"Pode ser que sim. Pode ser que não. Não posso garantir." - in Astérix, A Volta à Gália

18.1.07

Votar ou não votar, eis a questão

Não havendo eleições à vista, para ir entretendo vamos ter a segunda mão do referendo do aborto. Já se tendo visto, nas ocasiões anteriores, que os referendos não são propriamente casos de sucesso em termos de mobilização do voto, eis que, em boa hora, surge também a eleição do Grande Português de todos os tempos.

Claro que um homem pode sempre abster-se, como em qualquer outra eleição. Mas, até chegar a essa sábia decisão, não fica mal considerar as outras hipóteses.


Comecemos então pelo princípio, por Dom Afonso Henriques. Com muita pena minha, atendendo ao respeito e admiração que nutro pela mandatária do candidato, este não levará seguramente o meu voto. Parece-me muito deprimente, quase 900 anos depois, chegar-se à conclusão que o melhor português de todos foi o primeiro. Chega a ser falta de consideração pelo próprio Afonso Henriques e pela trabalheira que lhe deu inventar o país. Seria apropriado para um país recém-criado, ou para um país maioritariamente povoado por gente tão orgulhosa que a única forma de não ferir susceptibilidades fosse atribuir os louros ao pai da pátria. Sendo Portugal e os portugueses o oposto disso, o Dom Afonso Henriques terá de passar sem o meu voto.


Segue-se, na ordem alfabética, Álvaro Barreirinhas Cunhal. Não tenho problemas em renunciar ao direito ao segredo do voto: em vida dele, cheguei a votar no partido dele. E não excluo a posssibilidade de voltar a votar no PCP (tal como não excluo voltar a votar no PPM, por exemplo). Mas duvido que o próprio Cunhal gostasse de se ver ali, naqueles preparos, a ver quem é O Maior. E mais: um homem que passou a vida toda a lutar, entre outras coisas, pela unidade e contra o trabalho de fracção, dificilmente gostaria de ver ganhar um candidato tão fracturante quanto o próprio.


Next: Salazar, António Oliveira de. Para além de fracturante, para não lhe chamar outras coisas, este seria talvez um óptimo candidato ao título de O Mais Portuguesinho de Todos os Tempos. Mas o título em disputa não é esse. E, se por algum acaso eu me fosse preocupar com o que o próprio poderia pensar a respeito disto, tenho a certeza que nunca aprovaria um método de escolha que passasse pelo voto dos portugueses. Adiante, portanto, que atrás vem Gente com maiúscula.


Segue-se o candidato-revelação, Aristides de Sousa Mendes. O nosso Schindler. O Manuel Alegre desta eleição. Mas, e aqui o mandatário Júdice marcou três pontos logo no primeiro lançamento, este candidato pode ser visto de outras formas muito mais interesssantes: não só como o segundo candidato de toda a gente (o menos fracturante), mas também como exemplo do que qualquer português pode fazer na medida das suas possibilidades, e como exemplo do que qualquer português deve fazer no plano da ética e da moral, se necessário contra o poder e a ordem, com princípios e coragem em vez de subserviência e medo. Vistas assim as coisas, confesso que ainda não decidi não votar neste.


Fernando Pessoa. Será sempre uma hipótese, e não podia estar mais bem mandatado. O que me desassossega é a concorrência do Camões...


Infante D. Henrique. Este tem o problema de vir num pacote, na turma dos Descobrimentos. E aí a minha preferência vai para o D. João II.


Assim sendo, ficamos também conversados sobre o Vasco da Gama.



Camões. Mais um que faz um homem hesitar em abster-se. Candidato fortíssimo, temível, por quem sinto um fraquinho, indisfarçável.


E resta o Marquês de Pombal. Claro que, numa segunda volta contra o Salazar, nem haveria hesitação nem questão de engolir sapos. Mas, por mais esclarecido, déspota é déspota. E, neste caso, o mandatário não me parece que vá ajudar grande coisa à causa.

Destarte, e numa primeira abordagem, o Desinfeliz balança entre um Camões e uma abstenção, com um pouco de Mendes, de Pessoa e de D. João II pelo meio.

11.1.07

A Luz ao fundo do túnel no Médio Oriente!



Aviso desde já que vou abordar simultaneamente (ou seja, misturar) dois assuntos de enorme importância: o Sport Lisboa e Benfica e a situação no Médio Oriente. Porquê? Porque o segundo assunto não é tão pouco importante como isso e porque, desinfelizmente ou talvez não, a vida não é só futebol.

Vamos aos factos: o Sport Lisboa e Benfica fez mais uma vez aquilo que lhe cumpre e aquilo para que é talhado, que é vencer. Neste caso, o que o Benfica ganhou (para além de mais glória e mais um milhãozito ou outro) foi o Torneio do Dubai.

Os não-benfiquistas, e entre estes a sub-espécie dos anti-benfiquistas, poderão fazer de conta que nada disto tem importância. Os analistas e os responsáveis políticos, bem como uma boa parte da comunicação social considerada séria e de referência, podem, muito simplesmente, deixar que o seu habitual snobismo os impeça sequer de tomar conhecimento dos factos, só porque têm a ver com o desporto (e logo para mais o futebol, pois se fosse cricket, golfe ou ténis ainda se poderia dar o caso de alguma mente mais lúcida dar a devida atenção ao acontecimento e às suas possíveis repercussões).

Voltemos aos factos (maioritariamente recolhidos em fontes tão respeitáveis e insuspeitas quanto a Wikipédia e o Site Oficial do SLB). Para quem não saiba, o Dubai é um dos sete Emiratos Árabes Unidos, que ficam ali como quem bordeja o Golfo Pérsico e também o Golfo de Oman. Com o vento a favor, uma cuspidela ou mesmo um barril de petróleo lançado para norte pode facilmente atingir o Irão. Se, pelo contrário, o vento soprar para sul, o atingido será a Arábia Saudita. Por aqui se pode ver a importância geo-estratégica do Dubai e dos seus pares (importância tal que, noutros tempos, estes territórios eram denominados Estados Truciais, e não al-Imarat al-Arabiya al Muttahida, como sucede agora).


Continuando no domínio dos factos: cabendo ao Abu Dhabi o Califado desta união de Emiratos, o cargo de Primeiro-Ministro está entregue ao Emir do Dubai. E, pelos vistos, não podia estar em melhores mãos. O actual, Sua Alteza o Sheikh Mohammed bin Rashid Al Maktoum, para além de se poder orgulhar da bandeira do seu Dubai (que se descreve numa só palavra: encarnada e branca), teve em boa hora a ideia de apadrinhar e acolher um Torneio de Futebol. Convidou, para o efeito, um grande clube de um pequeno país (o Sport Lisboa e Benfica), um grande clube de um grande país (o Bayern de Munique), um clube médio de uma grande cidade (a Lázio de Roma), e um clube qualquer de um país mérdio (o Marselha).


Só a escolha deste elenco revela os dotes de estadista e a perícia diplomática que tanta falta fazem, de momento, entre os maiores actores do drama político mundial, e muito em especial nos palcos do Médio Oriente. Ao não convidar o Cosmos de Nova Iorque, o Manchester United, o Chelsea, o Maccabi de Tel-Aviv, o Al Ahly ou qualquer outro dali ao pé, este bom homem afastou de imediato qualquer possibilidade de aproveitamento político do evento. Mais: ao convocar apenas equipas europeias (europeias no sentido estrito, ou seja, do continente europeu, britânicos à parte), S.A. o Sheikh Mohammed bin Rashid Al Maktoum forçou a Europa a fazer aquilo que toda gente reclama, de Ana Drago a Pacheco Pereira, de Ana Gomes a Nuno Rogeiro, passando pelo próprio Mário Crespo: intervir na zona, ter uma voz na região, assumir o seu papel de jogador no terreno.

Ora, quem melhor que um Petit para intervir na zona sem receios? Que voz melhor que a de Beto para se fazer ouvir acima dos gritos da discórdia e dos rebentamentos de mísseis ou de bombistas suicidas? Quem melhor que Fernando Santos, engenheiro e profundamente católico, para levar a cabo essa obra aparentemente impossível que é construir a paz no Médio Oriente? Mais que Emir do Dubai, mais que Primeiro-Ministro dos Emiratos Árabes Unidos, S.A. o Sheikh Mohammed bin Rashid Al Maktoum é um visionário e um potencialíssimo Nobel da Paz.

Claro que, voltando aos factos, nada disto levaria a lado nenhum se ganhassem os franceses, ou os alemães, ou os italianos. Tanto em termos futebolísticos como em termos militares, está muito visto e podia ser sempre um pouco assustador para alguém. O que está certo é ser o grande clube do país pequeno (pequeno, mas fundador da NATO, note-se) a triunfar. Claro que, a vencer o Benfica (como seria de desejar, a bem da Humanidade), melhor seria que isso acontecesse de uma forma o mais pacífica possível. E assim foi. Dois jogos, dois empates a zero. Nada de dominações, nada de ataques gratuitos, nada de estratégias suicidas, nada de minimamente ofensivo fosse para quem fosse. Depois os penalties. Contra o Bayern, Moreto resolve a questão com duas defesas. No Pentágono, na Casa Branca, no Knesset, no nº 10 de Downing Street, em cada mesquita e na casa de cada benfiquista teme-se o pior. Como em qualquer situação delicada que se preze, há um momento em que parece que tudo está perdido. Mas, no momento decisivo, nos penalties da final, Moreira responde com três defendidos, o último dos quais a remate do guarda-redes contrário. E, para acabar com um toque de esperança no futuro, o golpe de misericórdia é dado por Pedro Correia.


“Foi pelos pés (e mãos) de dois produtos das suas escolas de formação que o Benfica terminou em estilo a sua participação no Torneio do Dubai”. As palavras, como as aspas indicam, não são minhas. Vieram daqui, com distanciamento e talvez mesmo com algum excesso de modéstia. O que aconteceu no Dubai foi uma grande lição para todos nós, a começar e a acabar nos benfiquistas, mas sem esquecer os sunitas, os xiitas, os curdos, os marines, a Mossad e o Ahmadinedjad. Pedro Correia, uma estreia absoluta, jogou de início, não revelou nervosismo, possui técnica, gosta de subir no flanco e sabe centrar. Marcou o penalti decisivo e foi devidamente recompensado com uma saraivada de caldunços como poucas vezes tenho visto, mesmo naquela zona do globo. Para dar só um exemplo do comportamento das nossas tropas, a atitude do próprio Marco Ferreira, que também não falhou a sua grande penalidade, é classificada como excelente em todos os relatórios que consultei. Quantos daqueles gabirús que andam lá metidos naquela confusão toda se podem gabar de uma folha de serviços destas?


Finalmente (é mesmo para acabar, prometo), só mais um facto: quem decidiu que era ele que ia assumir o risco do pontapé da marca da grande penalidade foi o miúdo, o Pedro Correia. Não foi o Mister, não foi o Engenheiro. Este facto encerra em si a maior das lições e o mais fecundo dos ensinamentos. Com menos interferências externas, e com mais confiança em jovens destemidos mas que saibam levar uns caldunços com fair-play, não há nada que não se resolva. Mesmo com o Irão em cima, a Arábia Saudita em baixo e o Moreto por perto.

7.1.07

Clubes do coração


Não posso dizer que sou do Atlético desde pequenino. Por este Desinfeliz abaixo, hei-de ter deixado escapar, aqui e ali, uma certa preferência pelo Sport Lisboa e Benfica. Mas há espaço no coração de um homem para mais que um clube. O Olhanense, por exemplo, é um excelente exemplo.

Pequeno será, ainda assim, o coração que não consiga albergar dentro de si a simpatia por mais que dois clubes. No meu músculo cardíaco cabem aqueles com os quais toda a gente simpatiza, como sejam a Académica, o Belenenses, o Vitória de Setúbal, o Real Madrid, o Vasco da Gama (o de Sines, não o do Rio de Janeiro), o Ajax de Amesterdão, mais recentemente o Chelsea... e o Atlético.

Vão perdoar-me os adeptos do Oriental e os de outros clubes geograficamente mais afastados, mas o facto é que a minha vida tem sido uma sucessão de aproximações ao Atlético Clube de Portugal. Começando pelo princípio, nasci lá. Não exactamente na Tapadinha, mas em Alcântara, no Hospital do Ultramar, hoje denominado Egas Moniz. Acabado o liceu e o 12º ano, foi lá, em Alcântara, que cumpri aquilo a que se convencionou chamar estudos superiores. Foi no ISCSP, pertíssimo do Hospital de origem e na direcção da Tapadinha. Foi na porta da Junta de Freguesia de Alcântara que vi afixado, com estes mesmos olhos que neste momento fitam o ecrã, o papel que atestava o meu destacamento para a Reserva Territorial das Forças Armadas. Foi na antiga FIL que vivi a primeira festa do Avante. Foi na mesmíssima FIL que vi a Dina, ao vivo. Foi a bordo de um autocarro da carreira 56, saído da mesmérrima FIL, que pela primeira vez me atirei à moça que é hoje a minha legítima esposa. Foi no/a Promotora que vi pela primeira vez a Laranja Mecânica (a do Kubrick, não a selecção holandesa). Muito recentemente, vivi lá durante três anos. Lá, em Alcântara, a escassas centenas de metros desse mítico campo da Tapadinha. Quantas vezes, em faltando o tabaco a horas avançadas, foi ao Bingo do Atlético que recorri para me abastecer. Aí fui sempre recebido com enorme simpatia. Sempre me deixaram entrar com o cão (não na sala de jogo, note-se, mas no hall de entrada, onde se situa a máquina de dispensação automática de maços de cigarros) e nunca me negaram os trocos necessários à operação. É ao restaurante do Mercado de Alcântara que me dirijo, de quando em vez, para comer um salmonete grelhado em condições, ou mesmo mais que um...

É por tudo isto que sinto que, afinal, até posso dizer que sou do Atlético desde pequenino.

2.1.07

Piratas das Caraíbas 3

Recomendo vivamente (pelo menos a versão original inglesa; não sei se já está traduzido). É o livro dos livros, mas não é Esse em que podereis estar a pensar. Passo a explicar. Como sempre acontece pelo Natal, há uma ou outra prenda que pede para ser trocada. Deu-se esse caso, lá em casa, com os Piratas das Caraíbas 2. Eu recebi um exemplar, a minha filha recebeu outro e nenhum dos dois insistiu em ter uma cópia só para si. Muito consensualmente, decidiu-se que um Piratas das Caraíbas 2 fazia falta mas dois Piratas das Caraíbas 2 era excessivo e desnecessário. Daí a ir à Fnac trocar um deles não foi mais que um passito. Aí, na Fnac, os Piratas das Caraíbas 2 transformaram-se em livros, um dos quais é aquele a que me refiro (já, já de seguida, prometo).

Chama-se Tolkien's Gown (& other stories of great authors and rare books) e, na contracapa, há um tal de David Lodge que resume perfeitamente a situação: "The perfect bedside book for bibliophiles". A parte do bedside book, do livro de cabeceira em sentido amplo, que inclui também uma certa portabilidade, posso confirmá-la por experiência própria. A colheita natalícia, em matéria de livros, não foi muito pródiga; donde, dei por mim na cama, durante uma ou duas noites, com o Estaline. Ora, o Estaline enquanto homem não passava de 1 metro e 65, mas o livro é um calhamaço de todo o tamanho, muito pouco apropriado à leitura horizontal. Este Tolkien's Gown é maneirinho e, para além do capítulo dedicado ao Tolkien e respectivo roupão (que foi o que me atraíu na estante, confesso), tem aquilo a que o autor (Rick Gegoski) chama biografias de livros de malta tão distinta, díspar e por vezes disparatada como Nabokov, Joyce, Hemingway, Eliot, Orwell, Greene, Rushdie, Oscar Wilde, Evelyn Waugh, Salinger, Kerouac e mesmo J. K. Rowling.

Os Piratas das Caraíbas 2, do que já vi, parecem-me um bocado abaixo do 1. Já quanto a este, o 3, só posso mesmo é voltar a recomendá-lo vivamente. O Estaline (livro) também não é mau de todo, mas pessoalmente prefiro lidar com ele no sofá ou na casa de banho.

Mais um Namarië a 2006 e mais um Alô a 2007


Para quem não esteja totalmente familiarizado com a escrita feänoriana (o Tengwar) e/ou com a língua (o Quenya), isto lê-se mais ou menos Ná alya i vinya loa e quer dizer qualquer coisa como Que o novo ano seja abençoado. Pareceu-me apropriado.

1.1.07

Mais um ano e mais ou menos uns nomes


2007 começa inegavelmente melhor que 2006. À escala mundial, começa com dois reputadíssimos filhos de puta a menos: o já mencionado Pinochet e Saddam. Claro que, a propósito dos curricula de cada um e dos respectivos finais, muito haverá a dizer. Mas não é aqui. Aqui passa-se à frente, assinalando apenas a evidência aritmética: são dois filhos de puta a menos. Claro que o mundo não vai melhorar por isso, mas podem ser sinais de uma conjugação astral mais positiva.


À escala tuga, há também duas baixas a registar com alegria no activo deste início de ano: Sampaio e Souto Moura. Filhos de puta não seriam (talvez até lhes faltasse uma costelazita disso para desempenharem melhor os respectivos papéis), mas que o país assim tem mais umas hipóteses, lá isso tem. A República passa a ter um Presidente e um Procurador-Geral e, querendo, pode também interpretar estas abençoadas saídas como sinais astrais positivos.


A propósito de nomes (e sem querer emular as recentemente referidas listas de Saramago), aqui fica uma lista patusca de nomes. É um 'best of' das primeiras páginas de um livro sobre um outro patusco de primeira: Estaline, nem mais nem menos. O livro (bastamente divulgado em tudo o que é jornal, revista ou programa de TV) é da autoria de um Simon Sebag Montefiore e tem como subtítulo A Corte do Czar Vermelho. Um pouco à maneira do que geralmente acontece na dramaturgia, antes de se ir à acção apresentam-se os cromos. Passada a indispensável introdução e os sempre educados agradecimentos, vêm As Personagens, subclassificadas em Família, Aliados, Generais, Inimigos e Ex-Aliados e "Engenheiros da Alma Humana" (sic). Aqui ficam alguns com nomes bem engraçados (para não serem sempre aquelas listas dos brasileiros). Quando não é o nome, há o pseudónimo, o nom de guerre (como o do próprio Estaline, que nasceu Iosebo Djugachvili, como toda a gente sabe) ou a simples alcunha.


Ora então cá vai, por ordem de entrada em cena: O Tio Lara (alcunha de Lavrenti Béria, chefe da secreta e responsável pela bomba nuclear), O Canalizador (Nikolai Bulganine, presidente da câmara de Moscovo e putativo herdeiro do Zé dos Bigodes), O Amora (Nikolai Iezhov, também conhecido como Kolya e também chefe do NKVD), Lazar Kaganovitch (isto era o nome real, as alcunhas eram O Lazar de Ferro e A Locomotiva), O Demónio Sombrio ou Tubarão (neste caso o nome no B.I. e no cartão do Partido era Lev Mekhlis), Akaki Mgeladze (fosse por dificuldade em pronunciar o nome deste tipo, fosse por o tipo ser abcaziano, ou simplesmente por ser mauzinho, Estaline chamava-lhe O Lobo), Viatcheslav Molotov (um homem com nome de pudim e de cocktail/arma de destruição-não-maciça poderia bem contentar-se com isso, mas não; Molotov era comummente chamado, pelo círculo mais chegado, O Cu-de-Pedra; sempre rigoroso, Molotov insistia que a alcunha correcta, que lhe tinha sido dada pelo próprio Lenine, era Cu-de-Ferro), O Cu de Estaline (este Cu agora é outro, é um Grigori Ordzhonikidze), Bronka Metalikova Poskrebicheva (de nome, não de alcunha).

Bom Ano a todos é o que se deseja (a todos vós, desinfelizes leitores, e não a todos os anormais acima mencionados, obviamente).

27.12.06

Filosofia de ponta-de-lança


O senhor chamava-se Dario José dos Santos, mas o futebol consagrou-o como Dadá Maravilha. Exímio no jogo aéreo, não era menos desenvolto no discurso. "Só tem três coisas que páram no ar: beija-flor, helicóptero e Dadá Maravilha" e "Não tem gol feio, feio é não fazer o gol" são apenas dois exemplos do pensamento Dadaísta. Maravilha.

20.12.06

Segunda mudança de imagética no mesmo dia! E mais grátis ainda!

O Desinfeliz continua a percorrer, penosamente, os passos da Ordem dos Templates. Isto pode ser que acabe por assentar mais ou menos, com um aspecto razoável. Até lá, fica assim. No mais importante, o conteúdo, é que não há que temer melhoras.

Novo visual! Completamente grátis!

É isto que se vê. Um bocado à pressa, e tal, mas foi só para assinalar a entrada na fase beta, que afinal parece que já não é beta. A rever proximamamente, diria eu. Ou não. Não dá para garantir.

18.12.06

Mártires por ordem divina (e alfabética)


Espero não estar a incorrer em delito de qualidade nenhuma, relacionado com direitos de autor ou coisa que o valha. Já tenho uns sujeitos das Finanças à perna, que me acusam de lhes estar a dever 59 euros, e não me dava jeito nenhum ter também a SPA, a Editorial Caminho e quiçá o próprio Partido Comunista no encalço. O que se passa é que vou transcrever aqui, já de seguida, um excerto de um romance do Saramago.

Vem esta transcrição a propósito do tema recorrente, quando se fala de Saramago, da pontuação, ou da falta dela. Eu, que sou apreciador e admirador confesso da escrita do homem (tanto do estilo como da maior parte do conteúdo), costumo dar como exemplo de puro e simples virtuosismo a maneira como, volta e meia, o sacrista consegue apresentar um mero rol de coisas, uma singela enumeração, uma mísera lista, sem nada destes adjectivos que eu estou para aqui a usar, sem mais recurso (para além do talento) que a vírgula.

Se isto não é escrever bem, o que será?

(Só para situar um pouco: este extracto é d'O Evangelho segundo Jesus Cristo. Mas o maroto faz isto noutros livros, com uma aparente facilidade, que chega a dar uma certa raiva... Mas adiante, à citação (que é longuita e que se faz tarde). Neste caso, o que se passa é uma conversa a três, entre Jesus, Deus e o Diabo. Após grande insistência de Jesus, que quer saber quanto sangue será derramado em seu nome, Deus começa por lhe dar uma ideia do que vai acontecer aos apóstolos e outros próximos. Depois, atendendo a que Jesus não desiste e insiste em querer saber tudo, Deus vai por aí fora. Claro que é o tipo de coisa que exaspera os barbudos das sub-espécies dos ayatollahs, sousa laras e outros neandertais que tais, mesmo sem lerem. Para os outros, se os há por aí, cá vai disto.)

"Conta, quero saber tudo. Deus suspirou e, no tom monocórdico de quem preferiu adormecer a piedade e a misericórdia, começou a ladainha, por ordem alfabética para evitar melindres de precedências, Adalberto de Praga, morto com um espontão de sete pontas, Adriano, morto à martelada sobre uma bigorna, Afra de Ausburgo, morta na fogueira, Agapito de Preneste, morto na fogueira, pendurado pelos pés, Agrícola de Bolonha, morto crucificado e espetado com cravos, Águeda de Sicília, morta com os seios cortados, Alfégio de Cantuária, morto a golpes de osso de boi, Anastácio de Salona, morto na forca e decapitado, Anastásia de Sírmio, morta na fogueira e com os seios cortados, Ansano de Sena, morto por arrancamento das vísceras, Antonino de Pamiers, morto por esquartejamento, António de Rivoli, morto à pedrada e queimado, Apolinário de Ravena, morto a golpes de maça, Apolónia de Alexandria, morta na fogueira depois de lhe arrancarem os dentes, Augusta de Treviso, morta por depitação e queimada, Aura de Óstia, morta por afogamento com uma mó ao pescoço, Áurea de Síria, morta por dessangramento, sentada numa cadeira forrada de cravos, Auta, morta à frechada, Babilas de Antioquia, morto por decapitação, Bárbara de Nicomedia, morta por decapitação, Barnabé de Chipre, morto por lapidação e queimado, Beatriz de Roma, morta por estrangulamento, Benigno de Dijon, morto à lançada, Blandina de Lião, morta a cornadas de um touro bravo, Brás de Sebaste, morto por cardas de ferro, Calisto, morto com uma mó ao pescoço, Cassiano de Ímola, morto pelos seus alunos com um estilete, Castulo, morto por enterramento em vida, Catarina de Alexandria, morta por decapitação, Cecília de Roma, morta por degolamento, Cipriano de Cartago, morto por decapitação, Ciro de Tarso, morto, ainda criança, por um juiz que lhe bateu com a cabeça nas escadas do tribunal, Claro de Nantes, morto por decapitação, Claro de Viena, morto por decapitação, Clemente, morto por afogamento com uma âncora ao pescoço, Crispim e Crispiniano de Soissons, mortos por decapitação, Cristina de Bolsano, morta por tudo quanto se possa fazer com mó, roda, tenazes, flechas e serpentes, Cucufate de Barcelona, morto por esventramento, chegando ao fim da letra C, Deus disse, Para diante é tudo igual, ou quase, são já poucas as variações possíveis, excepto as do pormenor, que, pelo refinamento, levariam muito tempo a explicar, fiquemo-nos por aqui,"

(isto era Saramago a escrever, era Deus a falar, mas José, o Alfredo, atreve-se a introduzir um parágrafo que não existia, consciente do risco de José, o Saramago, o juntar à lista, indiferente aos protestos do Alfredo, que não sabia até onde vai a capacidade de parágrafo de um blog)

"Continua, disse Jesus, e Deus continuou, abreviando no que podia, Donato de Arezzo, decapitado, Elífio de Rampillon, cortaram-lhe a calote craniana, Emérita, queimada, Emílio de Trevi, decapitado, Esmerano de Ratisbona, amarraram-no a uma escada e aí o mataram, Engrácia de Saragoça, decapitada, Erasmo de Gaeta, também chamado Telmo, esticado por um cabrestante, Escubículo, decapitado, Ésquilo da Suécia, lapidado, Estêvão, lapidado, Eufémia da Calcedónia, enterraram-lhe uma espada, Eulália de Mérida, decapitada, Eutrópio de Saintes, cabeça cortada por uma acha-de-armas, Fabião, espada e cardas de ferro, Fé de Agen, degolada, Felicidade e os Sete Filhos, cabeças cortadas à espada, Félix e seu irmão Adaucto, idem, Ferreolo de Besançon, decapitado, Fiel de Sigmaringen, maça eriçada de puas, Filomena, flechas e âncora, Firmin de Pamplona, decapitado, Flávia Domitília, idem, Fortunato de Évora, talvez idem, Frutuoso de Tarragona, queimado, Gaudêncio de França, decapitado, Gelásio, idem mais cardas de ferro, Gengoulph de Borgonha, corno, assassinado pelo amante da mulher, Gerardo Sagredo de Budapeste, lança, Gereão de Colónia, decapitado, Gervásio e Protásio, gémeos, idem, Godeliva de Ghistelles, estrangulada, Goretti Maria, idem, Grato de Aosta, decapitado, Hermenegildo, machado, Hierão, espada, Hipólito, arrastado por um cavalo, Inácio de Azevedo, morto pelos calvinistas, estes não são católicos, Inês de Roma, esventrada, Januário de Nápoles, decapitado depois de ter sido lançado às feras e atirado para dentro de um forno, Joana d'Arc, queimada viva, João de Brito, degolado, João Fisher, decapitado, João Nepomuceno de Praga, afogado,"

(e aqui entraria José, o Alfredo, por reincidência no acrescento de parágrafos, na Lista de Saramago)

"Juan de Prado, apunhalado na cabeça, Júlia de Córsega, cortaram-lhe os seios e depois crucificaram-na, Juliana de Nicomedia, decapitada, Justa e Rufina de Sevilha, uma na roda, outra estrangulada, Justina da Antioquia, queimada com pez a ferver e decapitada, Justo e Pastor, mas não este que aqui temos, de Alcalá de Henares, decapitados,"

(José, o Alfredo, interrompe novamente, desta feita só para esclarecer que o Pastor a quem se alude, "este que aqui temos", é o Diabo)

"Killian de Würzburg, decapitado, Léger d'Autun, idem depois de lhe arrancarem os olhos e a língua, Leocádia de Toledo, fraguada do alto de um rochedo, Liévin de Gand, arrancaram-lhe a língua e decapitaram-no, Longuinhos, decapitado, Lourenço, queimado numa grelha, Ludmila de Praga, estrangulada, Luzia de Siracusa, degolada depois de lhe arrancarem os olhos, Magino de Tarragona, decapitado com uma foice serrilhada, Mamede de Capadócia, estripado, Manuel, Sabel e Ismael, o Manuel com um cravo de ferro espetado em cada lado do peito e um cravo atravessando-lhe a cabeça de ouvido a ouvido, todos degolados, Margarida de Antioquia, tocha e pente de ferro, Mário da Pérsia, espada, amputação das mãos, Martinha de Roma, decapitada, os mártires de Marrocos, Berardo de Cobio, Pedro de Gemianino, Otão, Adjuto e Acúrsio, degolados, os do Japão, vinte e seis crucificados, alanceados e queimados, Maurício de Agaune, espada, Meinrad de Einsiedeln, maça, Menas de Alexandria, espada, Mercúrio da Capadócia, decapitado, Moro Tomás, idem, Nicásio de Reims, idem, Odília de Huy, flechas, Pafnúcio, crucificado, Paio, esquartejado, Pancrácio, decapitado, Pantaleão de Nicomedia, idem, Pátrocles de Troyes e de Soest, idem, Paulo de Tarso, a quem deverás a tua primeira Igreja, idem, Pedro de Rates, espada, Pedro de Verona, cutelo na cabeça e punhal no peito, Perpétua e Felicidade de Cartago, a Felicidade era escrava da Perpétua, escorneadas por uma vaca furiosa, Piat de Tournai, cortaram-lhe o crânio, Policarpo, apunhalado e queimado, Prisca de Roma, comida pelos leões, Processo e Martiniano, a mesma morte, julgo eu, Quintino, pregos na cabeça e outras partes, Quirino de Ruão, crânio cortado em cima, Quitéria de Coimbra, decapitada pelo próprio pai, um horror, Renaud de Dortmund, maço de pedreiro, Reine de Alise, gládio, Restituta de Nápoles, fogueira, Rolando, espada, Romão de Antioquia, língua arrancada, estrangulamento, ainda não estás farto, perguntou Deus a Jesus,"

(e que falta é que faz aqui um ponto de interrogação, pergunta José, o Alfredo, vá-se lá saber a quem)

"e Jesus respondeu, Essa pergunta devias fazê-la a ti próprio, continua, e Deus continuou, Sabiniano de Sens, degolado, Sabino de Assis, lapidado, Saturnino de Toulouse, arrastado por um touro, Sebastião, flechas, Segismundo rei dos Burgúndios, atirado a um poço, Segundo de Ascati, decapitado, Servácio de Tongres e de Maastricht, morto à tamancada, por impossível que pareça, Severo de Barcelona, cravo espetado na cabeça, Sidwel de Exeter, decapitado, Sinforiano de Autun, idem, Sisto, idem, Tarcísio, lapidado, Tecla de Icónio, amputada e queimada, Teodoro, fogueira, Tibúrcio, decapitado, Timóteo de Éfeso, lapidado, Tirso, serrado, Tomás Becket de Cantuária, espada cravada no crânio, Torcato e os Vinte e Sete, mortos pelo general Muça às portas de Guimarães, Tropez de Pisa, decapitado, Urbano, idem, Valéria de Limoges, idem, Valeriano, idem, Venâncio de Camerino, degolado, Vicente de Saragoça, mó e grelha com puas, Virgílio de Trento, outro morto por tamancos, Vital de Ravena, lança, Vítor, decapitado, Vítor de Marselha, degolado, Vitória de Roma, morta depois de ter a língua arrancada, Wilgeforte, ou Liberata, ou Eutrópia, virgem, barbuda, crucificada, e outros, outros, outros, idem, idem, idem, basta."

E o Evangelho continua, mas apesar da insistência de Jesus a lista fica por aqui. E em que é que isto melhoraria com pontos finais e parágrafos, pergunta José, o Alfredo. E prontos, era só isto.

11.12.06

Menos um filho da puta à face da Terra!


Eu sei que o Benfica empatou na Figueira, que o Olhanense empatou em Olhão, que já não vale a pena ir à Caparica porque a praia vem até nós, mas mas mas... se não fôssemos tão ensimesmados como somos teríamos saído à rua, como se fez em tantos outros sítios, a festejar este belo episódio de Mais Vale Tarde Que Nunca. Que a terra lhe seja leve como o chumbo, que o seu eterno descanso nunca deixe de ser sobressaltado pelos ecos dos gritos dos torturados, que a sua campa nunca deixe de ser devidamente enfeitada com escarros. A luta continua, este filho da puta já não.

20.11.06

Pláciábeu?

Ontem à noite, pela primeira vez na minha vida, fui mandado parar por um táxi (livre, por sinal). Só isso já seria interessante, porque as trocas de papéis têm enormes potencialidades. É a velha história do homem que mordeu o cão. Mas a história não fica por aqui.

Ia eu a passear o cão e, simultaneamente, a tentar digerir o conceito de 'bomitar runhenhos de cavelos' que tinha acabado de conhecer numa espécie de magazine da RTP, quando sou chamado por um táxi. Claro que um táxi que quer chamar uma pessoa não pode, simplesmente, esticar o braço e o dedo. O táxi (com a preciosa ajuda do taxista, naturalmente) tem de buzinar e imobilizar-se na via à espera que a pessoa passe. A pessoa, neste caso eu, passa e vê o taxista a fazer gestos que convidam à aproximação.


Apesar de todas as notícias sobre as mais estranhas formas de criminalidade, um homem é um homem e, ainda para mais quando acompanhado por um pequeno mas temível Cavalier King Charles Spaniel, um homem que é mandado parar por um táxi livre tem uma certa curiosidade e aproxima-se. Neste caso, aproxima-se de um bom e velho Mercedes, e aguarda. Não sabe o quê, mas aguarda. Ao fim de um par de segundos em que nada acontece, à excepção de uns gestos estranhos por parte do taxista, um homem apercebe-se que o Mercedes ainda não é dos tempos dos vidros eléctricos. Esta súbita revelação permite, por sua vez, decifrar os estranhos gestos do taxista: é para abrir a porta.

Feito isto, aberta a porta, estabelece-se finalmente a comunicação oral. Eu sou tipo para ter dito "boa noite", ou "diga", ou coisa que o valha. Ele, por sua vez, disse qualquer coisa que me soou como "pláciábeu", ou 'placiabéu', com entoação nitidamente interrogativa. Descartei instantaneamente a hipótese de o homem me estar a perguntar "percebeu?", por duas razões, qual delas a mais óbvia: a primeira é que o homem ainda não tinha dito ou perguntado nada que eu pudesse ter percebido; a segunda é que o homem tinha aquilo a que começarei por chamar um defeito na fala, enquanto não me surge uma definição mais aproximada.

Defeito na fala é o que tem a Judite de Sousa, por exemplo. É o que nos pode fazer ficar na dúvida: a mulher está a falar do fado ou de Faro? Mas habitualmente o contexto encarrega-se de nos esclarecer. Digamos que, se a Judite de Sousa fosse taxista, seria um pormenor que facilmente passaria despercebido. Só notamos um bocadinho mais porque a senhora exerce funções no audiovisual... mas esqueçamos a Judite de Sousa, já que a RTP não o faz, e voltemos ao taxista, que é o que interessa.

O homem emitia sons, com um certo à-vontade nas vogais que nas consoantes lhe escapava completamente. "Pláciabeu?", insistia ele, "Desculpe?", desculpava-me eu. Com mais esforço lá lhe saíu um 'Plácidábeu!' que me levou a um esperançado 'Palácio de Abreu?'. Mas não, não era isso. 'Plácido!Lácido! Ábeu! Pioto!". Agora sim. Posso dizer que arrisquei, mas na realidade já era quase pela certa: "Plácido de Abreu?" Que sim, com a cabeça. "Rua Plácido de Abreu?", já agora, não fosse ser alguma avenida ou praça ou praceta. Que sim, que sim, que sim, com a cabeça. E o taxista ainda acrescentou, para que não restassem dúvidas: "Pioto!" Por esta altura a comunicação já não oferecia grandes dificuldades. "A Rua Piloto Plácido de Abreu?", "Im! Im! Unhece? Õ é?". Infelizmente, como tive que confessar ao esperançado taxista, mudei-me há muito pouco tempo para aquela zona. Sei o nome da minha rua e o de mais duas ou três, entre as quais não figura o Piloto Plácido de Abreu.

Esclarecida a questão, na medida do possível, lá fechei a porta ao homem e o Mercedes lá seguiu em busca da Rua Piloto Plácido de Abreu. No resto do passeio a que o Baggins, o canídeo anteriormente mencionado, tem direito, fui reparando nas placas das ruas. O mais parecido que encontrei foi um Brito Pais, Aviador, mas Plácido de Abreu, Piloto, nada. Uma breve pesquisa na net confirmou-me a existência, naquelas bandas, de uma artéria assim denominada. Aquele taxista, se dispusesse de um simples GPS, não teria mais dificuldades para se orientar do que, digamos, a Judite de Sousa.

Como digo, a pesquisa na net foi breve. Mas mesmo assim permitiu-me apurar que o Plácido de Abreu em questão, sem chegar a ser propriamente um 25 de Abril ou um Francisco Sá Carneiro, dá nome a muitas ruas por esse Portugal afora (mais habitualmente referido como Capitão). Encontramo-lo também na página dos Asas de Portugal, ligado aos primórdios da acrobacia aérea em Portugal. Uma madavilha, esta net, como didia a Judite.

15.11.06

Diz que é uma espécie de perseguição


O PSD queixa-se de que o Governo anda numa de perseguição ao Alberto João. Claro que o papel do PSD é queixar-se do que o Governo vai fazendo. Claro que seria ainda melhor que se queixasse também do que o Governo não vai fazendo e sugerisse alternativas e iniciativas, preferencialmente credíveis e exequíveis, mas isso talvez já fosse exigir demasiado. Agora esta... É como se alguém, para dizer mal do Bush, o acusasse de andar a perseguir o Bin Laden.

10.11.06

Desinutilidades gráficas

Recentemente, vá-se lá saber porquê e para quê, a palavra logotipo foi contemplada com um acento. Supostamente, passou a escrever-se 'logótipo'. Não faço ideia se também se pretende que seja pronunciada assim. Nunca experimentei e não faço tenções. Quanto à forma gráfica, confesso que me vejo obrigado, em certas e determinadas circunstâncias, a adoptar a nova forma. Mas evito o mais que posso. Para coisas esdrúxulas e proparoxítonas já basta a vida.

O que se segue, a propósito ou a despropósito, são três potenciais logotipos. Três formas diferentes de assinar (José, o Alfredo, neste caso). Todas by Tolkien, como é bom de ver. Runas de hobbit,


runas dos anões de Moria


e Tengwar, um cursivo desenvolvido pelo próprio Fëanor himself (o criador dos Silmarils, para quem eventualmente não esteja a par de todos os detalhes).

7.11.06

Tuguíadas I, 92/94 (Inclui Euro84 e Mundial86, tudo grátis)


Segue-se um par de décadas vazadas
De resultado algum que se comente,
Nas quais as lusas turmas encavadas
Se viam sempre mais que certamente,
Com algumas façanhas desgarradas
Mas sobre fundo escuro, deprimente.
Deixa de ser das quinas mais amiga
A gente a quem o jogo mais castiga.

Lá chega finalmente a tão esperada,
A tal, sempre adiada, a tal proeza,
De se ver outra vez qualificada
Numa final a turma portuguesa.
Deu-se na Eurocopa disputada
Nos terrenos da gente que é gaulesa.
Teríamos, quiçá, feito mais dano
Não fora Platini, grande magano!

Um par de anos apenas decorrido,
E estamos instalados numa terra
Cujo nome jamais será esquecido:
Saltillo, esse sinónimo de guerra.
Tudo o que mal podia ter corrido,
Correu, e fez ficar então na berra
A nossa equipa, não porque ganhava,
Mas sim porque por tudo refilava.

(...)

Breve olhadela ao Olhanense


Nem tanto ao rubro nem tanto ao negro, é o que se pode e deve dizer sobre o momento actual do Olhanense, esse autêntico porta-estandarte do orgulho algarvio. Claro que o 11º lugar não é, fundamentalmente, um lugar de tranquilidade. Mas (entrando declarada e despudoradamente no domínio do trocadilho fácil e gratuito) já nos deixámos de Balelas e pode ser que o dedo de Álvaro Magalhães, mais cedo ou mais tarde, se faça sentir. No ano passado, por esta altura, tudo ia bem e no fim foi o que se viu. Talvez seja melhor começar malzinho e acabar benzoca. Há que ver a coisa pela positiva: está-se com o dobro dos pontos do potencial primo-divisionário Gil Vicente, com mais de metade dos pontos do primeiro e, no que verdadeiramente conta, à frente do Portimonense.

Limpar as teias de aranha ao Desinfeliz (tentativa nº1)

Quando a workosfera interfere demasiado com a blogosfera quem se lixa é o desinfeliz do mexilhão.

Se alguma coisa a minha vida profissional me ensinou é que o 'é impossível fazer tudo ao mesmo tempo' não passa de uma miserável desculpa, ou, na melhor das hipóteses, de uma análise muito superficial da realidade. Claro que é possível fazer tudo ao mesmo tempo. É até possível fazer tudo ao mesmo tempo e ir dormir a casa todos os dias, ou quase. O que não é possível é incluir um blog, por mais aparvalhado que seja, no 'tudo'. Este, por exemplo, já continha links mortos.

Comecei por aí, por uma actualização dos links, porque tinha mesmo que começar por algum lado. Deixar o Olhanense para depois foi apenas uma opção, como tantas outras.

Lá iremos.

11.10.06

Tuguíadas I, 90/91


Logo aos trinta a baliza portuguesa
Abana, quando Charlton arremata;
Aos oitenta, de novo sem defesa
O Bobby chuta e quase o jogo mata;
Oitenta e dois: penálti! Com destreza
Reduz Eusébio, puto da cubata;
Tarde de mais, morria a ousadia,
No fim era o bretão quem mais se ria.

Resumindo: a Rússia derrotando
No derradeiro jogo, bem jogado,
Eusébio, Torres, dois golos marcando,
Malofeiev também, pelo seu lado,
Oitenta e sete mil presenciando
O luso, enfim, c’o bronze medalhado.
Da final o relato já não faço,
Que não merece o tempo nem o espaço.

(...)

27.9.06

Tuguíadas I, 88/89 (Ei-los de volta, ó desinfelizes)


Passa assim Portugal mais adiante
Na mira dessa copa desejada,
Sempre com grande fé no centro-avante
Que traz a malta toda deslumbrada
Co’a arte do pontapé, do mais pujante.
E vem aquela história mal contada:
Antes de defrontar a Inglaterra
‘Inda há que se apanhar o pouca-terra;

Para quem joga em casa tudo canta
E que se lixe a brava tugaria.
Chegada a Wembley já não se agiganta
Mais a rubra camisa que vestia
Esse homem qu’inda hoje nos encanta:
Eusébio, tanta falta nos fazia,
A falta que nos faz sentir o gozo
Nestes tempos de jogo tão merdoso!

(...)

18.9.06

Graças a Deus, eu cá sou ateu


Não sei a quem é que roubei este título, mas vem muito a propósito para os dias que correm. Se eu bem percebi, o Papa (que antes de o ser era o cardeal responsável por esse baluarte da paz e da tolerância que é a Congregação para a Doutrina da Fé, colectivo de artistas anteriormente conhecido como Inquisição) citou não sei quem que, não sei bem quando, disse não sei o quê sobre Maomé e/ou o Islamismo.

Sendo o quem e o quando da citação quase totalmente irrelevantes para efeitos práticos (na medida em que o que conta é que foi o Papa que falou e fê-lo agora), resta o quê. Ou seja: tirando todo o contexto, esquecendo quem é que disse, porquê, quando, a que propósito, e mais essas paneleirices todas que não interessam a ninguém (à excepção do Pacheco Pereira e mais dois ou três viciados em interessar-se por coisas), o que é que foi dito? Que tudo o que Maomé trouxe de novo (à religião) era "mau e desumano, tal como a sua ordem para espalhar a fé através da espada".

Claro que a resposta do chamado Mundo Muçulmano não foi unânime (os porta-vozes da comunidade islâmica em Portugal, para não ir mais longe, primaram pela contenção e pelas boas maneiras), mas não faltou quem prontamente incendiasse ou fizesse explodir a igreja mais próxima.

Pelo seu lado, a Al-Qaeda, por via de um tal Conselho Shura Mujahedin que opera (e de que maneira) no Iraque, fez saber que pretende “destruir a cruz e abrir as goelas daqueles que acreditam na cruz”. Dirigindo-se directamente ao Papa e a Roma, diz o seguinte: “Seus infiéis e déspotas: nós vamos prosseguir a nossa jihad e não iremos parar até Deus nos permitir cortar os vossos pescoços e erguer e fazer ondular a bandeira do monoteísmo quando a lei de Deus for estabelecida e governar todos os povos e nações”. O remate do comunicado, não menos edificante, dirige-se a todo o mundo não-muçulmano e reza, muito simplesmente: “conversão ao Islão ou morte pela espada”. Para rebater o argumento de que o Islão é violento, não é fácil fazer melhor.

Como dizia o outro (quiçá o mesmo a quem roubei o título) vou ali e já venho.

7.9.06

A velha história dos 2 pesos e das 2 medidas


Claro que a história é velha como o mundo. É ver o tratamento diferenciado que Deus providenciou para o Adão e para a Eva, para o Abel e para o Caim, para o Jacob e para o Esaú, para o José e para os seus irmãos (para já não falar da desgraçada da irmã) e por aí fora. Mas nem é preciso ir tão longe. Basta ir a Inglaterra, comer onças, beber pintas e no fim pagar em libras. Muitas libras, eu digo. Justos céus. Mas adiante.

Um dos exemplos mais flagrantes é a total discrepância na designação de seres, grupos, entidades ou instituições, no contexto das notícias e mesmo das aparentemente mais isentas. Exemplo: a propósito do chamado conflito do Médio Oriente, surgem sempre referenciados "o povo palestiniano" ou "os povos árabes", por um lado, e do outro nunca aparece "o povo israelita". A julgar pela esmagadora maioria das notícias, o conflito é entre Israel, um estado sem povo, uma entidade quase abstracta, e os árabes/os muçulmanos/os palestinianos, uma confusão desordenada de seres humanos sem governo(s) e sem governante(s).

O curioso é que isto não acontece (só) no Avante! ou em folhetos do Hamas. Isto acontece da mesma maneira no Diário de Notícias, no Público, no Expresso, na RTP, na SIC, na TVI, em toda a parte. É sem querer. Não é por mal. Mas lá que é revelador, é.

4.9.06

O Desinfeliz ainda mexe

Quem se acabou foi O Independente. E as putas das férias também.

17.8.06

Das profundas das gavetas para a veia poética

Mais para a veia do que para a poética, mas cá vai. Nem que seja para o Desinfeliz não se desactivar completamente. Isto é coisa para ter alguns oito ou dez anos (como se isto desculpasse fosse o que fosse). Se não quer perder o seu tempo com futilidades fuja para o amigo Designorado, por exemplo. Se vai continuar, console-se com a ideia de que a versalhada é curta. E não esqueça que, haja o que houver, audaces fortuna juvat.


Ainda nem bem haviam entrado,
já todos lá dentro se haviam calado.
Tal era o respeito por eles imposto
que alguns dos coitados taparam o rosto,
e quando das armas eles sacaram
alguns dois ou três até se cagaram.

Fez-se um silêncio, pesado mas breve,
pois não tardou a chegar o Mão-Leve,
deles amigo e fiel companheiro,
de todos sem dúvida o mais certeiro.
A mão ao coldre mui lesto levou
e eis o que de pronto falou:

"Isto é um assalto (não sei se repito
o que meus amigos já teriam dito).
Tarde cheguei, desculpem confrades,
e dêem cá tudo, vocês, seus cobardes".
Dizer quase escusado será
que aquela colheita foi um maná:

Relógios, dinheiro, botas, chapéus,
e até umas ceroulas, valha-me Deus.
Mão-Leve e os outros tudo levaram
(a conta, claro, não a pagaram).
E rumo a oeste lá vão cavalgando
Enquanto lá dentro se ficam borrando.

2.8.06

Marxismo no seu melhor


Outside of a dog, a book is a man's best friend. Inside of a dog, it's too dark to read.

Só comparável com:

One morning I shot an elephant in my pajamas. How he got into my pajamas I'll never know.





Palavras de Groucho Marx (who else?)

Foi você que pediu ao Tio Adolfo para ser Führer?


Era 1934 e estava-se a 2 de Agosto. O vetusto marechal von Hindenburg, presidente do Reich, acabara de bater as botas pela última vez. Profundamente abalado, inconsolável mesmo, e à falta de alguém mais que se lembrasse disso, o Tio Adolfo decidiu auto-nomear-se presidente, não recuando perante o incómodo de acumular o cargo com a chancelaria do dito Reich, que já ocupava na altura. E assim os alemães puderam passar a dormir descansados com a ideia de que "temos Führer". E pronto. Só não se pode é dizer que viveram felizes para sempre e que a história acabou aí.

1.8.06

Foi você que pediu uma guerra mundial?


Eu sou dos que acham que já estamos na terceira, desde o 11 de Setembro. Não sei se nos livros de História se falará das batalhas do Afeganistão, do Iraque e do Líbano da mesma forma que se fala das batalhas do Somme, de Estalinegrado ou de El-Alamein, mas que las hay las hay. Esta, a III, é a primeira verdadeiramente mundial. A II já foi intercontinental, mas a I foi nitidamente um assunto europeu. Seja como for, foi a primeira a ascender ao título e isso merece algum reconhecimento. O 1 de Agosto de 1914 é uma data possível, entre várias outras, para marcar o princípio do evento. Marca o início da mobilização dos franceses. Por que será que os frogs, pouco ou nada fazendo para determinar o fim de qualquer guerra que se veja, aparecem sempre em lugar de destaque nos primeiros desentendimentos?

Foi você que pediu um jipe?


Pois não pediria assim, por esse nome, se não fosse o original, o primeirinho, o de 1941. Senhoras e senhores, meninos e meninas, cantemos os parabéns ao Jeep, "the Army's most intriguing new gadget... a tiny truck which can do practically everything."

28.7.06

Hezbollinedjad diz de sua justiça


Este moço, observador imparcial, isento e arguto como poucos, garante que Israel carregou no botão de auto-destruição com a sua recente agressão a esse farol da paz que é o Líbano. Do resumo da sua fina análise, fiquei com a sensação de que o cavalheiro, indomável arauto da fraternidade entre os povos, está algo ressentido com a situação. Percebe-se-lhe uma certa frustração, na medida em que esse desiderato — a destruição de Israel — seria um direito inalienável de alguém que não Israel (a humanidade em geral e o Hezbollah em particular, deduz-se). Calculo que seja aquele tipo de raiva que dá no carcereiro que chega à cela e vê que o prisioneiro se matou: "Mataste-te, cabrão! Quem te matava era eu!".

Com estas e outras, este cromo ameaça tornar-se cliente habitual do Desinfeliz.

19.7.06

Vantagens de Mudar de Casa


Uma das grandes vantagens de mudar de casa é mudar de piaçabas. O piaçaba é aquele objecto que se pensa sempre que está na altura de mudar e que, por razões que ainda me escapam, arranja sempre maneira de desaparecer de circulação numa mudança. Nada como comprar outro ou outros (um por casa de banho é a dose ideal) e usufruir plenamente das restantes vantagens de mudar de casa.

Outra grande vantagem de mudar de casa é poder apreciar, de preferência durante um número de dias não muito elevado, as vantagens do duche frio. Por razões que também me escapam, parece haver um consenso generalizado sobre a impossibilidade prática de haver gás a funcionar nas casas para onde se vai no dia em que se vai para lá. Não sei se tem força de lei, mas que vigora vigora. Dentro das vantagens do duche frio, permito-me destacar as seguintes:

a) acabam-se aqueles momentos desagradáveis e politicamente incorrectos de deixar a água correr enquanto aquece;

b) as cordas vocais são exercitadas em toda a sua extensão e intenção;

c) obtêm-se, ainda que por escasso tempo, efeitos contraceptivos assinaláveis, na medida em que o duche frio refresca as partes onde qualquer cerveja já chega quente;

d) tem-se assunto para postar.

18.7.06

Desinfeliz Mente de Volta


Acabaram-se as férias. Como a maior parte das verdades, não tem interesse nenhum.

Durante as finadas férias, duas questões arranjaram maneira de penetrar a couraça da minha indiferença, para não lhe chamar estupidez.

Primeira questão: o número 1 é primo ou não é primo?

Segunda questão: porque é que toda a gente tem a mania de dizer que os palitos estragam os dentes, quando é público e notório que os dentes estragam os palitos?

Agora, se tivesse vagar e arte para isso, inventava aqui uma mentira para rematar isto a fazer pendant com o título. Mas só o facto de estar de volta já me parece suficientemente longe da realidade tal como eu a entendo...

15.7.06

Sono italiano desde piccolino


Com algumas desculpas pelo atraso, no sentido de hiato ou lapso de tempo transcorrido desde a última intervenção na blogosfera, derivado a férias, aqui vai a inesperada mas sentida palavra de apreço pelo tetra desses grandes doidos que são os romanos: bravissimo! Contra os gauleses marcar marcar, e nos penáltis que é onde dói mais. Contra os crânios do futebol, rapados ou não, entre os quais o ilustre Zizou e demais gauleses e outros, aqui fica um enorme Ciao bambini! E é sempre bom saber que há um grande homem feliz: Mi-Mi-Mi-Miccoli!

28.6.06

Ustédes ou Avecs, era a questão


E não era uma questão completamente despicienda, atendendo a que há probabilidades, por marginais que sejam, de ainda levarmos com alguém dessa gente. E quando digo marginais é porque me lembro, vá-se lá saber porquê, do factor A.

O factor A, de arbitragem, pode manifestar-se sob formas tão diversas como Ivanov, Poll ou Batta. Há também que juntar o factor B, de Brasil, que nos diz que Kaká, Ronaldinho, Ronaldão, Juninho, Adrião, etceterazinho e etceterazão até não jogam mal de todo. Destacando pelo picotado e unindo a parte A com a parte B, o resultado praticamente certo e seguro é que o Brasil está, de facto, nas meias-finais. E, consequentemente, na final.

Razão tem o treinador do Gana, quando sugere que o árbitro vista a camisolita amarela. Nos jogos em que o Brasil está a jogar de amarelo, note-se, e não quando joga Portugal com a Holanda ou coisa que o valha. Quem já jogou futebol, como eu ou o Octávio Machado, por exemplo, sabe de que é que eu estou a falar. Mas eu explico, ou pelo menos tento. Cá vou eu.

Lá dentro do campo, no meio da confusão, há muitas jogadas em que a visão periférica ou a velocidade do lance (neste último caso, obviamente sem a participação de Ronaldo) faz com que um homem tenha que reagir ou optar quase por instinto, com base na cor de uma camisola que se vê fugazmente, que se vislumbra, mais do que se vê. Ora, numa situação dessas, o cérebro não tem tempo para processar informação demasiado complexa e entre a decisão e o gesto também não há tempo a perder. É aqui que o factor C, a cor da camisola, tem o seu efeito decisivo.

Exemplo: um homem prepara-se para receber a bola à entrada do meio campo contrário. Este homem joga por Portugal. Para não complicar desnecessariamente o exemplo, vamos supor que não se trata do Deco, pois o jogo é contra o Brasil e o exemplo já nos vai trazer confusão que basta. Para não ferir susceptibilidades, e porque para o nosso exemplo precisamos de um homem com visão de jogo e capaz de colocar a bola onde o pretende fazer, suponhamos que um homem é o Rui Costa.

Temos, portanto, Rui Costa na iminência de receber a bola à entrada do meio campo do Brasil. Mesmo antes do contacto com a bola, um homem olha em redor e pensa no que é que vai fazer com a dita bola, assim ela chegue a um homem. Por mera casualidade, Pauleta não está fora de jogo, e um homem apercebe-se disso. A bola chega a um homem. Um homem domina a bola, com aquela elegância só ao alcance de um Rui Costa, e endossa-a com a necessária dose de açúcar para o terreno livre à frente de Pauleta. Este faz o que tem a fazer, que é dar dois ou três passitos de corrida rumo a Dida e pregar com ela lá dentro. É o delírio entre aqueles sete ou oito mil tugas que assistem nas bancadas, até porque o jogo estava empatado e já não falta muito tempo para acabar.

O jogo estava e estará empatado por mais uns minutos, porque, como os espectadores lá em casa puderam ver, o lance foi prontamente anulado por fora de jogo. Acresce que, ao não ter suspendido o movimento de a meter lá para dentro nas quatro décimas de segundo posteriores ao apito do árbitro, Pauleta incorreu em sanção disciplinar, ou seja amarelo, e Portugal fica a jogar com 9 nos últimos minutos, porque o Pauleta já tinha amarelo e o Costinha ou o Petit já tinham sido devidamente expulsos na primeira jogada da segunda parte.

Como é que isto pôde acontecer a um homem, e logo a um homem chamado Rui Costa? Parecendo complicado, não é nada simples: naquela fracção de segundo em que analisou a situação, Rui Costa viu claramente que Juan e Lúcio estavam entre Pauleta e Dida. Não muito, mas estavam. Também viu Roberto Carlos e Cafú praticamente colados à linha de fundo, um de cada lado, mas optou, e bem, por não contar com eles para efeitos de fora de jogo, pois Roberto Carlos estava a apertar os atacadores e Cafú a vomitar ou a expectorar violentamente, ou seja, nem um nem outro têm participação activa na jogada. Claro que a lei do fora de jogo prevê essa excepção para quem ataca, e não para quem era suposto defender, mas um homem não pode esperar que uma equipa de arbitragem se vá lembrar de todas essas subtilezas, ao fim de mais de oitenta minutos de jogo, num lance que decorre no meio campo do Brasil. Naquela fracção de segundo, Rui Costa não se esqueceu de olhar para o bandeirinha e viu que este estava em linha com Juan e Lúcio, ou seja, em excelente posição para ver que Pauleta está em jogo. Logo, com base nestes pressupostos, um homem, Rui Costa, lança Pauleta. Um homem vê Pauleta embalar e metê-la lá dentro, vai direito a ele, no intuito de comemorar o golo, e não pode evitar algum desconcerto perante a visão de um árbitro com rosto perfeitamente impassível a mostrar o amarelo e logo de seguida o encarnado ao ciclone dos Açores.

O que aconteceu foi que o cérebro de um homem, mesmo sendo esse homem um senhor chamado Rui Costa, não conseguiu escapar à acção do factor C. Ao ver um tipo com equipamento Adidas preto e com uma bandeirola na mão, naquela fracção de segundo e entre tantas outras coisas que há para ver, o cérebro de um homem não consegue deixar de o classificar numa categoria diferente da dos tipos de amarelo da Nike. E assim se cai, como um patinho, na armadilha do fora de jogo.

Ao propor que o pessoal do apito e da bandeirinha envergue a camisola dos jogadores de campo da equipa pela qual efectivamente alinham, o treinador do Gana, na sua ingenuidade africana, não faz mais do que apelar ao bom senso e à verdade desportiva. No exemplo em apreço, não ficaria aquela sensação desagradável de mais um cambalacho a favor do Brasil, e sim algo de muito mais positivo: o justo valor de um terceiro central com a perfeita noção da colocação, capaz de jogar em linha com Juan e Lúcio, mesmo com uma bandeirinha na mão (o que deve complicar um bocadinho os movimentos). Claro está que, num jogo de amigos, não há cá essas paneleirices de fiscais de linha. Os foras de jogo são assinalados pelos defesas, levantando o braço, que foi o que fez o terceiro central, também referenciado como árbitro assistente.

Como diria o outro, au revoir.

27.6.06

Cambalaccio (do Grosso)


Era um italiano, um australiano e um espanhol. O italiano, grosso, tropeça no australiano, vai o espanhol e marca penálti. Parece anedota. E é. Mas uma forra em râguebi havia de ter a sua piada.

24.6.06

Argentália 2, Mezcaléxico 1


Se a vida, que é a vida, é tantas vezes injusta, por que raios havia o futebol de ser justo? E há outra coisa: que putapé, señor Maxi Rodriguez!

18.6.06

Também quero que este se foda


Não há como o desporto para despertar em nós os mais nobres sentimentos. Fair play e essa coisa toda. No meu caso, uma vitória como a de hoje ganha ainda mais sabor quando lhe consigo associar a derrota de alguém em particular. Espero muito sinceramente que o inenarrável senhor Ahmadinejad tenha depositado algumas esperanças numa hipotética carreira da selecção iraniana e, como tal, tenha sentido hoje como sua uma bela derrota. Para cerejar o bolo em beleza, só falta mesmo que Angola acabe de humilhar o Irão e, com uma ajudinha da nossa parte, faça o seu brilharete. Não que o Eduardo dos Santos mereça muito mais que o Ahmadinejad, mas a racionalidade que (lá está) se foda.

7.6.06

Eu quero que o Scolari se foda



Eu podia não ter escrito isto, e ainda por cima logo no título. Mas também podia fazê-lo. Fi-lo. Porquê? Por ser verdade, claro, mas não só. Um homem não se põe a escrever as verdades todas que lhe ocorrem. Fi-lo, antes do mais, por uma questão de princípio e por querer assinalar uma efeméride. O princípio é simplicíssimo: chama-se liberdade de expressão e é sempre das mais fáceis de pôr em causa e das mais fáceis de deixar que sejam postas em causa. A efeméride, mal e porcamente resumida, é o que se segue:

Em 1971, a 7 de Junho, o Supremo dos EUA considerou que a Primeira Emenda abrangia a caralhada por escrito (vulgar writing). Três anos antes, um tal de Paul Cohen tinha sido acusado de e condenado por entrar numa sala de audiências com um blusão em que se lia "Fuck the Draft". Ao entrar na sala, o Cohen tinha tomado a precaução de despir o blusão e dobrá-lo sobre o braço. Mas um zeloso agente da autoridade, que o tinha visto no exterior do edifício, entregou ao juiz um bilhetinho em que lhe sugeria que Cohen fosse chamado à pedra por desrespeito pelo tribunal. O juiz ignorou o bilhetinho, o polícia prendeu Cohen à saída da sala, o Cohen foi julgado, alegou que o blusão era a forma de dar a conhecer ao público a profundidade dos seus sentimentos sobre o recrutamento para o Vietname, foi condenado a 30 dias de prisão, recorreu para o Supremo e ganhou à tangente, por 5-4.

Gosto da moral desta história. Faz-me acreditar que, por cada quatro filhos da puta do calibre do polícia, do Scolari, do Madaíl e daquele cabrão que me ocorre e que nem sequer merece ser tratado pelo nome, há cinco pessoas normais neste mundo.

Não, o Desinfeliz não acabou de vez. À laia de prova de vida, ou de prova de esforço, eis Tuguíadas I, 87


Vem depois a contenda mais famosa,
O tal jogo em que entrámos enfardando
Três secos da turminha mais merdosa,
Mas que quase nos ia eliminando:
Foi por pouco que não levámos tosa,
Não fora o nosso Eusébio, que marcando
O primeiro e o segundo, ‘inda o terceiro
E o quarto, só deixando o derradeiro.

(...)