"Pode ser que sim. Pode ser que não. Não posso garantir." - in Astérix, A Volta à Gália

2.10.08

Nojo


Finalmente tenho aquilo que muita gente tem no mundo dos afectos futebolísticos. Já tinha, de pequenino, o meu clube adorado. Fui coleccionando muitos outros de estimação, entre os quais um muito especial. Estou a falar, obviamente, do Benfica, do Olhanense e de uma data deles que me são simpáticos.

Claro que também vai havendo uns que não agradam particularmente, como o Febolquelupârto ou o Zbordn. Mas nem desses posso dizer que odeio ou que detesto. Não é verdade. Lamento muito mas não tenho nada de visceralmente contra o Febolquelupârto (não tenho vergonha nenhuma de recordar que até fiquei todo contente quando ganharam a Taça dos Campeões em 87 e também achei uma certa piada quando voltaram a ganhar agora com o Mourinho), e muito menos contra o Zbordn, (a sério, por vezes até chego a achar alguma piada ao Zbordn).

Ocasionalmente, há um ou outro clube que me desagrada durante um tempito, mas depois aquilo passa. Por uma razão ou por outra, foi o caso do Anderlecht, de quase tudo o que é clube italiano, da França, da Grécia, etc. Mas nada que me chegue a revolver as entranhas. Até ontem. Ontem, finalmente, um desses pequenos ódios de estimação desceu definitivamente à categoria de nojo profundo. Finalmente tenho um clube que vou odiar incondicionalmente para o resto da vida. Estou a falar do Barcelona.

Nunca gostei particularmente do Barcelona. Com tantos jogadores fenomenais que tem tido, chegou a haver uma altura ou outra em que até gostava de os ver jogar. Mas o clube, em si, nunca apreciei particularmente. Tudo começa, como em qualquer história, pelo princípio. E o princípio é o verbo, a palavra, o nome. Barcelona. Experimentem dizer isso três vezes seguidas. A única palavra acabada em ona que se pode usar com elegância, num contexto futebolístico, é Maradona. E eles tiveram-no lá. Só que devoram vedetas a um ritmo tal que o Maradona é mais um. Se se quer ver o que é adorar o homem como ele merece tem que se ir a Nápoles (ou à Argentina, naturalmente). Quando se diz Barcelona activam-se as mesmas partes do cérebro e do estômago que se usam para dizer badalhoca e matrafona (e por aqui me fico).

Depois há a questão das cores do equipamento. A conjugação daquele azul e daquele grená, se é que é assim que chamam àquilo, é de uma infelicidade notável. Outras combinações absurdas, como o azul e preto do Inter, chegam a parecer alegres por comparação com aquele empastelamento. Que me lembre, só há mais uma situação em que uma pessoa se depara com uma combinação de cores parecida: é nos sinais de proibição de estacionamento. O que, naturalmente, não traz associações positivas.

Os adeptos é o que se sabe. Uns cagons da pior espécie. Nos jogos fora só pelas cores se conseguiriam distinguir dos do Marítimo ou do Paços de Ferreira, nunca pelo aspecto quantitativo. Se o Desportivo de Chaves vier jogar à Luz o efeito nas bancadas é rigorosamente o mesmo, em termos cromáticos. Nos jogos em casa, onde se juntam mais de 100 mil de cada vez, conseguem o feito verdadeiramente único de impedir que equipas com vários dos melhores jogadores do mundo sejam campeãs de qualquer coisa, o que seria óptimo (para eles) se essas equipas não fossem justamente as deles.

Tudo isto sempre me desagradou no Badalhoca. Os penáltis também. Não há jogo daquela gente em que não se invente pelo menos um penálti a favor e/ou anule um contra. A única comparação possível, nesse aspecto, é com o Brasil. Até contra o pobre do Zbordn inventaram um penálti, não fossem os cento e vinte mil enervar as estrelas todas ao ponto de não conseguirem passar do 1-0 e sujeitarem-se a algum golo do Zbordn, como veio a acontecer.

Os últimos acontecimentos foram a gota d'aigua, a pena a mais que fez quebrar a espinha dorsal do camelo. O triste episódio dos boixos nois não teria sido mais triste do que qualquer outro que envolva os retardados mentais das claques de qualquer clube, não fosse o papel a que se deram os próprios jogadores. Um asco. Ontem, com aquela do não devolver a bola ao Shakhtar e aproveitar para empatar, pude confirmar aquilo de que já suspeitava: o Badalhoca mete-me nojo.

A partir de hoje posso viver o futebol na sua plenitude, tirando de todo e qualquer momento menos feliz do Badalhoca o mesmo prazer que tiro de um bom resultado do Benfica.

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29.9.08

Olhão mete água


Chuvas torrenciais em Olhão, com efeitos especialmente nefastos na Fuzeta e Alfandanga, impediram o Olhanense de se concentrar devidamente na tarefa que tinha em mãos (e pés). Mais preocupados com a segurança e o bem-estar das respectivas famílias e haveres, os moços sucumbiram perante o Varzim. Não sem antes se terem adiantado no marcador, note-se. Ao intervalo, valia o golo de Djalmir. Deve ter sido nessa altura que chegaram ao balneário as inquietantes notícias lá de baixo, envolvendo inundações e consequentes perdas de bens e de sossego. Na segunda parte, Toy arranjou maneira de acumular dois amarelos, provavelmente para poder ir mais rapidamente acudir a alguma situação de emergência, e o Varzim aproveitou-se para dar a volta e fazer 2-1.

Aqui fica o registo, para não dizerem que o Desinfeliz só aborda estes assuntos quando as coisas correm bem. Imaginem que o Olhanense tinha ganho com tudo a seu favor: a jogar em casa, contra o Portimonense, por exemplo, e que só dava 2-0. Em circunstâncias dessas, provavelmente o Desinfeliz nem tocaria no assunto. Nada disso. No Desinfeliz impera o fair-play e não se entra facilmente em euforias de celebração da normalidade.

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24.9.08

Trio reduzido a três

Isto não é nada meu hábito (nem meu nem de ninguém), mas acho que vou dizer bem de qualquer coisa e de alguém que nem sequer conheço. Peço desculpas a todos os desenvolvidos, até porque antevejo que isto pode alongar-se bastante, mas vai ter de ser.

Ontem, o Trio d'Ataque (creio que o apóstrofe não é apócrifo) acabou com uma substituição na posição de pivot. Saíu Carlos Daniel, entrou Hugo Gilberto. Dir-se-ia que foi troca por troca, e foi; que o Hugo Gilberto merece uma oportunidade, e não sou eu que vou dizer o contrário; que isto e que aquilo. Tudo muito certo. Mas nem o Trio d'Ataque é um programa como os outros nem o Carlos Daniel é um pivot como os outros.

Sem desprimor para o Hugo Gilberto, e muito menos para o Miguel Vítor, fiquei com a sensação de que este último tinha acabado de entrar para ocupar o lugar do Mozer ou do Ricardo Gomes. A coisa é a esse nível.

Para mim, o Trio d'Ataque foi durante muito tempo o único programa decente sobre bola. Mais que decente: óptimo. Dir-se-ia que muito do mérito cabe ao trio strictu sensu (Rui Moreira, António-Pedro Vasconcelos, Rui Oliveira e Costa — por ordem de entrada em cena, da esquerda para a direita). Dir-se-ia muito bem, mas não se diria tudo.

Dir-se-ia muito bem, quanto mais não fosse, porque nunca o Benfica tinha estado representado num destes painéis por alguém que não me envergonhasse um pedacito. António-Pedro Vasconcelos está à altura da responsabilidade, e só isso chegaria para elevar o nível de qualquer painel destes. Os três grandes com o único verdadeiramente grande dos três em sub-rendimento não tem grandeza nenhuma. Não vou citar nomes (o único que quero ressalvar é o de Leonor Pinhão, que muito me custa ter de meter no mesmo saco dos outros todos), mas em todos os restantes programas do género de que me lembro o/a representante do Benfica era uma espécie de Moreto ou de Bossio que estava ali mais para ajudar as partes contrárias do que propriamente para defender fosse o que fosse.

Os Ruis, o azul e o verde, por sua vez, conseguem algo de raro nas colectividades que representam, que é não deixar o seu anti-benfiquismo toldar-lhes totalmente o discernimento e falar de bola como as pessoas (não vou ao ponto de dizer que não são anti-benfiquistas, porque não quero ser acusado de incitamento à violência se por alguma razão os Super Dragões ou a Juve Leo vierem aqui e depois coiso).

Mas por muito bem que se tivesse dito isto tudo, não se teria dito tudo sobre isto. Ou seja: os atacantes são bons, porque são, mas só isso não me chega para me explicar o quanto tenho gostado de ver o Trio d'Ataque. O Kempes também era muito bom e o Canniggia não era nada mau, mas a malta lembra-se é da Argentina do Maradona. Os outros dez eram, todos e cada um, óptimos — mas era o Benfica de Eusébio. E o Portugal de Eusébio. A Alemanha do Beckenbauer. A Holanda do Cruyff. O Olhanense de Messi. Não há equipa nenhuma, daquelas que nos enchem, que não contenha um primus inter pares.

No Trio d'Ataque, esse alguém era inegavelmente o Carlos Daniel. Talvez por vivermos na época em que se discute com quantos trincos se deve jogar, ele tem sido o tal pivot dos sonhos de qualquer equipa. Não é ele que vai para as primeiras páginas, mas é ele que vai às dobras. Não marca mas dá a quem dá a marcar. Não é só ele que ganha mas é o único que nunca se perde. E não tem necessariamente que ser discreto ou invisível. Mesmo numa equipa em que brilha um Figo, um Rui Costa e um João Pinto, ele (o Carlos Daniel) é um Paulo Sousa. Até o Pacheco Pereira, se visse um jogo (perdão, um programa), perceberia de que é que eu estou a falar.

No caso concreto do Trio d'Ataque, vou um pouco mais longe. Vou ao ponto de dizer que o trio A-PV-RM-ROC não chega propriamente ao nível de um trio Figo-Rui Costa-João Pinto. Mas quem é que chega a esse nível? Será possível chegar lá, num simples estúdio de televisão, a dizer coisas? Creio bem que não. O trio A-PV-RM-ROC é o melhor possível, tanto no plano individual como em equipa, mas só consegue as exibições e os resultados que consegue porque há ali no meio um CD, esse sim, verdadeiramente genial (não, não há que recear o exagero nos adjectivos; o tema é bola e bola sem exaltação é curling, não é futebol).

O meu ponto é o seguinte: não chego ao absurdo de dizer que o Carlos Daniel conseguia agora pegar no Seara, no Aguiar e no Dias Ferreira e pôr aquilo a funcionar decentemente. O próprio Maradona, se tivesse lá o Fernando Aguiar (perdão, Seara), o Fernando (perdão, Guilherme) Aguiar e o Dias Ferreira (perdão), nunca teria conseguido chegar à final do Itália 90. Há limites para tudo. O meu ponto é que, com outro pivot qualquer, sem a tal qualidade Paulo Sousiana de Carlos Daniel, o trio RM-A-PV-ROC, ao invés de nos chegar a fazer recordar Figo-Rui Costa-João Pinto, poderia facilmente atingir um nível de Rentería-Pesaresi-Purovic.

Posto tudo isto, teremos então os Três Mosqueteiros sem o D'Artagnan, sem o único que daqui a umas dezenas de anos toda a gente recordará como O mosqueteiro. O homem diz que tem mais que fazer, que a RTPN agora não sei o quê e mais qualquer coisa que me escapou. Resta-me reprogramar o cérebro para deixar de evitar não fugir ao Domingo Desportivo, ou seja, lembrar-me de ver aquilo. Três craques não garantem uma boa equipa, ou o Benfica a esta hora já seria quase campeão, mas CD+LFL+JVP tem tudo para poder dar certo, apesar do nome... Domingo Desportivo... não terá ocorrido a ninguém dar outro nome àquilo?

Claro que também continuarei a ver o que se passa no Trio e posso até estar a cometer uma enorme injustiça no que toca ao Miguel Vítor (perdão, Hugo Gilberto). Mas o que é que querem? Deu-me para dizer bem do Humberto Daniel.

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23.9.08

Foi só por um, mas lá ganhámos

Pois é. Foi à rasquinha, foi quase de aflitos, foi pela diferença mínima, mas foi. Valeu o Messi. Sim, o Messi. Não esse outro em que podem estar a pensar, mas sim o africano. Georges Parfait Mbida Messi, natural dos Camarões, 28 anos, médio ofensivo, nº 8 na camisola rubro-negra do Olhanense. Foi ele que, já para lá dos 90, pôs justiça naquele marcador do José Arcanjo: um-zero ao Vizela.


Pensavam que eu ia falar dos 4-3? Não. Isso já lá vai. Isso foi a 31 de Agosto. Rezam as crónicas que foi uma grande injustiça, que ganhou o Sporting errado, que o de Olhão é que merecia, mas o que é que se vai fazer, deu 4-3 para o Covilhã.

São estas coisas (as vitórias à tangente, os Messis, os quatro a três) que atraem público para a modalidade.

16.9.08

Poesia McCannica


Father heard his children scream,
So he threw them in the stream,
Saying, as he dropped the third,
'Children should be seen, not heard.'


Harry Graham (Ruthless Rhyme)

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15.9.08

De volta às frases dos outros

"Except somebody sometimes he liked everybody always."

De um cavalheiro chamado Gerald Kersh, a ler sempre e às vezes também.

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9.9.08

Corsaro mio




Por acasos que não vêm ao caso, reacenderam-se na minha memória os ecos das aventuras de Emilio Salgari. Daí partilhar com vós outros este texto de Paulo Varela Gomes.

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Claro que, entre as minhas memórias e as de Paulo Varela Gomes, há pequenas diferenças de pormenor. Eu comprava-os e posso assegurar que custavam 8$00. 15 mil réis seria um absurdo, uma extravagância, quase uma bicicleta.

Mas, ínfimos detalhes à parte, soube-me tão bem ler estas memórias como me sabia, na altura, chegar a casa com um novo Salgari, acabadinho de sair das penumbras da própria Romano Torres, na Rua Nova de São Mamede, ali à Escola Politécnica, rasgar-lhe as folhas que ainda vinham por abrir (nem sempre com um corta-papel, nem sempre com muito cuidado, que a ânsia era muita e os oito paus desinibiam bastante), e pespegar-me a lê-lo numa postura que não faço ideia onde fui arranjar mas que pratiquei durante bastante tempo e era assim: o livro no chão da sala, aos pés daquilo a que na altura chamávamos um maple, eu também no chão, de joelhos, com a cabeça apoiada no assento do dito maple. Também era nesta figura que me punha para ler outras coisas, evidentemente, mas poucas com tanta voracidade como o Corsário Negro e os irmãos Verde e Vermelho, e a filha, a Iolanda de Vintemilhas, e o Carmaux e o Van Stiller, e o Morgan e o Pedro, o Picardo, e Maracaíbo e as selvas e as tascas e aquilo tudo que este texto veio desassossegar.

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Mamma mia!


Se a minha mãe frequentasse a internet, o que felizmente não acontece, não sei se teria a coragem ou o desplante de partilhar isto aqui.

É o seguinte.

Ontem fui ver o Mamma Mia!! (Este último ponto de exclamação é meu.)

Para além do título italiano, a receita inclui: um libretto sueco; uma ilha grega; uma produção norte-americana; a Meryl Streep; o Pierce Brosnan; uma t-shirt do Johnny Rotten.

Vi e fiquei, como o falecido Américo de Deus Rodrigues Tomás, reduzido a um único adjectivo: gostei.

Ontem, finalmente, percebi o fenómeno do cinema indiano.

8.9.08

25.8.08

Blogue temporariamente inactivado


O mentor disto encontra-se a cumprir férias, pelo que o advérbio de modo do título é a principal ameaça a reter. As previsões apontam para um regresso à chamada normalidade na segunda semana de Setembro.

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13.8.08

Reininho avant la lettre

A horrorosa natureza como ela é.

Nature
Daniel Pettiward

It's a pity that nature entails
Such things as snails
And that being alone with it implies
So many flies
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Entomologicamente picado da anteriormente citada antologia.

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12.8.08

Sai um hotel inglês (weather oblige)

Encontrei isto num velhinho e fabuloso Everyman Paperback (Modern Humour, An anthology for the sixties, from Belloc to Wodehouse) e pareceu-me que vinha a calhar. Eu cá gostei. Tendo o autor abandonado o seu envólucro mortal em 1945, só posso deduzir que o texto seja algo anterior. Pouco importa. Eu cá gostei. Tomai e provai.







Hotel Piece
Herbert Farjeon

As manageress of the Talbot Arms
I try to keep the tone up;
I’ve a smile that cheers and a voice that charms
Our visitors when they phone up;
A very good class we cater for
In tweeds and aquascuta
That don’t disgrace our antlers or
Our sporting prints of pewter.
My coiffure cannot fail to pass,
My spray is picturesque,
My nails are nice, and I keep a glass
Of stout behind the desk.
It’s true our guests may sometimes fail
To tip the under-porter,
Our chambermaids could tell a tale
Or two about hot water,
We sometimes find a lady’s comb
In a bedroom that surprises,
But there! to make a home from home
It takes all sorts and sizes.

There’s No. 37 who is given to complain,
And No. 5 whose overcoat has lost its collar-chain,
17 is quite a puzzle — I can’t think what he’s about —
He keeps on going out and coming in and going out;
No. 12 is so extremely hoity-toity and select
He never says Good Morning, which is
not what I expect,
And No. 44
Has forgotten to bring more
Than the top of his pyjamas, which creates a bad effect.
No. 2 is back from Egypt, which is rather more my line,
But you can have the lot if you will give me No. 9 —

Oh, the leather of his suit-case really gave me such a thrill
That every time I see him, I can somehow smell it still;
He’s a dozen pair of boots, and he’s a dozen pait of trees
(You can always tell a gentleman by little things like these),
He telephones to Ascot, and he telephones to Cowes —
It’s for him I wear these lilies of the valley in my blouse.
Oh, No. 9, yes, No. 9 is all the rage with me,
It gives me quite a flutter just to think I have his key,
And his voice! I often mention to him, just to hear him speak,
What simply gorgeous weather we experienced last week.
He’s got a place in Dorking that I gather is divine,
And the extras he has had! the baths! the billiards! the wine!
Oh, I feel that this hotel
Would do very, very well
If we had a few more clients of the class of No. 9.

Our lady guests are apt to be more fussy than the men —
What with draughts and smells and ringing bells, I’m sick of No. 10;
That wretched little dog of hers should really be restrained,
She should keep it in a kennel if she cannot have it trained.
No. 20 is less bother, but I must confess I hope
Next time she leaves the writing-room, she’ll leave
one envelope —
It’s funny how the
Sphere
And the Tatler disappear!
When she goes away on Friday I quite tremble for the soap.
But to all these little troubles I most willingly resign,
For after all, there’s always, yes, there’s always No. 9!
I’ll bet he looks a dream when they take in his morning tea;
He’s A.A. through and through, with not a trace of C.T.C.;
He is always so agreeable, with a pleasant word to say,
I’ll be quite the Madam Butterfly the day he goes away;
Our little conversations are so chatty and so bright
That I’m sure he rather likes me — though of course it’s quite all right.
This morning, when I said the weather really was a shame,
He said it really was — we somehow always think the same —
Then he asked me, Was I busy? and I said: ‘Just one long buzz,
But working stops you thinking’, and he answered: ‘Yes, it does!’
And then I looked straight in his eyes, and he looked straight in mine,
And I said: ‘Well, just for your sake, I do hope it comes out fine.’
Oh, I’m sure that this hotel
Would do very, very well
If we had a few more clients of the class of No. 9.


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A aquascuta do sexto verso intrigou-me ao ponto de me levar a coscuvilhar na internet. Parei com a coscuvilhice poucos segundos depois, ao constatar que aquascutum era uma marca de roupa de alto gabarito que já existia nos tempos de infância do autor, que me parece menino para pluralizar tranquilamente o latim. Não é provável que tal aconteça, mas seria como alguém aparecer no meio de uma versalhada mais contemporânea adornado de rosas & teixeiras, ou c'umas bershkas, consoante o calibre do alguém.

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5.8.08

Os Tuguíadas erraram


Derivado à recente vaga de mais informação sobre o Caso Maddie, o Desinfeliz constatou erros seus que contaminavam as últimas estâncias dos Tuguíadas (calma, calma, as últimas estâncias publicadas, não abram já o champanhe).

Quem, estando de férias ou em adiantado estado de decomposição mental, sentir que não tem nada melhor para fazer, poderá ir aqui e comprovar que, onde antes se viam dois cocker spaniels (supondo que não eram dois cockers spaniel), surge agora um exemplar de Springer Spaniel Inglês (em maiúsculas por ser bastante mais raro e consideravelmente maior que o cocker). Se o seu caso é daqueles clinicamente mais desesperados (refiro-me às pessoas que lêem o que vem por baixo das fotos), poderá até reparar que agora temos spaniels, no geral, onde antes tínhamos cockers, no particular.

Não se julgue que este tipo de opção é fácil, porque não é. O google resolve o problema da imagem em menos de um forfo (ou será fórfero?), e quase sem intervenção humana. Em sabendo, como sei agora, que a bicharada é springer, e não cocker, é só chamar o google, dizer busca! busca! com convicção e depois escolher a caça. Não custa nada.

Já no que concerne às palavras, o problema é totalmente outro. Aí, os problemas como que se desmultiplicam e subdividem, ao mesmo tempo que se exponenciam e decompõem, os sacanas. Ao saber que a sua obra (rigidamente espartilhada pela rima e pela métrica, note-se bem) se encontra contaminada por erros grosseiros de casting canino, qualquer um pensaria que está literalmente tramado. Passado o pânico inicial, qualquer um que se veja nessas circunstâncias recupera a respiração e o ritmo cardíaco ao verificar que o cocker se encontrava no primeiro terço de um verso, longe das zonas de sílaba tónica, onde tudo se decide.

Quando se percebe que springer tem exactamente as mesmíssimas duas sílabas que cocker, esse alívio inicial dá lugar a uma quase euforia. Um estado de espírito que, habitualmente, não é senão o prenúncio de alguma desgraça. Que é o que acontece quando um (eu, portanto) se dá conta de que, desgraçadamente, até pode escolher entre um substantivo mais comum, como spaniel, e um mais particular, como springer.

Entre os já referidos ociosos e/ou alucinados que ainda se encontrem a ler isto, poderá haver algum (atento e mauzinho, como só essa gente que se põe a ler coisas consegue ser) que encolha os ombros e cuspa para o chão em sinal de desprezo, se for de cuspir para o chão. Ou que vá logo apontar o erro nos comentários, se for mesmo porco. É que essa questão, essa possibilidade, já se punha quando um (eu) optou por cocker e não por spaniel. Daí a acusar um (a mim, concretamente) de mentecapto ou simplesmente aparvalhado, não vai muito.

Para que ninguém chegue a tal ponto, um (eu) deverá dar-se ao trabalho de argumentar que a mudança das circunstâncias pode mudar o próprio homem. Isto de um (um qualquer, diria eu) saber que os alegados cockers afinal são springers muda tudo. Ao expurgar do erro a estância em causa, um (se um quiser considerar-se precavido), em podendo, evitará cometer novamente o mesmo erro no mesmo verso. É assim que um (eu) dá por si a substituir a imagem dos cockers pela do springer e o familiar cockers pelo genérico spaniels, quando toca às palavras. Nunca se deve subestimar o efeito da mot juste, mesmo tratando-se de uma francesice e mesmo quando o assunto são chinesices sobre cães ingleses genericamente chamados espanhóis.

Julgáveis que a vida era fácil? Desenganai-vos. Fácil é vir ao Algarve com três putos e deixar um de souvenir, ao invés de o levar, que já está tão visto. Ou de recuerdo. Ou de memento. Um não sabe.

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O Império da Paz Celestial


Também conhecido como Império do Meio.


Como será o do Extremo?

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22.7.08

O verdadeiro menino de ouro


Esqueçam os exageros socráticos, por pacóvios, descabidos, pindéricos, demagógicos e, fundamentalmente, irrelevantes. O menino de ouro era e será sempre o João Pinto. Ponto.

Da minha parte, impõem-se um enorme obrigado e humildes desculpas.

Obrigado pelos 6-3, obrigado pelos 4-4, obrigado por aqueles anos todos a levar-nos às costas só com o Preud'homme lá atrás. Sem resultados práticos do género mais apetecido, é certo (canecos, portanto). Mas que diabo, aquilo é suposto ser 11 contra 11, 9 contra 14 ainda vai (já contando com um coxo e um expulso do nosso lado e com o pessoal do apito e das bandeirolas do lado de lá, como tantas vezes acontece), e não um senhor belga e um menino, mesmo que de ouro, contra mundi. Felizmente, ao contrário do senhor belga, o menino não se retira hoje sem um campeonato ganho pelo Benfica.

Desculpas pela escassez de títulos (nós, os lampiões de sempre, achamos que temos de sobra, mas estes excepcionais lampiões de ocasião mereciam mais) e, acima de tudo, por aquele episódio tristíssimo das desculpas no fim do percalço em Vigo. Os 7 custaram, obviamente. Foram humilhantes. Foi, há que reconhecê-lo, uma grandessíssima merda. Mas, não fora a cena das desculpas, iria parar à gaveta do "Aconteceu futebol", ou à do "Foi uma noite para esquecer", ou à do "Foda-se". Da maneira que foi, e com a pessoa que foi escolhida para a cena, a humilhação passou a raiva e o caso ficará para sempre na gaveta do "Desculpa, João Vieira Pinto" ou do "A noite em que o Benfica não existiu".

Nos últimos tempos, se tal ainda fosse necessário, ficou bem patente em várias entrevistas e participações nos chamados painéis que o João Pinto, para além do grande jogador que sempre foi, arranjou também maneira de se fazer um grande homem. Gosto de pensar que o Benfica ajudou nos dois aspectos.

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13.7.08

Boas e más notícias


As boas: o Desinfeliz já foi de férias. Para os mais abelhudos: está neste momento em Porto Santo.

As más: nos tempos que correm, como se vê, até em Porto Santo uma pessoa se mete pela internet adentro com uma facilidade que chega a parecer quase obscena. Ou seja: o facto de o Desinfeliz estar de férias não garante que o Desinfeliz não venha para aqui com coisas. Não é provável mas é possível.

Para além de internet, o que se apanha em Porto Santo é o Jorge Gabriel. Mais um sinal de que os tempos vão de mal a pior. Há onze anos, da primeira vez que veio a Porto Santo, o Desinfeliz coabitou com o Manoel de Oliveira. Mais recentemente, não aqui mas em São Miguel, foi o Durão Barroso. Agora é isto. Ao menos podia sair a Sónia Araújo, mas não. Claro que também podia ser pior. O Goucha, por exemplo.

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3.7.08

Yes we McCann (Tuguíadas II, 13/14)



Vieram de Inglaterra os afamados

Canídeos, grandes craques do momento,
Peritos em cheirar os já finados,
Ao refundido dão descobrimento;
Dois spaniels, quem diria, recrutados
Pelo jeito que dão no seguimento
Das pistas de quem foge e anda a monte,
E mais de quem morreu já anteonte.

Viu-se pelo caminho saneado
Um inspector Gonçalo, por castigo;
Sem se saber porquê, foi afastado
No meio do dever; levou consigo
O muito, pouco ou nada que apurado
Teria — que o poder não foi amigo:
Afastou do processo quem sabia
E aos bifes deu razão p’ra zombaria.

(...)

2.7.08

Aqui nada se prescreve, tudo se escreve (Tuguíadas II, 11/12)



Será que a moça Maddie foi raptada

Por algum meliante de tez escura?
Ou será que uma dose reforçada

Lhe deu a mãe de droga, porventura?
Para não se perder a jantarada,
Perde-se a Madeleine! Que loucura!
Mas entre as coisas raras que se ouviram
Nada de relevante descobriram.





Sabem agora os bifes que os arguidos,
Na terra onde o McCann de férias ‘tava,
Bem mais do que suspeitos, protegidos
Ficam p’la mesma lei que os acusava.
O povo, que os trazia por feridos,
Às tantas desconfia: assobiava
A Kate, por não ter por costumeiro
Que se perca da filha o paradeiro.

(...)

1.7.08

Silly season, silly me (Tuguíadas, anyone? II, 7/10)


E quando é que veremos condenados
Aqueles que, por feitos tenebrosos,
Se vão fazendo sempre tão falados?
Mil casos, mui diversos, copiosos,
Os quais as mais das vezes arquivados
Acabam, em processos pantanosos;
Equidade e justiça só desejam
Os Tugas, que entretanto já bocejam.

Se acaso vais à disco Sarabanda
E a noite, que tão calma se mostrava,
Acaba c’um qualquer de cara à banda,
Se alguém dá noutro alguém com uma clava,
A bófia vem mostrar quem é que manda
E quem não for a tempo já não cava:
Assim, com os pequenos são temidos,
C’os grandes ficam sempre adormecidos.

Deu-se o caso, que todos relataram,
Dos MacCanns que de filhos três traziam,
E enquanto c’os amigos se ajuntaram,
Comeram e beberam como queriam,
Até que finalmente repararam
Que as coisas afinal mui mal corriam,
Pois a pequena Maddie já não veio
Levada, dizem eles, pelo meio.

Terá sido descuido ou por maldade?
Procurou-se um raptor desconhecido,
Tomando cegamente por verdade
O que podia ser mui bem fingido,
Sem admitir que muita alarvidade
Vem de quem nos parece mais querido.
No alheio a culpa se buscava
Que no materno seio se encontrava?

(...)