Vila das Aves, com o líder Santa Clara a perder em Barcelos por 3-2 e o Sporting da Covilhã a empatar (1-1, em casa, com o Freamunde).Isto na Liga da Água, porque na Liga da Cerveja foi tudo completamente diferente: o Febóqueluporto perdeu por 3-2 mas foi em casa, o Zborden da Padre Cruz empatou mas foi a zero e o Sport Lisboa e Benfica ganhou por 2-1 mas só alguém manifestamente desrespeitador do bom nome das instituições pode dizer que foi na vila das aves.
E por falar em aves, a jovem Vitória, talvez antecipando o que se ia ver durante os 90 minutos, executou na perfeição uma apertada meia volta sobre a asa direita e saíu pelo caminho mais curto. Sábia Vitória.
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23.10.08
Hear our voices, we entreat
Flight Of The Conchords. Mais uma razão para cantarmos todos, convictamente, God Defend New Zealand.
22.10.08
Desinfecção científica

Se há género literário que nunca apreciei particularmente (e há até muitos géneros literários que nunca apreciei particularmente, mas deu-me jeito começar assim) é a chamada Ficção Científica. Isso já fez com que alguns livros que acabei por apreciar imenso tenham levado umas quantas décadas a penetrar a couraça da minha indiferença. Só por virem com o malfadado rótulo da Ficção Científica. Preconceitos, que se há-de fazer.

Um desses casos, que agora, dito assim, parece quase tão absurdo como na realidade é, deu-se com o Senhor dos Anéis. Ainda eu estava na tal idade que o Reininho recomenda para a leitura d'A Obra quando dei pela existência d'A Obra. Mas alguém, vá-se lá saber quem e porquê, me disse que aquilo era bestial e que era Ficção Científica. Bestial, escuso de ler, terei eu pensado. Aguardei, pois, que um neozelandês barbudo me mostrasse que não, que aquilo não era Ficção Científica, para poder ler sossegadamente A Obra.
Deu-se-me agora outro desses casos, com o jovem Arthur C. Clarke. Mão amiga ofereceu-me recentemente uma caixinha cheia de DVDs do Kubrick, entre os quais o 2001 Odisseia no Espaço. Para além do filme, o DVD prima por ter extras verdadeiramente bestiais. Nesses extras aparece o jovem Arthur C. Clarke a dizer coisas. Talvez por isso, e certamente por já terem passado mais de cinquenta anos sobre as edições originais, dirigi-me à prateleira respectiva do escritório lá de casa e experimentei um dos Clarkes que lá tenho. Gostei, experimentei outro, não desgostei, estou a experimentar outro, e a gostar, e assim sucessivamente.

Há várias coisas bestiais nisto. Uma é que escuso de gastar dinheiro, até porque quando acabar os que tenho não me vou pôr a comprar Clarkes. Outra é que aquilo deixou de ser Ficção Científica e passou a ser outra coisa qualquer, muito mais próxima de coisas de que eu gosto muito mais, como por exemplo a História. Num registo que só aparentemente é diferente do Senhor dos Anéis, o que Clarke partilhava com o resto da humanidade nos anos 50 não era a costumeira ficção situada em cenários alcunhados de científicos. Tal como Tolkien com a Terra-média, e ao contrário dos escribas menores, o que verdadeiramente interessava a Clarke era o cenário em si.

Tolkien deu-se ao trabalho de criar todo um mundo, que só por acaso não existiu, para que nesse mundo se pudessem ter falado e evoluído as línguas que lhe apetecia inventar; os hobbits, os anões, os elfos, os orcs, os feiticeiros, os entes e o resto da matilha toda são os acessórios indispensáveis à composição desse mundo. É curioso que o mundo que Clarke se deu ao trabalho de partilhar connsoco era e continua a ser perfeitamente possível, porque a sua base, as leis da física, ainda não mudaram substantivamente, mas hoje está muito mais distante do que na altura em que era considerado Ficção Científica.
Por mim, tudo bem. Leio os livritos, aclaro ligeiramente alguns dos imensos buracos negros da minha ignorância das coisas da Física e derivados, fico a saber a que velocidade é que tenho de me pôr a andar se algum dia quiser entrar em órbita, e quanto mais é que preciso de acelerar para chegar a Vénus ou a Marte, o que é tão deliciosamente inútil como saber agradecer em Sindarin ou dizer adeus em Quenya, e com isto fico todo contente.
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21.10.08
Nós e os outros
First they came for the Communists but I was not a Communist so I did not speak out;
Then they came for the Socialists and the Trade Unionists but I was not one of them, so I did not speak out;
Then they came for the Jews but I was not Jewish so I did not speak out.
And when they came for me, there was no one left to speak out for me.
Martin Niemoller, 1892-1984
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Then they came for the Socialists and the Trade Unionists but I was not one of them, so I did not speak out;
Then they came for the Jews but I was not Jewish so I did not speak out.
And when they came for me, there was no one left to speak out for me.
Martin Niemoller, 1892-1984
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Amis, filho de Amis

Acabo de ler o meu primeiro Amis filho. Gosto muito do Amis pai. Também não desgostei do Amis filho. Em certos momentos chegou a lembrar-me o velho Damon Runyon, e não sei o que posso dizer de mais elogioso. Mas também me tocou uma campainha de Lobo Antunes mas de quando eu gostava de Lobo Antunes mas agora já não, por isso não sei.
Não desrecomendo a ninguém, antes pelo contrário, a leitura de Yellow Dog, da autoria de Amis, Martin, filho de Amis, Kingsley, mas para mim, na minha opinião, parece-me pessoalmente que vou continuar a preferir o pai. Freud, filho de Jacob, poderia explicar. Mas ninguém garante que explicasse bem ou que alguém entendesse.
Lá pelo meio, há um personagem deliciosamente Runyonesco (creio que dá pelo nome de Tony Eist) e que nos é apresentado como um bandido entre bandidos, um tipo tão intrinsecamente desonesto que comete crimes mesmo nos seus alibis. Do género: Mas como é que eu podia fazer a caixa do Multibanco no Montijo se a essa hora estava a enrolar uma velha na Trofa? No caso da edição que li, valeu a pena ler chegar a páginas 261 para dar com este Tony Eist.
Por falar em nomes, agora vejo que há também neste cão amarelo algo de reminiscente do bom velho Diniz Machado e do seu Molero. Desde Austin, Mister DeLuxe, Peida Gadocha, Descoiso e companhia que não apanhava uma galeria de personagens com nomes tão tão tão: Russia, uma americana; He, uma mulher extremamente oriental; Love, um criado do rei; Car, um ex-futebolista galês caído em desgraça; And, um gajo qualquer; e outros, muitos outros. Exuberante e prodigiosa, a nomenclatura Amisiana filha.
E prontos. Não asso mais carapaus. Leiam, se quiserem, ou não, se não.
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17.10.08
Viagem de Bentley
16.10.08
Não, o Paranormal nunca será perdoado

Os desvarios do PREC não acrescentaram virtudes à Outra Senhora. As agruras do pós-guerra nunca trouxeram saudades do Tio Adolfo. O Terror não reabilitou o Absolutismo. Nem mesmo McCain, se fosse eleito, poderia alguma vez causar uma vaga de fundo a pedir o regresso de Bush.
Por muito mal que corram as coisas nesta fase de regresso à normalidade (e é difícil imaginá-las a correr pior) nunca me verão pedir o regresso do Paranormal. Aliás, está por demonstrar que uma boa parte da responsabilidade dos eventos actuais não deva ser directamente assacada ao Paranormal.
Quanto ao próprio Queirós, ser-lhe-emos eternamente gratos por isto.
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15.10.08
Random Reflection
How oddOf God
To choose
The Jews!
Isto deve-se a W. N. Ewer (Ewer, William Norman, 1885-1976, jornalista, evidentemente britânico, também conhecido por Trilby, pseudónimo). Não sei porquê, apeteceu-me botar isto aqui. E apeteceu-me ilustrar isto com o episódio da luta entre Jacob e o Anjo (sendo que Jacob é o artista posteriormente conhecido como Israel e Anjo é provavelmente um pseudónimo de Deus, neste como noutros episódios). Mas que se lixe. A quadrinha é bem caçada e a imagem é bonita, não é? Isso é que interessa. Ou não, talvez. Mas adiante.
Sendo os judeus um povo a quem se tem acusado de tudo menos de falta de sentido de humor, atribui-se a Leo Rosten a seguinte resposta:
Not odd
of God.
Goyim
annoy 'im.
Para quem não saiba e não esteja para se chatear a ir ver, goyim são os gentios, que é o que nós, os não-judeus, somos, para os judeus.
Num registo de quem leva a coisa mais a sério, há esta outra resposta que a Wikipedia não sabe se há-de atribuir a Cecil Brown ou a Ogden Nash. Eu, que só conheço o segundo, diria que não interessa muito de quem é. Diria também que não é preciso ser nenhum Sherlock Holmes para deduzir que é de autoria goyim. É assim:
But not so odd
As those who choose
A Jewish God
Yet spurn the Jews.
Tendo chegado ao Ewer e à sua singela Random Reflection por via do meu já citado Modern Humour, an anthology for the sixties, a Wikipedia é que me permitiu dar estes saltinhos até ao Ogden Nash, com cujo me proponho encerrar o posto. Joyce Kilmer (não faço ideia quem cereja e não se me fez o clique de indagar) terá avançado com isto:
I think that I shall never see a poem lovely as a tree.
E vai o velho Ogden:
I think that I shall never see
A billboard lovely as a tree.
Perhaps, unless the billboards fall,
I'll never see a tree at all.
E com esta me fico. Quanto mais não seja até à próxima.
14.10.08
Injecção de pesporrência

Alguém, sem ser este desinfeliz, viu ontem o Prós e Contras? Pois.
De José, o Manuel, não vou falar. Não me apetece. E mesmo que me apetecesse não haveria nada para dizer.
Já os quatro cavaleiros da banca, ali juntinhos, têm que se lhes diga. Claro que não é a Fátima Campos Ferreira que os vai pôr a dizer seja o que for que não lhes apeteça (se bem que o Ulrich esteve lá quase, tamanha era a carga de nervos que a mulher lhe estava a meter; e como eu o compreendo). A postura de Estado, quando não é de enfado, sai-lhes quase com naturalidade. Vamos lá, os quatro, e só com a Nossa Presença vamos dar ao povo um Sinal. Sinal de quê? Da Nossa Presença. Muito bem, malta, é isso. Vamos lá. E lá foram.
Ao contrário de todas e de cada uma das emissões anteriores do Prós e Contras, nesta não se ouviam sequer as moscas na plateia. O realizador de vez em quando mostrava que sim, que havia gente ali, mas não era a maralha do costume. Era gente séria, respeitável e, acima de tudo, respeitadora. Duvido que tenha sido preciso pôr aquela tropa a assinar algum papelinho. Um erguer de sobrancelha e um dilatar de pupila por parte de uma qualquer daquelas eminências seria mais que suficiente para os reduzir a todos ao silêncio.
A Presença dos quatro potentados, amplamente apregoada em todos os canais da RTP, era o que o programa tinha para oferecer. Alguém esperava, sinceramente, que a solenidade e a gravidade da Presença fosse perturbada por gente a fazer perguntas ou a contrapor opiniões? É possível que isso até tenha passado na cabeça de algum elemento mais contumaz da produção. Tenho a nítida sensação de ter visto, entre os escudeiros e lacaios dos quatro potentados, um ou outro director de publicação da área económica. Talvez esses tenham sido obrigados a assinar o papelinho. Ou não. Não posso garantir.
Seja como for, a cerimónia decorreu sem quaisquer imprevistos. A liturgia perfeita. Fátima Campos Ferreira, imune às evidências, consegue convencer-se a si própria de que está a desempenhar o seu papel de espremer até sair sumo. Com isso, consegue provavelmente convencer também uma boa parte da audiência. Pelos vistos as pessoas gostam que as pessoas as convençam de coisas, desde que fique bem claro que elas, as pessoas, não estão lá muito convencidas de coisa nenhuma.
Em termos de pesporrência pura, não houve rival para Santos Ferreira. O homus millennium é assim ou é o Santos Ferreira que é assim? Um pouquinho de cada, provavelmente. Mas numa altura destas? Numa cerimónia daquelas? Não tenho dúvidas de que, em querendo, o Ulrich, o Salgado, mesmo o Faria, serão perfeitamente capazes de produzir níveis invejáveis de pesporrência. Mas ontem acharam, e bem, que os tempos e a cerimónia pediam outra postura.
Resta saber o que é que se passou para o Santos Ferreira ficar tão isolado na sua demonstração de pesporrência. Será por ganhar mais que os outros? Será por ganhar menos que os outros? Será que tiraram todos à sorte e calhou-lhe a ele fazer aquela figura, para dar um pouco mais de credibilidade ao programa? É que a credulidade do povo também há-de ter os seus limites, e estes provavelmente não incluem quatro potentados da banca aparecerem no mesmo dia e à mesma hora sem sinais ostensivos de pesporrência. Ou será uma manobra concertada da restante banca contra o BCP? Há que estar atento.
Mais incómoda ainda do que a pesporrência é a sabujice, quanto mais não seja porque aquela se alimenta desta. Sabujice da RTP, que impinge aquela Presença sob a capa do Prós e Contras (Conversa em Famílias talvez fosse uma designação mais apropriada para aquele formato). Sabujice da maralha-premium que se presta àquele papel de ir encher a plateia sem levantar um dedinho que seja (a não ser, eventualmente, para tirar algum macaco do nariz). Sabujice das audiências, que não dão mostras de se incomodar com estas coisas.
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13.10.08
A minha contribuição para Santa Pristina
No meio dos biliões todos de que tanto se tem falado nos últimos dias, houve 120 milhõezitos que passaram despercebidos. Reunidos algures, os responsáveis europeus por estas coisas decidiram que o Kosovo não ia lá só com o reconhecimento de Portugal. Não. O Kosovo irá muito melhor com 120 milhões de euros de 'ajuda comunitária'. Desses 120 milhões, quanto é que será a minha parte? Se se dividisse à moda do Porto, pelos 495 milhões dos 27, daria €0,242424 por cabeça. Vinte e quatro cêntimos e pico. Cinquenta paus, vá. Provavelmente será um pouco mais, porque não acredito que os espanhóis, os cipriotas e os outros irresponsáveis todos que ainda não reconheceram o Kosovo também entrem na vaquinha. Aí os meus cinquenta mil réis subiriam para setenta ou oitenta. Claro que também se pode dar o caso de os alemães entrarem com mais do que a parte deles (espero bem que neste caso isso aconteça), o que poderia levar a minha contribuição novamente para os cinquenta paus.
Seja lá quanto for, acho mal. Acho mesmo muito mal. Mal por mal, prefiro doar os meus cinquenta paus a um banco qualquer em apuros do que ao Kosovo.
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9.10.08
Bestandwin

Ontem vi isto nas notícias e não acreditei. Impossível.
Depois lembrei-me: espera aí, eu conheço este sujeito (o vendedor do produto, que aparecia todo contente a explicar tudo). É menino para isto. O impossível passou a não querem lá ver.
Mas então e a entidade reguladora? O Banco de Portugal, numa altura destas, não ia permitir uma coisa destas. Enfim. Quer dizer. Pois. Vieram-me à memória todos os últimos exemplos da actuação (chamemos-lhe assim) do Constâncio. Aí o não querem lá ver virou foda-se, isto é verdade.
Há pessoas que não entendem bem as coisas se ninguém lhas explicar, de preferência com ilustrações, gestos e demonstrações práticas. Tem sido, historicamente, o caso dos defenestrados, dos guilhotinados e dos romanovisados. Quando a populaça atinge um ponto qualquer de saturação, dão-se todo o tipo de incidentes desagradáveis e sangrentos, reprováveis, é certo, mas que têm pelo menos o condão de ninguém mais poder dizer que não está a perceber o que se passa.
Veja-se o caso da wrap party dos moços da AIG. Um beberete de 440 mil dólares, uma semana depois dos 80 biliões do bail out. Se um dos empregados do resort, chamado a servir aquela rapaziada e perturbado por ter a sua reforma e poupanças entregues à AIG, desse mau uso a alguma faca da cozinha, por exemplo, de quem seria a responsabilidade?
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8.10.08
Foi você que falou em irreversibilidade?
"Na sequência de um amplo e diversificado conjunto de contactos prévios (...), foi esta tarde enviada uma carta do Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros ao seu homólogo do Kosovo onde se comunica que, com efeitos a partir desta data, o Governo Português reconhece formalmente a República do Kosovo como Estado soberano e independente", diz ao povo e ao mundo o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Governo da República Portuguesa.
Diz que, feita "uma avaliação metódica da questão", "constatou que as autoridades do Kosovo têm respeitado os compromissos assumidos perante a ONU" e "entende que a evolução dos acontecimentos no Kosovo é globalmente positiva". Presumo que com isto se queira dizer que estamos muito contentes e nos damos por muito satisfeitos por, oito meses depois da declaração de independência, ainda não ter havido guerra da grossa ali naquele sítio tal e qual. A da Geórgia não conta, porque é mais para acolá.
A palavra-chave mais usada ontem pelo ministro Amado (pareceu-me mesmo que era a única, mas pode ser um disparate da minha parte) é a irreversibilidade. Antes do Amado ministro, já tinha vindo o inenarrável Lello preparar o terreno para o triunfo da irreversibilidade. Claro que não há conceito, por mais virtudes que tenha, que resista a ser anunciado por José, o Lello. E este da irreversibilidade está longe de ser virtuoso. Irreversibilidade não é mais e chega a ser bastante menos que a famosa real politik: as coisas são como são e os estados, sendo como são, fazem as coisas que fazem porque as coisas e os estados assim o exigem.
Ao contrário da real politik, que contém uma componente de procura activa de um interesse do estado, a irreversibilidade é um conceito de absoluta passividade, que também poderíamos designar por no politik (ou a política do Maria-vai-com-as-outras, como Santos Pereira bem resume). É a mera constatação de facto. No caso do Kosovo é pior um pouco, porque nem o Zandinga se atreveria a prever o que se vai passar nos Balcãs nos próximos tempos, quanto mais o Lello ou o Amado.
Até ontem, julguei que era a real politik que levava a República Portuguesa a não se precipitar no reconhecimento do Kosovo. Não indo mais longe, o precedente kosovar pode dar verdadeiras arrelias em Espanha. Já deu na Geórgia. E não há razão nenhuma para não dar em Chipre, na Córsega, na Irlanda, na Bélgica, na Macedónia, em Cabinda, na Transilvânia, no Alasca, na Madeira, nos Açores, nas Berlengas ou na Cova da Moura. Por exemplos.
Timor-Leste é a prova (essa sim, mais que provada) de que o princípio da irreversibilidade vale o que vale, para não dizer menos. Se Portugal fez alguma coisa foi não aceitar a anexação/integração como irreversível e, provavelmente com boas doses de real politik, conseguir convencer outros estados das vantagens da não aceitação da irreversibilidade. Foi teimar e teimar e teimar até à reversibilidade total.
Ontem o Amado não estava muito numa de dar explicações, talvez porque não as tenha para dar. Abespinhou-se todo com uns deputados e lá fez à noitinha o grande frete de passar um quarto de hora com a Ana Lourenço. Sem ser a irreversibilidade, só o ouvi falar em timing (conceito para o qual o Lello não nos tinha alertado). O timing era justamente a única coisa que eu pensava que Portugal estava a gerir com real inteligência. Sendo óbvio para toda a gente que a posição de Portugal, em si, não aquece nem arrefece coisíssima nenhuma, havia todo o espaço do mundo para escolher o tempo do anúncio (dando de barato que haja boas razões, das tais da real politik, para que se acabe por chegar ao reconhecimento e consequentemente o timing seja a única verdadeira questão a resolver).
O Lello pode não perceber e o Amado pode não saber explicar, mas o certo é que ontem a República Portuguesa deitou o precioso timing pela janela fora. Durante estes oito meses, ingenuamente, pensei que o timing do anúncio seria cuidadosamente articulado com Espanha, no mínimo, e de forma que não deixasse dúvidas a ninguém (até a Manuela Ferreira Leite entenderia sem necessidade de se deslocar a Belém). Mas não. É que, no meio de tudo o que não disse e em resposta a tudo o que a Ana Lourenço não lhe perguntou, o Amado ministro lá deixou escapar que de toda a pandilha que ainda não tinha "dado este passo" (reconhecer aos kosovares o direito à independência e a festejá-la com bandeiras da Albânia) Portugal é o único país que não tem nenhum problema interno do género e "não quer criar nenhum problema artificial".
Como diria um amigo meu que é lá daquelas bandas: pushy kurats (o meu amigo escreveria isto como deve ser, em cirílico, mas eu não chego a tanto, fico-me por uma transcrição relativamente fonética).
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7.10.08
Noé ou Noddy?
Peço muitas desculpas não sei bem a quem, mas vou ter de fustigar um spot de rádio*. Já não o faço há muito tempo e este tem-me andado atravessado. Não, não é aquele da ExpoCasa ou lá o que é, que agora até foi promovido à TV, que diz que "tem coisas giras". Não é esse. É um do Jornal de Notícias (a não ser que seja do Diário do Notícias) (ou do Primeiro de Janeiro), que se destina a divulgar uma colecção de histórias bíblicas destinadas às crianças.
O spot segue o tradicional esquema das duas partes (a que também poderíamos chamar o esquema azeite e vinagre). A primeira parte é publicitária, a segunda é informativa e as duas não se misturam. É um esquema que muitas vezes acaba por ser o único possível, por muitas razões (razões em que, para gáudio geral, me vou abster de entrar).
Antes de a desancar um pouco, faça-se à primeira parte do spot a justiça que merece. Cumpre, no mínimo, o papel de chamar a atenção, se não nunca me lembraria daquilo e não poderia agora passar à zurzidela.
O caso não anda longe de um outro que tive oportunidade de escarafunchar aqui. Diga-se desde já que o Jornal Diário de Janeiro não vai tão longe na estupidez como a SalesForForceFourSearch. Aliás, para um ouvinte medianamente desatento e menos picuinhas do que eu, provavelmente até estará bem conseguido. Diga-se também, já agora, como é o spot: a segunda parte, a do azeite informativo, é a que permite recordar nitidamente que o anunciante é o Jornal Diário de Janeiro (a menos que seja o Comércio do Porto ou o Correio da Manhã) e que o anunciado é a colecção de histórias tiradas da Bíblia para dar às criancinhas.
A primeira parte, a do vinagre publicitário, consiste naquilo que se deduz ser o início da história da Arca de Noé, contada por uma voz feminina, doce e maternal como se impõe nas circunstâncias. O que ouvimos da história é qualquer coisa como: "Era uma vez um senhor chamado Noé que adorava animais". Para o tal ouvinte desatento, tudo bem (presumo eu). Para um desinfeliz como eu, incapaz de se ficar apenas pela forma e abstrair do conteúdo, estamos mal.
Ao contrário do caso da SalesForForceFourSearch, aqui o universo bíblico faz sentido. Não é forçado nem é opção, é o próprio produto. E esse é que é o meu problema. Talvez por acaso, talvez por ignorância, talvez por uma conjugação dos dois factores, o certo é que "adorar animais" era das piores coisas que podiam acontecer na história do Noé. O clímax da história é o Dilúvio, um cataclismo desencadeado por um deus que à época se mostrava particularmente empenhado em afirmar-se como O Deus, não como um mas como o único. Quem leia o Génesis na versão não adaptada às criancinhas do século XXI percebe que a concorrência era numerosa e variada. Entre divindades de todo o tipo e feitio, havia uma propensão para adorar animais que irritava solenemente o Senhor. Foi por essas e por outras, justamente, que Deus decidiu partir para o genocídio.

Não sei se esta versão infantil retrata o clímax da história de outra forma, mas o Dilúvio do Génesis não foi o produto de umas alterações climáticas nem uma tempestade tropical de intensidade inusitada. Foi uma demonstração inequívoca e brutal do poder divino, com o intuito original de extinguir a raça humana. Só à última da hora é que Deus decide salvar alguém e escolhe um tipo qualquer que não ande a adorar os animais nem outros pretensos deuses. O escolhido é Noé, claro. Este, por sua vez, limita-se a fazer o que o Senhor lhe manda. A história não é "ai coitadinhos dos animais que vão morrer todos, que desgraça, já sei, vou fazer uma Arca e salvá-los — pensou o Noé". A história é "escuta bem, Noé, que eu não vou dizer isto duas vezes, fazes uma Arca e metes-te lá dentro sossegadinho com a tua senhora e um casal de animais de cada espécie, se não estamos mal contigo — proferiu o Senhor". Por muito que se adapte, por muito que se actualize o estilo, a história é esta e não outra.
Se eu quisesse incutir valores religiosos a alguma criancinha, gostaria que, do Génesis, ela retirasse pelo menos a ideia de que há um e um só Deus, que O temesse e respeitasse porque Ele é capaz de tudo e de mais um par de botas, e que a única forma aceitável de O adorar é em regime de absoluta exclusividade. Para quem não quer introduzir o tema Religião na educação da canalha ou para quem acredita que os tempos mudaram e a canalha de hoje já não deve ser exposta às overdoses de escatologia e cataclismo do Antigo Testamento, há sempre o Noddy.
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* Claro que posso estar aqui a cometer uma enorme injustiça, no caso de o spot estar contaminado exactamente pelo produto. Mas, mesmo nesse caso, a injustiça será mais aparente do que outra coisa. Não me interessa nada de quem é o erro, do anunciador ou do anunciante, interessa-me o erro em si.
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Mutatis mutandis (mais coisa, menos coisa)
Jogar com uns gajos do Porto, marcar por volta da meia hora da primeira parte e mesmo no fim levar o empate. Eis, resumidamente, a história dos dois jogos mais importantes da 5ª jornada. O da Liga da Cerveja, por ter tido transmissão em canal aberto, fica ao critério de cada um. Eu vou pelos ensinamentos do velho mestre Trapattoni: da maneira que foi, um ponto é melhor que ponto nenhum. Já o da Liga da Água foi dirigido a um target muito mais seleccionado. Não se tendo estado no José Arcanjo, há que fazer fé na imprensa especializada: o Olhanense teve galo, o Boavista teve caga.

Esta é a pequena beleza do futebol (a grande beleza do futebol é quando o Benfica e o Olhanense ganham, naturalmente): histórias que se resumem nas mesmas palavras podem ser tão diferentes como a cerveja e a água.
2.10.08
Ver ou não ver

Diz no Público que a adaptação ao cinema do Ensaio sobre a Cegueira, de José, o Saramago, está a causar polémica entre os invisuais norte-americanos. Marc Maurer, presidente da respectiva Federação Nacional, entende que a cegueira "não é uma alegoria muito inteligente para falar sobre o colapso da sociedade". Deduzo que não tenha adiantado qual a alegoria inteligente para o fazer (a paralisia, a impotência ou qualquer outra que ocorra também iriam certamente desagradar a alguma Federação análoga).
"O filme retrata as pessoas cegas como monstros e isso é mentira", conclui Marc Maurer enquanto vai preparando um protesto em regra contra o filme. O Público não esclarece sobre a natureza de tal protesto, mas acredito que passe, no mínimo, por conseguir que os invisuais não vejam o filme. Antevejo uma enorme taxa de adesão. Não sei se existe alguma versão inglesa e em braille do Ensaio, mas creio que não seria descabido que Marc Maurer tivesse uma, para poder não a ler.
Claro que Marc Maurer pode ser apenas um instrumento da campanha republicana, destinado a fazer brilhar a senhora Palin. Ou alguém contratado pelo próprio Saramago, só para comprovar a estupidez dos americanos e (alegoricamente) mostrá-la como inerente ao capitalismo. Sabe-se lá.
(Blindness, de Fernando Meirelles, estreia amanhã nos Estados Unidos. Ou não. A ver vamos.)
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