"Pode ser que sim. Pode ser que não. Não posso garantir." - in Astérix, A Volta à Gália

3.4.08

Us dinoçaurus e us carrus


Anda por aí um outdoor (tecnicamente o outdoor está parado, nós é que andamos, a pé ou de carro, e passamos por ele, mas dá mais jeito dizer que anda por aí um outdoor) da Smart, com um dinossauro, uma boa ideia, um headline e um erro no headline.

Não é nada meu costume vir para a praça pública, ou mesmo para este beco privado, falar de publicidade. E muito menos para apontar defeitos. Questão de ética? Questão de ser otário? Não sei nem me interessa por aí além. Seja lá pelo que for, não costumo. E quando dou por mim a fazê-lo, seja lá pelo que for, é sempre em casos em que o erro é o menos. Como este, do dinossauro. Repito: tem uma boa ideia, o que para mim é o melhor que se pode dizer da publicidade. E acrescento: o erro que tem no headline é de somenos. Mas está lá. Só o aponto porque é um erro que se está a generalizar de forma impressionante. E o erro é:

Não admira que se tenham extinto.


O correcto seria:

Não admira que se tenham extinguido.

Outra possibilidade seria:

Não admira que estejam extintos.

Este erro, que como digo se está a generalizar à brava, afecta vários outros verbos. Não sei porquê, a consciência colectiva dos portugueses entrou numa fase de negação de certas formas verbais. Estou em crer que na origem desta perturbação está o eclipse da diferença entre ser, ter e estar, verbos que têm a irritante mania de se meter com os outros.

Nos meus tempos de miúdo, dizia-se a propósito ou despropósito sabe-se lá do quê: morto, morrido, matado. Ficava muito mal, e ainda hoje fica, dizer que Fulano está morrido. É possível que exista na canalha, nas suas primeiras fases de exploração da língua portuguesa, uma propensão para julgar que a vida é simples e que a conjugação do verbo morrer, que é sem dúvida um dos mais interessantes para qualquer criança minimamente saudável, segue as mesmas linhas de outros verbos mais usados lá em casa, mas certamente muito menos apelativos, como dormir, cozer, coser, lavar, ler, estudar, agradecer...

Ora o morrer, tal como o extinguir e outros que agora não vêm ao caso, é daquela raça de verbos mais retorcidinhos, mais erráticos, mais dependentes das competências do falante do que a maior parte dos portugueses parece actualmente disposta a admitir no seu quotidiano. São verbos camaleónicos, ou empáticos, que se moldam à presença nas suas imediações de um dos tais outros verbos que a maior parte dos portugueses, por sua vontade, fundiria num só: o ser, o ter e o estar (os verbos-de-bengala, a que também há quem chame auxiliares).

A ver se a gente se entende, com uns quantos exemplos. Por uma questão de comodidade, para não lhe chamar preguiça mental, vamos usar o verbo morrer e o substantivo dinossauro. Estes exemplos terão uma grande desvantagem: o verbo morrer nem sempre dá conta do serviço, por vezes temos de recorrer ao matar. Se não fosse assim não haveria literatura policial nem CSI, e tanto uma como outro existem, por isso é mesmo assim. Note-se também que essa confusão entre morrer e matar, que parece impossível quando vemos a coisa assim, no infinitivo ou lá o que é isto, facilmente se instala quando se lida com os passados pretéritos mais que imperfeitos e essas porras todas.

Por outro lado, os exemplos que vou dar têm a grande vantagem de todos os dinossauros já terem morrido... e pronto, eis que sem querer já dei um exemplo. Desculpem. Queria eu dizer, antes de dar qualquer exemplo, que os exemplos que vou dar têm a grande vantagem de todos os dinossauros já estarem mortos... Ooops, lá escapou outro. Malditos exemplos! Se soubesse que isto ia ser assim com os dinossauros tinha-os matado a todos antes de eles terem morrido para ter a certeza que eles ficavam mesmo mortos! Acabarem-se os exemplos! Tou farto!

Tanto quanto me é dado perceber, o verbo extinguir é ainda mais simples (até porque é só um, não há cá as confusões do morrer e do matar, extingue-se ou é-se extinguido e pronto, está extinto, fica extinto e não se fala mais nisso): os dodos, para não estarmos sempre a malhar nos desgraçados dos dinossauros, estão extintos e presume-se que continuarão extintos porque foram distinguidos com a honra de terem sido uma das primeiras espécies a ser alvo de caça pelo Homo Aparentemente Sapiens até à extinção, ou seja, estão extintos porque foram extinguidos.

Já quanto aos dinossauros, embora se apliquem as mesmas regras gramaticais, a história é completamente diferente: os dinossauros estão extintos, não porque foram extinguidos pelo homem, mas porque tudo indica que levaram com um extintor gigante de origem alienígena na tola.

1.4.08

O Estado militantemente português


D. Jorge Ortiga, que surpreendeu todos os analistas e corretores de apostas ao ser reeleito para novo mandato como presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, diz que o Estado português não pode ser militantemente ateu.

Claro que um prelado, ainda para mais bispo e presidente reeleito da Conferência Episcopal, tem todo o direito, para já não dizer o dever, de viver num mundo outro, de prestar mais atenção às coisas do céu do que às de cá da terra. Mas se é com o Estado português que D. Jorge vai ter de gramar para ter a Concordata devidamente regulamentada, talvez não fosse mau que D. Jorge conhecesse o bicho que tem pela frente.

Se a cidade de Havana, disposta a dar a uma praça na zona histórica o nome de Camões, espera por um busto do poeta prometido há nove anos pelo Instituto Camões; se o meu sogro esperou trinta e pico anos para ter a estação de metro que estava prometida quando comprou a sua casa no Lumiar; se os julgamentos que restam do Apito Dourado ainda mal começaram e do da Casa Pia já ninguém sequer se lembra; se ainda há indemnizações e pagamentos por conta da Reforma Agrária; se os pais do miúdo que morreu electrocutado por um semáforo esperaram anos e anos a fio que o Estado português lhes dissesse que tivessem paciência; se a Joana e a Maddie não aparecem...

Se isto tudo é assim, quando não é pior, por que cargas de água é que o Estado português havia de se despachar a tratar da Concordata? D. Jorge Ortiga engana-se. O Estado português não é ateu, é zen.

31.3.08

O pescado original

Lamento informar todos os que ainda vão comprando a célebre ideia de que Israel é o grande responsável pela tragédia dos palestinianos, que por sua vez é a mãe de toda a instabilidade no Médio Oriente: esse peixe está estragado. E não é por ser um peixe antigo. Já estava estragado no dia em que começou a ser vendido. Segue-se uma pequena lista de citações e outras declarações, todas de fontes insuspeitas de sionismo ou colaboracionismo, que atestam a manifesta falta de qualidade desse pescado.
"O facto de que estes refugiados existem é consequência directa do acto dos estados Árabes, de se oporem à partição e ao estado Judaico. Os estados Árabes acordaram unanimemente nesta política e têm de partilhar a solução do problema."
Emile Ghoury, secretário do Alto Comité Palestiniano-Árabe, em entrevista ao Beirut Telegraph, 6/9/1948

"O factor mais forte (na debandada dos Palestinianos) foram os anúncios largamente difundidos pelo Alto Comando Palestiniano-Árabe, apelando à fuga de todos os árabes de Haifa... Era claramente referido que os árabes que permanecessem em Haifa e aceitassem a protecção dos judeus seriam considerados renegados."
London Economist, 2/10/1948

"Os civis árabes entraram em pânico e fugiram miseravelmente. Em muitos casos as localidades foram abandonadas antes de serem ameaçadas pelo progresso da guerra."
General John Glubb "Pasha" (o retratado comandante da Legião Árabe), The London Daily Mail, 12/8/1948

"Os estados Árabes que encorajaram os palestinianos a deixar temporariamente as suas casas, para deixarem o terreno livre à invasão dos exércitos árabes, não cumpriram a sua promessa de ajudar estes refugiados."
Diário jordano Falastin, 19/2/1949

"O dia 15 de Maio de 1948 chegou... Nesse dia o mufti de Jerusalém apelou aos árabes da Palestina para que deixassem o território, porque os exércitos árabes estavam prestes a chegar e a lutar por eles."
Diário egípcio Akhbar el Yom, 12/10/1963

"O êxodo árabe não foi causado pela própria guerra, mas sim pelos exageros propagados pelos líderes árabes com o objectivo de incitar à luta contra os judeus. Os responsáveis pela fuga e pela queda das nossas terras são os nossos líderes, por terem disseminado boatos que exageravam os crimes dos judeus e lhes atribuíam atrocidades, com o intuito de inflamar os árabes. Ao espalhar rumores de atrocidades dos judeus, matanças de mulheres e crianças, etc., instilaram o medo e o terror nos corações dos árabes da Palestina, a ponto de estes fugirem e abandonarem as suas casas e propriedades ao inimigo."

Diário jordano Al Urdun, 9/4/1953

"Os governos árabes disseram-nos: saiam para nós entrarmos. Então nós saímos, mas eles não entraram."
Refugiado citado pelo Al Difaa, Jordânia, 6/9/1954

"Desde 1948, somos nós que temos exigido o regresso dos refugiados, ao mesmo tempo que fomos nós que os fizemos sair. Fizemos abater o desastre sobre um milhão de refugiados árabes, ao convidá-los e pressioná-los para sairem (da Palestina). Acostumámo-los a mendigar e contribuímos para a descida dos seus níveis sociais e morais. Depois explorámo-los na execução de crimes de assassínio, fogo posto e apedrejamentos, tudo ao serviço de interesses políticos."

Khaled el-Azm, primeiro-ministro sírio após a guerra de 1948, em memórias publicadas em 1973

"Os estados Árabes conseguiram dispersar o povo palestiniano e destruir a sua unidade. Não o reconheceram como um único povo até os outros estados do mundo o terem feito, e isto é lamentável."

Abu Mazen (Mahmoud Abbas), no jornal oficial da OLP, Beirute, Março de 1976

"Os exércitos árabes entraram na Palestina para proteger os palestinianos da tirania sionista, mas em vez disso abandonaram-nos, forçaram-nos a emigrar e a deixar a sua terra natal, impuseram-lhes um bloqueio político e ideológico e meteram-nos em prisões parecidas com os ghettos em que os judeus costumavam viver na Europa oriental."
Idem

"Aos Reis e Presidentes (dos países Árabes): A pobreza está a matar-nos, os sintomas estão a esgotar-nos e as almas estão a deixar os nossos corpos, e no entanto vós continuais à procura da forma de prestar auxílio, como alguém que procura uma agulha num palheiro ou como os exércitos dos vossos antecessores no ano de 1948, que nos forçaram a sair (de Israel/da Palestina) sob o pretexto de não haver civis no campo de batalha... Então, o que é que a vossa cimeira irá fazer agora?"
Carta dirigida à Cimeira Árabe em 2001 por um palestiniano preso em Acre (figura anexa)

27.3.08

O que é bom é para se ler

Via Tradução Simultânea (blog de amigo e dos bons) cheguei aqui. E não há volta a dar. Quando se encontram coisas destas o que há a fazer é linkar prontamente. O Desinfeliz, muito parco em links, passa a ter mais um (o primeiro de autor desconhecido, por sinal).

Abróchense el cinturón

Estimados leitores, vamos viajar um pouco no tempo. Vamos recuar até Dezembro de 1980. Apertem os cintos, por favor, fasten seat belts, abróchense el cinturón. E cá vaaaaaaaaaaaaaaaaaaamos nóóóóóóóós!

Zut zut zut

Chegámos. Vamos ligar o rádio e ver o que se ouve por esta altura.

Acordai, homens que dormis

(opah, Lopes Graça... nada mal, mas vamos procurar outras coisas... coisas mais recentes)

E uma vontade de rir nasce do fundo do ser

(olha, os Xutos! E esta é tão recente que ainda nem saíu, só vai sair em 1985... devemos estar com uma ligeira turbulência na sincronização do espaço-tempo, nada de grave...)

...Ask the Dalai Lama in the hills of Tibet,
How many monks did the Chinese get?


Eia! Bestial, esta música! Isto é o tal triplo-álbum dos Clash, o Sandinista!!

Grzgh grzgh grzhgrg

Que é isto?! Estamos a viajar novamente... e agora para a frente... porcaria destes viajódromos, não há maneira de funcionarem como deve ser... e pronto, já chegámos. Vamos lá ver é onde, ou seja quando, é que viemos aterrar... liguemos o rádio...

Acha então que boicotar os Jogos Olímpicos na China é uma opção? (vá lá, voltámos ao presente, podia ser pior)

De volta a 2008, podemos recolher os ensinamentos desta suposta viagem e ir directo ao assunto: boicotar os Jogos Olímpicos? Agora?? Tende a santa paciência!

Acordai, homens que dormis. E preparai-vos para que, no momento em que vos olhardes ao espelho, nasça dentro do vosso ser uma vontade de rir. Ou não. Sois talvez cegos. E surdos. Em 1980, provavelmente estaríeis entre os que se queixavam desses punks horrorosos, que tocam tão alto, cruzes, credo. Mas por muito alto que tocassem não conseguiram tocar essas vossas mentezinhas pequeninas, imersas lá no fundo da vossa abismal ignorância e da vossa virginal inocência, sempre pronta a reagir ofendidíssima e sempre sem saber a quê, nem porquê, nem para quê.

Porquê boicotar, agora, os Jogos Olímpicos? O que é que mudou na China, ou no Tibete, já não digo desde 1980, mas desde que a organização dos Jogos foi atribuída à China? E de que é que serviram os boicotes aos Jogos Olímpicos de Moscovo? Ou aos de Los Angeles? Não terá sido bem mais eficaz a presença (e a prestação) dos atletas negros em Berlim, em 1936, bem debaixo do bigodinho do Tio Adolfo? E nessa altura ainda nem sequer havia televisão, que faria se houvesse.

A vontade de rir que os vossos ocasionais despertares provocam é ainda mais funda que o vosso habitual adormecimento, ó eternos embalados nos colos das vontades de outrém. Deixai desabrochar os vossos próprios pensamentos, ó passageiros dos tempos. Desapertai os cintos que vos tolhem os sentidos e as vontades, ó companheiros de caminhada. Clicai aqui, vede e escutai, que mal não vos fará. Se quiserdes, podereis até ler a letra da música. No caso de não vos interessar, ela lá estará na mesma. Sois, como sempre, livres de ignorar. E se preferirdes a letra sem a música e sem o slideshow, tomai-a lá.

Washington Bullets
(The Clash)
U.K. Release Date: 12/12/80

Oh! Mama, Mama look there!
Your children are playing in that street again
Don't you know what happened down there?
A youth of fourteen got shot down there
The Kokane guns of Jamdown Town
The killing clowns, the blood money men
Are shooting those Washington bullets again

As every cell in Chile will tell
The cries of the tortured men
Remember Allende, and the days before,
Before the army came
Please remember Victor Jara,
In the Santiago Stadium,
Es verdad - those Washington Bullets again

And in the Bay of Pigs in 1961,
Havana fought the playboy in the Cuban sun,
For Castro is a colour,
Is a redder than red,
Those Washington bullets want Castro dead
For Castro is the colour...
...That will earn you a spray of lead

For the very first time ever,
When they had a revolution in Nicaragua,
There was no interference from America
Human rights in America

Well the people fought the leader,
And up he flew...
With no Washington bullets what else could he do?

'N' if you can find a Afghan rebel
That the Moscow bullets missed
Ask him what he thinks of voting Communist...
...Ask the Dalai Lama in the hills of Tibet,
How many monks did the Chinese get?
In a war-torn swamp stop any mercenary,
'N' check the British bullets in his armoury
Que?
Sandinista!

24.3.08

Conceitos e preconceitos


Ainda a respeito* do Médio Oriente ou do conflito israelo-palestiniano**, o que não falta por aí são mitos e factos fictícios. Um dos mais fortes e perenes, contra o qual a pobre e desinteressante realidade dos factos factuais pouco tem podido, é aquele que nos apresenta Israel como a encarnação do mal em geral e a parte intolerante em particular e o outro lado*** como vítima de intolerância indiscriminada e expoente máximo da tolerância, nomeadamente religiosa.

Resumindo e desbaralhando: havia até há muito pouco tempo uma ideia de que os árabes/muçulmanos eram o exemplo vivo da tolerância religiosa; o que, por sua vez, implicaria necessariamente e automaticamente que os palestinianos, como legítimos representantes ou campeões dessa cultura (para não lhes chamar símbolos ou mascotes de alguns interesses), seriam as vítimas injustiçadas de uma segregação quase sem paralelo.

Como tantas vezes acontece com os mitos e com os factos fictícios, a ideia não era completamente errada, tinha mesmo profundas raízes de verdade que lhe permitiam florescer. O problema é que para encontrar essas raízes históricas, esse fundo de verdade, temos que recuar séculos e mais séculos. Temos que chegar às origens do pensamento democrático, à Revolução Francesa, e recuar ainda uns bons séculos. Temos que chegar à Idade Média, ao período mais negro e mais intolerante do cristianismo (e não, note-se, do judaísmo), para encontrar no Islão um contraponto de tolerância/respeito/civilidade/convivência.

Qualquer tentativa de transposição para os nossos dias só resulta com base na ignorância, no preconceito, na teimosia, na estupidez, na inconsciência e na preguiça mental (isto para só falar nos artigos de venda livre, que se encontram em abundância, sem chegar aos casos mais críticos, que já exigem receita médica, como o fanatismo, a má-fé, o anti-semitismo ou o esquerdismo, por exemplo).

Não vou questionar o facto, comummente aceite, de que uma boa parte do Islão tratava com humanidade os judeus e os cristãos na mesma época em que uma boa parte da Cristandade perseguia fervorosamente os judeus e os mouros (tal como os ateus e os cristãos de outras facções). Também não vou usar os seguintes números como argumento a contrario, porque eles podem simplesmente reflectir a existência e o poder de atracção de um novo estado judaico para os judeus da diáspora, por um lado, e as consequências inevitáveis de umas quantas guerras (ou de umas quantas batalhas da mesma guerra), por outro. Para não usar um argumento falacioso, não uso os números como argumento, mas eles aqui ficam:


Em 1948 (declaração dos dois estados na Palestina, independência de Israel, ou Catástrofe, consoante o ponto de vista) havia 160.000 árabes no território israelita. Em 2003 havia 1.400.000. No mesmo período, a evolução da população judaica em países árabes foi a seguinte:

Argélia: 140.000/<100
Egipto: 75.000/200
Iémen: 55.000/200
Irão: 100.000/11.000
(ok, não é um país árabe, mas para o efeito também conta e não é pouco)
Iraque: 150.000/100
Líbano: 20.000/100
Líbia: 38.000/0
Marrocos: 265.000/5.500
Síria: 30.000/<100
Tunísia: 105.000/1.500

Não tendo usado estes números para defender coisíssima nenhuma (apenas para mostrar que eles existem e que, com inconsciência, ignorância, facciosismo ou má-fé podem ser usados para defender seja o que for), permito-me, isso sim, apresentar alguns dados que justificam que eu seja do lado de que sou. (Quem não tenha mesmo pachorra para factos é favor retirar-se, com um compreensivo e respeitoso shalom da minha parte).

Os 1.400.000 árabes residentes em Israel (e aqui poderá usar-se com propriedade o termo palestinianos) representam 18 a 20% do total da população do país. O árabe é uma das línguas oficiais do Estado de Israel, em pé de igualdade com o hebraico. Existem 5 partidos políticos árabes, que já chegaram a ocupar 10% dos lugares no parlamento.

Exceptuando a Jordânia (onde se considera que existe alguma liberdade académica, expressão artística parcialmente livre e entrada relativamente livre de arte, literatura e imprensa estrangeira), Israel é o único país da região que não tem censura e onde a religião não está fora do alcance da liberdade de expressão e de crítica.

Ponto por ponto (vá lá que são só três...) aqui vão alguns lembretes aos bravos defensores dos oprimidos de todo o mundo:

Ponto 1. Direitos Políticos

Israel tem: a) eleições livres e justas; b) partidos da oposição legais; c) participação política de minorias.

A Jordânia tem um pouco de tudo isto (em doses bastante moderadas para critérios ocidentais, mas tem). A Autoridade Palestiniana permitiu, em certa medida, a legalização de partidos da oposição (como se sabe, o Hamas constituíu-se como partido e ganhou eleições; resta ver se o Hamas permitirá a legalização de outros partidos). No Líbano, apesar de não se poder falar em eleições livres e justas, tem havido alguma existência de partidos e de participação política de minorias.

Países como a Arábia Saudita, o Sudão, a Síria e a Líbia não têm sequer vestígios de nada disto. O Iraque, que até 2003 estava neste pacote, teve depois da invasão eleições aceitavelmente livres e justas e no resto é mais ou menos o que se sabe, para não dizer pior...

Ponto 2. Direitos de Cidadania

Em Israel são reconhecidos a todos os cidadãos os seguintes direitos: a) de Liberdade de Expressão e Reunião; b) de Julgamento Justo e Aberto; c) de Liberdade Religiosa.

Para simplificar, comecemos por dizer que nenhum dos restantes e já referidos países consagra ou reconhece plenamente nenhum destes direitos. A Jordânia aceita os três, mas com restrições. O Líbano reconhece, também com limitações, alguns direitos de expressão, reunião e prática religiosa. O Egipto tolera, até certo ponto, a liberdade de expressão e de reunião. A Autoridade Palestiniana reconhece, pelo menos em teoria, um módico de liberdade de culto religioso.

Ponto 3. Direitos da Mulher

Em Israel a percentagem de iliteracia entre as mulheres (15 anos e mais) é de 4,4%. Na Arábia Saudita é de 30,7%. No Egipto, 56,4%. No Irão: 29,6%. No Iraque: 75%. Jordânia: 15,3%. Líbia: 28,0%. Síria: 36,0%. Autoridade Palestiniana: 23,0%.

Todos estes países (à excepção de Israel) impõem restrições à liberdade de movimentos das mulheres, nomeadamente através da exigência de autorização do marido ou de um parente do sexo masculino para que a mulher possa viajar.

A percentagem de mulheres na população activa é de 45% em Israel. Arábia Saudita: 13%. Egipto: 21%. Irão:12%. Iraque: 18%. Jordânia: 21%. Líbia: 21%. Síria: 19%. Autoridade Palestiniana: 11%.

E é isto.

* Obrigado, major, pela introdução do respeito nestas conversas, que bem precisam dele.

** A receita funciona na perfeição se substituir 'palestiniano' por qualquer outro ingrediente à escolha: árabe, muçulmano e islâmico. Claro que não são sinónimos, mas para o assunto em apreço a única diferença objectiva prende-se com os palestinianos. Acontece que, sem ser os próprios palestinianos, que são pouquíssimos, e os israelitas, que não são muitos mais, ninguém quer saber deles para nada.

*** Uso esta expressão para simplificar. O outro lado são os outros lados todos que não se podem ver em tudo o mais mas que se unem contra Israel. Os referidos na nota anterior (**) serão os mais óbvios, mas há também outros lados, mais à esquerda ou mais à direita: os esquerdistas, os extremo-esquerdistas, os bloco-de-esquerdistas, os relativistas, os neo-relativistas, os neo-fascistas, os neo-nazis...

17.3.08

Uns e os outros

Nem tudo é igual a tudo o resto. Ou seja: nem tudo é indiferente. Ou seja: nem sempre se pode ser neutro. Ou seja: às vezes há que tomar partido. Onde é que eu quero chegar com tudo isto? Ao Médio Oriente. A uma das razões pelas quais sou a favor de um dos lados, e não neutro ou a favor do outro. Essa razão tem uma forma e um conteúdo, a que damos os nomes de democracia e tolerância, respectivamente.

Vem tudo isto a propósito ou despropósito de uma parada de orgulho gay, realizada em Jerusalém. Eu sou do lado do país que — sob ameaça de acções terroristas da Jihad Islâmica, sob uma barragem diária de rockets dirigidos pelo Hamas a uma pequena cidade no Negev*, sob a explícita ameaça iraniana de o apagar da face do planeta num futuro próximo e de até lá apoiar todas as milícias que lhe façam guerra — destaca 8 mil polícias (quase metade dos que tem no activo) para proteger o desfile de um grupo minoritário que é sistematicamente atacado e denegrido por duas das maiores e mais estridentes comunidades da cidade santa: os ultra-Ortodoxos judeus e os Palestinianos.

Sou do lado do país que reconhece que tem uma comunidade gay, a qual por sua vez envidou todos os esforços para garantir que a parada teria lugar longe dos bairros ultra-Ortodoxos e de outras zonas onde facilmente pudesse causar ofensa aos residentes.

Sou do lado do país que tem polícias que fazem frente aos estudantes ultra-Ortodoxos que, aos gritos de "Nazis! Nazis! Nazis!", lhes atiram pedras, garrafas e cocktails molotov, para além de partirem janelas e semáforos e de incendiarem pneus e contentores de lixo.

Sou do lado do país em que os rabis ultra-Ortodoxos, entre os quais os mestres desses estudantes, apesar de chocados pela parada e por aquilo que consideram uma abominação (a homossexualidade), proibiram inequivocamente e em público os seus discípulos de tomarem parte em manifestações violentas.

Sou do lado do país que despreza e reconhece como ridículas as atoardas dirigidas à parada, como "os Nazis deviam ter acabado convosco".

Sou do lado do país que tem um polícia que, quando lhe perguntam o que é aquela bandeira com as cores do arco-íris, responde: "Há rapazes que amam rapazes, e raparigas que amam raparigas".

Sou do lado do país em que a muito influente rádio do exército dá voz à opinião da filha do primeiro-ministro, segundo a qual o direito de manifestação dos gays e das lésbicas é tão legítimo e inalienável como o seu direito de voto.

Sou do lado do país cujo/a ex-representante (e vencedor/a) no Eurofestival, um/a transsexual, defendeu numa entrevista que, por respeito pelo carácter sagrado da cidade, a parada não se deveria realizar em Jerusalém.

Sou do lado do país cuja televisão pública dá tempo de antena a um rabi para que este explique a sua forte oposição à parada e pergunte à entrevistadora o que faria se o seu filho lhe viesse dizer que era gay (ao que a entrevistadora respondeu que o abraçaria e lhe agradeceria pela franqueza).

A parada do orgulho gay em Jerusalém prova a mais poderosa e a mais eficaz das forças de Israel: a capacidade de israelitas muito diferentes viverem uns com os outros e com as suas diferenças.**


* A pequena cidade do Negev chama-se Sderot e já serviu de alvo a 7694 rockets (o Nuno Rogeiro chamar-lhes-ia mísseis Qassam).

** Todo o conteúdo deste post foi descaradamente picado do Haaretz.

13.3.08

O Pós-PPD/PSD

Eu não tenho nada a ver com o assunto, mas mesmo assim custa-me um pedacinho ver o que se passa no PSD. Para além do incómodo natural de ver e ouvir espécimens como o sectário-geral Ribau ou Bota, o grosseirote (como tão bem o classificou Lobo Xavier), custa ver o suposto partido de alternativa de poder transformado em partido de alterne.

Se bem me lembro, até agora as grandes questões levantadas pelo pós-PPD/PSD foram: a forma de pagamento das quotas dos militantes do pós-PPD/PSD; a publicidade na RTP1; o novo símbolo do pós-PPD/PSD; a outra que de momento não me ocorre. Tirando a última, que continua a não me ocorrer, e tirando também a primeira e a terceira, que só interessam verdadeiramente aos militantes do pós-PPD/PSD, resta a segunda.

Algumas semanas de profunda reflexão estratégica e talvez mesmo de aturados estudos económico-financeiros permitiram ao líder do pós-PPD/PSD identificar um dos principais problemas do país (a existência de publicidade no canal 1 da RTP) e prometer a solução que se impõe (acabar com a dita publicidade no dito canal). Ficamos a saber que, para além de questões internas de tesouraria e de simbologia, o pós-PPD/PSD não tem mais com que se preocupar, ou acha que o país não tem mais com que se preocupar, o que vai a dar no mesmo.

Claro que os únicos verdadeiros destinatários da mensagem são a SIC, a TVI e algum eventual terceiro operador privado. Os accionistas das privadas são os únicos que legitimamente, numa altura destas, podem estar preocupados com o assunto. É óbvio que este pós-PPD/PSD não vai chegar ao governo nem que a vaca tussa, e mesmo que, por absurdo e por alucinação colectiva do eleitorado, lá chegasse, não iria certamente cumprir promessa nenhuma, quanto mais essa.

Também é óbvio que o Balsemão e os ustédes da Prisa não serão tontinhos e ingénuos ao ponto de acreditarem na promessa, mas ficam a saber de ciência certa aquilo de que todos já desconfiávamos: o pós-PPD/PSD é um partido de alterne, que se vai vender a quem o quiser comprar.

O que pode levar alguém a querer comprar o Ribau, o Bota e o Menezes, é mais do que a minha imaginação alcança. Mas que los hay malucos para tudo los hay...

10.3.08

E lá se foi o Ti Zé Tó


Lá se foi o Camacho e lá se foram mais dois pontos. Os pontos ainda podem vir a fazer falta.

5.3.08

Lá se foi o Ti Zé


Foi-se a 5 de Março de 1953, o maroto. Em querendo e em havendo pachorra, é ir aqui e ver como foi. Suplantou nitidamente o Ti Adolfo em matéria de bigode e também não se deixou ficar atrás em número de vítimas. Consta que falava (russo, claro) com um fortíssimo sotaque. Eu nem isso.

3.3.08

O de Otário


Há muitas circunstâncias na vida que me fazem desconfiar que sou um verdadeiro otário. Aliás, se fosse menos otário já teria a certeza absoluta de que sou otário. Veja-se o seguinte exemplo, ocorrido na passada sexta-feira logo após o almoço.

O almoço foi de iscas no Zé Russo com direito a reencontro com amigo de longa data ultimamente um pouco mais afastado do que era hábito (reencontro que aliás até passou por contactos interblogais). Até aqui tudo bem. Tudo óptimo, mesmo. Bestial.

Acaba-se o almoço. Pega-se na chávena do café, fuma-se um cigarro à porta do restaurante, reentra-se, paga-se, sai-se de novo. Até aqui tudo mais ou menos. (Não me vou pôr a falar da vida de um fumador nos dias que correm.)

Trocam-se umas últimas palavras com o referido amigo e ala que se faz tarde. Ele mete-se no carro dele, nós (três de nós) metemo-nos no meu. Estes reencontros com amigos de longa data têm uma certa tendência para fazer com que o relógio ande mais depressa do que devia, por isso a ideia é não perder tempo no caminho de regresso ao trabalho. E é agora, nestas circunstâncias, que o otário se vai revelar.

Arranco, faço inversão de marcha, páro num semáforo, contorno uma rotunda. À saída desta rotunda há uma passadeira. Junto à passadeira encontra-se um peão. Tem pouca estatura, alguma idade e uma bengala. O que é que se faz numa situação destas? Há que ver que a via é larguíssima, tem umas três ou quatro faixas, mais que suficiente para passar à larga, mesmo que o sujeito decida avançar. E o homem ainda nem esboçou um gesto para começar a atravessar. E é tarde. Qualquer bom português, a começar por um dos que me acompanha, daria um pequeno aconchego no acelerador e despacharia o assunto sem qualquer problema e sem mais demoras. “Vais parar? Nunca mais vais sair daqui”. Eu, otário, páro.

Numa ocasião destas, um otário como eu pensa: “Se eu não parar, se ninguém parar, o senhor nunca mais consegue atravessar”. Enquanto outro, menos otário, se chegaria à frente, eu, otário, páro.

O senhor, com a mão que não leva a bengala, faz um gesto de agradecimento a que, na realidade, nada o obriga. Um gesto que não faz mais que alimentar o otário que há em mim.

26.2.08

Tuguíadas II, 5/6

Maltratar o planeta corresponde
A crime muito grave e sem remendo.
E aquele que o pratica vai p’ra onde,
Se o castigo dos homens não temendo
Prossegue sem saber bem para donde,
Os brutais atentados cometendo
Sabendo que jamais será catado,
E só pelo Senhor será julgado?

A terrena justiça p’ra quem erra
É motivo de grande zombaria;
Quem sofre é sempre a nossa madre Terra
E nunca quem lhe deita a lixaria.
E quando o que se impunha era dar guerra
Aos autores de tanta bizarria,
O que vemos apenas tão somente
É declarar-se tudo indiferente.

(...)

22.2.08

Alguém me explica estes fenómenos?


Note-se que a capa do Record contém outra mentira grave, por cima da que faz a manchete. Era bom era.

20.2.08

Tuguíadas II, 3/4 (continua o choradinho)

Haveria que ser mais cauteloso,
Trazer a Terra nossa mais cuidada,
Nunca por nunca ser ganancioso
A pontos de matar a coisa amada.
Ireis pelo caminho trabalhoso
Ou, pela via fácil, dar em nada?
A morada é de todos, estimá-la
É de todos dever, e não estragá-la.

Como viver com tanta porcaria,
Com tanto desperdício degradante?
Mas o homem, que tanta coisa cria,
Não sabe ou não quer ver mais adiante;
Faz do futuro coisa tão sombria,
Tremida, por demais inquietante;
Se não nos emendarmos só prevejo:
Os amanhãs matamos e sem pejo.

(...)

19.2.08

Ei-los de volta! (os Tuguíadas) (Canto II, 1/2)


Agora, neste tempo pós-Pauleta,
Em que tudo se vai substituindo:
O que era antigo vai para o maneta,
Do futuro os portais se vão abrindo;
Faz o teclado as vezes da caneta,
Vai-se um texto a si mesmo corrigindo…
O que as humanas gentes avançaram
Nos anos muito poucos que passaram!

Veja-se o velho mundo renovado:
De tudo o que é passado faz razia,
Por cada zingarelho que é lançado
Ficamos c’uma nova velharia;
É tanto bem tão mal desperdiçado,
Em nome de ter mais tecnologia!
Mas quando a nossa Terra sustentar-te
Não puder, que farás? Viver em Marte?

(...)

18.2.08

Pristina, não vais levar a mal


Mesmo com um trocadilho logo a abrir, o assunto é sérvio. E o assunto é: a quem é que interessa a independência do Kosovo? Aparentemente os kosovares-albaneses estão convencidos de que lhes interessa a eles, vá-se lá saber porquê e para quê. Mas mas mas...

Para quem faz tanta questão de ser independente custa a entender que agitem freneticamente a bandeira da Albânia. Poderá ser por uma questão meramente estética — especialmente para um português, há que reconhecer que a bandeira não é um problema com que os albaneses* tenham que se preocupar.

Por cá, o secretário de estado não sei do quê já disse que em devido tempo iremos reconhecer a independência do Kosovo. Ou seja, já a reconheceu. Falta só saber que bandeira é que se vai hastear ao pé do Pavilhão Atlântico (será que ficam duas da Albânia?) e o que é que o homem quer dizer com o 'devido tempo', se é que quer dizer alguma coisa.

É provável que, no meio de tantas preocupações com os sérvios do Kosovo e com os sérvios da restante sérvia, com os albaneses do Kosovo e da Albânia, com os romenos e os húngaros da Roménia, com os macedónios da Grécia e os da Antiga República Jugoslava, com os cipriotas gregos e turcos, com os turcos todos e mais alguns, com os russos, com os búlgaros e com as desvairadas gentes que se encontram mais ou menos para aquelas bandas, é provável, dizia eu, que o nosso suprareferido secretário de estado não sei do quê não tenha prestado demasiada atenção a outras questões do mesmo género e que até nos dizem ainda mais directamente respeito.

Já nem estou a pensar na hipótese de a Cova da Moura, por exemplo, querer declarar a independência, com base nos mesmos critérios de natureza étnica. Ocorre-me, claro, o caso da Madeira; mas calculo que o secretário de estado em questão tenha achado que, seja como for, o Alberto João não pode armar mais escabeche do que já faz habitualmente. E também gostava de saber o que é que se vai dizer aos bascos, aos católicos da Irlanda do Norte, aos corsos e a essa rapaziada toda... Que tenham paciência, talvez. É capaz de ser o melhor.

Tal como já havia dito aquando da declaração de independência do Montenegro, parece-me que Portugal faria bem melhor em prestar aconselhamento a estes kosovos, no sentido de pensarem um bocadinho melhor. Olhem para nós e digam lá, sinceramente: o que é que isso adianta? Tenham mas é juízo.

Para acabar, uma cantiguinha da autoria de um tal de Henry Wadsworth Longfellow (1807-1882):

The crescent banner falls
And the crowd beholds instead
Like a portent in the sky
Iskander's banner fly
The Black Eagle with double head [...]


* Ontem ouvi, na TSF, uma portuguesa residente no Kosovo referir-se aos albaneses como os albanos. Não sei se conta como trocadilho mas é bem caçado.

14.2.08

Porquê o S. Valentim?


De onde vem esta celebração do Dia dos Namorados? E será que vai para algum lado? E porquê o S. Valentim? Porque não o Santo António, por exemplo? Ou outro santo qualquer? O Desinfeliz explica tudo (se preferir a versão original, ei-la aqui).

Antes de ser santo, Valentim foi um homem. Há até quem diga que foram mais, uns três ou quatro, mas vamos admitir que foi só um, para não complicar demasiadamente logo no início. Valentim foi, então, nesta versão simplificada dos factos, um homem (e não uma mulher, ou um sapo, ou um jumento).

O mínimo que se exige a um homem que pretenda ver o seu nome associado a um Dia dos Namorados é que perca a cabeça. Valentim percebeu isso e fez-se decapitar, a 14 de Fevereiro de 278 dC, mais coisa menos coisa. Corriam os dias do imperador Cláudio II, o Cruel, e Valentim acabava assim a sua carreira eclesiástica em Roma, de forma algo radical mas absolutamente adequada a alguém que queira virar santo.

Cada governante tem os seus problemas. Sócrates tem o défice e umas chatices com a saúde e a justiça e essas coisas, Hitler agendou o problema dos judeus, Bush tem-se a si próprio, Ramos Horta e Xanana Gusmão tinham o Reinado... Na realidade, todos os governantes têm os problemas todos, mas cada um sente um ou outro problema como mais premente.

Ora o referido Claúdio tinha a ralá-lo a crise do recrutamento. Na altura, Roma envolvia-se frequentemente em campanhas tão sangrentas como impopulares e a necessidade de manter um exército forte esbarrava na falta de vontade dos mancebos em alistarem-se. Ele, Claúdio, atribuía essa falta de vontade a um exagerado e escusado apego dos homens às suas respectivas mulheres e família em geral.


Querendo mesmo resolver o problema e não apenas dar ao eleitorado a ideia de que estava a envidar todos os esforços no sentido de eventualmente criar condições para que em devido tempo se viessem a implementar medidas tendentes a inverter o rumo dos acontecimentos, Cláudio, que não era desses, não esteve com meias medidas: proibiu o casamento. Nem mais nem menos. Em Roma não casarás. Quem não esteve pelos ajustes foi o major. Perdão, o santo. Ou seja, o padre. O Valentim, portanto. Chocado e revoltado com a injustiça do decreto imperial, o valoroso sacerdote continuou a administrar clandestinamente o sacramento do matrimónio aos jovens casais que o procuravam.

Seguiu-se um processo que hoje nos pode parecer estranho, mas que na altura parecia fazer sentido: Valentim foi acusado, julgado e condenado por fazer o que andava a fazer. A sentença não foi propriamente ligeira: Valentim foi condenado à morte à bastonada e subsequente decapitação. E assim se fez. Transitou em julgado, penso que é o termo.

Reza a lenda que Valentim deixou na sua cela uma carta de despedidas à filha do carcereiro(!). A carta terminava com um simpático "Do teu Valentim". Daí aos postalinhos, às caixas de bombons e aos perfumes, não foi mais que uma sucessão de saltinhos graciosos, de nenúfar em nenúfar, de século em século, até aos nossos dias.

13.2.08

Alfredo, o Reinado


Nós, os Alfredos, somos assim. Pelamo-nos por meter medo. Veja-se o grande Hitchcock, veja-se o Stroessner, veja-se este blog… Claro que há excepções, como por exemplo o meu avô. Mas por vezes nós, os Alfredos, exageramos um pouco na ânsia de chamar a atenção. Somos carentes e reinadios, é o que é.

7.2.08

A vida é dura

Não sei se faz parte da legislação de Murphy, mas o facto é que quando as coisas correm mal há uma grande tendência para vir alguém fazer com que piorem ainda um pouco mais. Haja quem o consiga fazer com alguma graça. O seguinte exemplo surge hoje a páginas 13 do Metro, o gratuito, num artigo assinado por Jorge Anjinho sobre a crise do Farense.

Para contextualizar as graves dificuldades do Farense, o artigo apresenta dois exemplos bem sugestivos: um célebre treino no final dos anos 90 em que os atletas se apresentaram com os bolsos dos fatos-de-treino virados para fora e uma entrevista em que um tal Zezinho, por comparação com a situação do seu primo Paixão, defesa do Farense, sublinhava as vantagens de trabalhar nas obras, entre as quais destacava o facto de receber sempre.

Correndo as coisas tão mal para o Farense, qualquer espectador minimamente atento e com um gosto saudável pelas mais genuínas manifestações de rivalidade clubística trataria de arranjar rapidamente um bom lugar para assistir à entrada em cena dos adeptos do Olhanense. Esse espectador atento só teria de esperar pelo derby da temporada 2003/04 (II Divisão B).

Em declarações após o jogo, Carlos Freitas, da claque do Olhanense, resumiu assim a situação: “Quando entraram em campo, atirámos papo-secos para comerem, mas não se devem ter safado porque eram duros”.

29.1.08

Restart

Após mais um período de hibernação, o Desinfeliz regressa como se nada fosse. Até porque, em vendo bem e desapaixonadamente a coisa, nada é. O que mais falta para aí é blogues, ninguém fica à míngua.

Nestas ocasiões é muito comum perguntar-se "Onde é que eu ia?". Claro que também há quem volte a si com um simples e directo "Já está na mesa?", ou com um mais filosófico "Quem sou eu?", mas o "Onde é que eu ia?" dá muito mais jeito nas presentes circunstâncias. Dá jeito porquê, perguntará algum deseventual acompanhante deste sucedâneo de raciocínio*. Porque era nos livros que eu ia e é com livros que vou retomar, responde o Desinfeliz.

Vamos então, rapidamente e em força, aos mais recentes inquilinos da mesa de cabeceira do Desinfeliz.

O Paradoxo do Pacheco é tal e qual o que se espera, nem mais nem menos: uma compilação de textos do Pacheco sobre esse ornitorrinco que é o PSD. Bonzinho, portanto.

Já o Maneta do Pulido Valente pode ser classificado, sem grandes receios de incorrer em exagero, como uma valente seca. A evitar cuidadosamente por quem não sente a necessidade imperiosa de saber mais sobre um certo e determinado tipo de consequências das invasões francesas naquilo a que se pode chamar o ordenamento social português e/ou por quem não reaja «bem» às constantes «aberturas» e «fechaduras» de «aspas», que me «pareceram excessivas» e chegam «a» tornar-se «irritantes».

Quem me surpreendeu pela positiva foi a ex-camarada Zita Seabra. Como diria o outro, só tenho dois adjectivos: gostei e recomendo.






* Estou em crer que poucas vezes o estimado leitor terá sido tão achincalhado, na blogosfera ou fora dela. Desenventual acompanhante de sucedâneo de raciocínio não é a coisa mais civilizada para se chamar a quem teve a decência de voltar ao lugar do morto. O morto/ressuscitado pede as devidas desculpas e agradece a militância.

24.10.07

A Sombra da Catedral dos Hussardos de Cabul

Mais por acaso que por outra razão qualquer andei ultimamente a ler umas quantas obras de autores espanhóis, coisa que habitualmente não fazia muito (também por razão nenhuma em particular, apenas porque não calhava). A conclusão a que vou chegando é que, pelo menos para este efeito, os ustédes são como as outras pessoas: uns melhores e outros piores, com uma maioria de assim-assins pelo meio.

A minha amostra é tão absolutamente aleatória que deve ter um alto valor científico. A avaliação baseia-se no mesmo número de obras por autor (uma, concretamente). O único género testado foi o romance. Comecei pelo Pérez-Reverte e estou a acabar no Montalbán, tendo entretanto passado pelo Falcones e pelo Zafón. Note-se que esta familiaridade (o Falcones para cá e o Zafón para lá) é a posteriori; até agora só sabia da existência dos outros dois, o Reverte e o Montalbán, e nunca tinha lido nada de nenhum.

O primeiro que se me atravessou no caminho foi O Hussardo, de Arturo Pérez-Reverte. Não fora o caso de ter ouvido uma entrevista do Arturo, em que só lhe faltou negar peremptoriamente a autoria deste livro, e nunca mais iria ler nada deste ustéd. É daqueles que só se lê até ao fim porque é mesmo pequenino. Nem sequer chega a ser mau, é só de uma inutilidade total. Bem espremidinho, talvez desse um capítulo interessante para um livro como deve ser. Adiante.



Seguiu-se A Catedral do Mar, de Ildefonso Falcones. Este sim. De longe o melhor dos quatro. E o maior também, que é uma coisa que me agrada nos livros que me agradam. Aquilo dá voltas e voltas e mais voltas, sem nunca chegar a enrolar-se irremediavelmente. Notável. A única decepção que me causou foi, pouco tempo depois, ver ao vivo a dita Catedral (mais conhecida localmente por Basílica). Nunca tinha ido a Barcelona e, à conta do Falcones, não descansei enquanto não fui lá meter o bedelho. Quem tenha lido ou venha a ler a coisa há-de concordar que o mínimo que se espera é que as pedras tenham uns três metros de largo por dois de altura e um de fundo. Vai-se a ver e são umas pedritas banalíssimas. Nada que tire beleza à Basílica (nem ao livro).



(Atenção agora: contém spoilers)

Sem sair de Barcelona, passei para A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón. Este intrigou-me particularmente. Que vendeu não sei quantos milhões de exemplares em meia hora, que ganhou os prémios todos e mais alguns, que isto e aquilo e mais o outro... Esqueçam isso tudo. Façam como eu devia ter feito: vejam a foto da capa, que não é má de todo, atentem um bocadinho no título e sigam o instinto que vos diz que alguém capaz de escrever um livro de jeito também seria capaz de lhe arranjar um nome em condições. A Sombra do Vento... Sinceramente. Uma coisa tem que se reconhecer ao Zafón: com um título destes ninguém pode dizer que foi ao engano. A Sombra do Vento. Sem falar em tudo o resto, que é igualmente mau, confesso que fiquei siderado com o truque de ele e ela, os apaixonados até à morte, serem irmãos e não saberem. Julgava que havia uma espécie de acordo tácito entre escritores e leitores para não se voltar a usar esse número fora do domínio das telenovelas. O embuste é de tal ordem que lá para o fim, quando o narrador-protagonista diz que morreu daí a sete dias, a gente já nem se admira. Aliás, até dá algum sentido a tudo o resto, na medida em que dificilmente se podia exigir a um morto que escrevesse como deve ser. Claro que no finzinho mesmo o gajo afinal não morreu. Infelizmente, diga-se. Sempre seria uma pequena consolação para os desinfelizes de juízo que lêem aquela porcaria toda.



Finalmente, eis-me chegado ao famoso Montalbán, Manuel Vásquez. Tendo sobrevivido tão recentemente ao Zafón, não quis abusar da sorte e a páginas 50 já o pus de lado. Bacoco, bazaroco, fraquinho fraquinho, mau, muito mau, péssimo, possidónio, presunçoso, pindérico, apalermado: a dificuldade está em sintetizar tudo o que se poderia e deveria dizer sobre Rumo a Cabul (cuido que seja este o nome do livro, porque aquilo vem adornado com Milénio I e Série Pepe Carvalho, para além dos habituais nomes do autor e da editora). Pode ser só azar meu, porque tanto quanto me é dado perceber o homem escreveu uns quinhentos livros, trezentos dos quais com este Pepe Carvalho (mais um caso para seguir os instintos básicos: Pepe Carvalho...), podendo este ser apenas um dos poucos que enfim, coitadinho...

Conclusões e moral das histórias: pelo seguro, acho que me vou manter tão longe do Montalbán como do Zafón; vou dar uma segunda oportunidade ao Reverte; se me aparecer mais alguma coisa do Falcones marcha imediatamente, na plena consciência de que poderá não estar à altura da Catedral; 50% dos romances espanhóis não valem um calamar; na dúvida, como em quase tudo, é de evitar aqueles de que mais se fala. E olé.

19.10.07

Como dizia o outro

"O silêncio é um dos argumentos mais difíceis de refutar."
Josh Billings (whoever he may be)

21.9.07

Blog temporariamente em desconstrução

Como talvez não tenha escapado aos menos desatentos, o Desinfeliz atravessa um período sabático. Um time out. Um break, even.

Derivado ao agnosticismo do principal e único irresponsável, que não se pode confundir com ateísmo, o Desinfeliz, à cautela, está a apostar nos cavalos todos. Num assomo de ecumenismo sem paralelo desde os dias de João Paulo II sobre a Terra, o Desinfeliz está a pôr em dia todos os sabbats, domingos, jejuns pascais, Ramadões e similares que não respeitou ao longo de décadas de empedernida descrença. Dias santos para os poucos mas bons clientes habituais, portantos.

Agora o que ninguém pode prometer, nem mesmo o Desinfeliz, é que o estado de graça dure sempre. Veja-se o exemplo desse outro José, o Mourinho, para já não ter de recuar ao outro, o de Jacob e Raquel, e às suas sucessivas espirais de ascensão e queda.

E eis que com tudo isto já se quebraram, despropositadamente, os votos de silêncio que ainda há meia dúzia de linhas atrás se professavam. Ai Desinfeliz, Desinfeliz.

5.9.07

O Setembro Negro e os 11 de Israel


Foram os primeiros Jogos Olímpicos de que me lembro. E também o primeiro atentado terrorista. Recordo que estava animadamente a fazer a colecção de cromos (dos Jogos, não das facções e fracções armadas), que tinham umas caricaturas muito engraçadas... pareciam uma coisa divertida e positiva, as tais das Olimpíadas. Até aparecer aquela modalidade de matar e raptar os israelitas. Será daí que me veio a simpatia pela causa dos filhos de Jacob? Duvido. Mas, mais tarde, quando essa simpatia começou a nascer, deve ter encontrado fertilizante nessa memória recôndita. Faz hoje 35 anos.

O que é que acabará primeiro? Os Jogos Olímpicos ou o terrorismo deste género? Algo me diz que não será Medinat Yisra'el (ou Daulat Isra'il, ישראל para os amigos)...

3.9.07

Waugh again

"It is a curious thing... that every creed promises a paradise which will be absolutely uninhabitable for anyone of civilized taste."

Esta, por sua vez, lembra-me outra, de autor anónimo, que dizia que quando morresse não queria ir para o céu, porque certamente não iria encontrar lá ninguém conhecido.

La Rentrée

"Instead of this absurd division into sexes they ought to class people as static and dynamic."
(Evelyn Waugh)

O Desinfeliz, que nunca terá sido um caso extremo de dinamismo, andou estatizado durante uns bons tempos. E agora, é isto. De volta, para o bem e para o mal. Com frases dos outros, que dão muito menos trabalho.

14.8.07

À saúde das frases dos outros

"Resolvi fazer dieta: cortei na bebida e na comida. Em catorze dias perdi duas semanas."

Na versão original, da irresponsabilidade de Joe E. Lewis, cantor e comediante norte-americano (1902-1971): I went on a diet, swore off drinking and heavy eating, and in fourteen days I lost two weeks.

E com esta regressamos.

30.7.07

Mais uma frase dos outros doidos

"Os gauleses bebem... e os romanos comem!"

By Goscinny (e Uderzo também, há que ser justo) in Como Obélix Caiu no Caldeirão do Druida Quando Era Pequeno. O que os gauleses bebem é, naturalmente, poção mágica. O que os romanos comem só os próprios sabem, e mesmo esses só no dia seguinte.

O porquê das frases dos outros

"O sol anda todos os dias a ocidentalizar-se, mas é de noite que se orienta."

Esta é minha. Acho eu. Daí preferir usar as dos outros. Não sei o que é que me deu para pôr isto aqui. Ainda por cima não posso garantir que não faço outra destas.

Mais uma frase aqui em cima e mais um link lá em baixo

Começando pelo mais importante: o Mackintóxico, blog daquele que é provavelmente o melhor director de arte do mundo, está , para quem quiser provar e comprovar a veracidade da afirmação (que aliás está sempre salvaguardada com o tão politicamente correcto como irritante 'provavelmente').

Passando à frase (indecentemente gamada do Mackintóxico e que não sei a quem mais atribuir):

"Fuck Christmas, I got the blues."

E é isto. Não sei se já deu para perceber que o Desinfeliz recomenda uma visita ao Mackintóxico...

Retomamos as frases dos outros

"Falo Espanhol com Deus, Italiano com as mulheres, Francês* com os homens e Alemão com o meu cavalo."

* Porquê Francês com os homens? Porque a frase é atribuída ao Imperador Carlos V de Inglaterra (I de Espanha), cujo viveu no século XVI. Dita hoje a frase teria certamente o Inglês no lugar do Francês, que já só serve para falar com franceses (vá-se lá saber para quê) e com alguns belgas.

15.7.07

Continuo a adorar as frases dos outros

"Tinha uma sinceridade para cada momento."

Esta é do velho O'Neil. Calha que era sobre o Vinicius de Moraes, mas também se aplicava bem ao próprio Alex.

Entre muitíssimas pérolas de rara beleza, a biografia literária do O'Neil (por Maria Antónia Oliveira)
deu-me a reconhecer que

As escarretas que saem das tabernas
não voltam a entrar.
Ou ficam nas bermas
ou em quem vai a passar.


Lindo. E verídico. Quando a verdade a impregna, a poesia agiganta-se.

There and back again...

Desinfelizmente de volta. Acabou-se o que era doce. Gaita. Rais parta. Que maçada. Mas enfim. Ressuscita-se ligeiramente o blog (ou o blogue, tanto faz) e prontos.

30.6.07

Adoro as frases dos outros (III)

"Estou a afogar-me nos abismos da minha preguiça".

Esta é da autoria da senhora minha filha, Maria Pilar. E frase nenhuma poderia descrever melhor o estado de espírito do Desinfeliz e o facto de o mesmo ter apenas interrompido com este ligeiro sobressalto a sua prolongada letargia, que vai prolongar-se ainda mais. O Desinfeliz vai a banhos a partir de amanhã (que já é hoje).

Adoro as frases dos outros (II)

"Nenhum trabalho é melhor que trabalho nenhum"

Esta, de autor/a anónimo/a, está escrita numa parede da Rua Dom Carlos de Mascarenhas, se é que é assim que se chama, ali a Campolide. Quem reparou nela foi a minha filha. E não há mais nada que se possa acrescentar a uma frase destas.

Adoro as frases dos outros (I)

"Corra Portugal de lés a lés
com meias Ferrador nos pés"


Esta vi-a estampada numa carrinha de transporte da certamente reputada marca de peúgas mencionada no fabuloso 'claim', 'slogan', 'assinatura' ou o que se quiser. E quase me fez estampar-me a mim próprio e ao meu respectivo automóvel, em plena 2ª Circular, por alturas do Estádio do Glorioso, que foi quando dei com a carrinha e a frase à minha frente. Saquei do telemóvel, contra todas as leis rodoviárias e do bom senso, e anotei-a. Porque o raio da memória já não é o que era... Mas as boas frases são sempre boas. E mai nada.

14.6.07

Humor lá de baixo, sempre em cima

Mais um exemplo supostamente real e oficial de humor australiano. Tal como o anterior (clicar lá em baixo, em Soltinhas, e depois fazer o favor de procurar e encontrar o post intitulado Humor lá de baixo, ilustrado com um aviãozinho e tudo), este rol chegou-me via mail. Será provavelmente um clássico e eu o último nauta a recebê-lo. Mas achei-lhe piada, que quereis que vos faça? Entre as paredes lá de casa ou as do escritório e o blog, decidi afixá-lo neste.

Tal como no já referido caso pretérito, optei por não me meter a traduzir. My sincere appy polly logies a quem não domina o Inglês and what not. Here we go then, mates. Ou seja, lá vai o copy paste do forward.


The questions below about Australia are all from potential visitors. They were posted on an Australian Tourism Website and the answers are the actual responses by the website officials, who obviously have an excellent sense of humor.

Q: Does it ever get windy in Australia? I have never seen it rain on TV, how do the plants grow? (UK).
A: We import all plants fully grown and then just sit around watching them die.


Q: Will I be able to see kangaroos in the street? (USA)
A: Depends how much you've been drinking

Q: I want to walk from Perth to Sydney - can I follow the Railroad tracks? (Sweden)
A: Sure, it's only three thousand miles, take lots of water.

Q: Is it safe to run around in the bushes in Australia? (Sweden)
A: So it's true what they say about Swedes.

Q: Are there any ATMs (cash machines) in Australia? Can you send me a list of them in Brisbane, Cairns, Townsville & Hervey Bay? (UK)
A: What did your last slave die of?

Q: Can you give me some information about hippo racing in Australia? (USA)
A: A-fri-ca is the big triangle shaped continent south of Europe. Aus-tra-lia is that big island in the middle of the Pacific which does not... oh forget it...Sure; the hippo racing is every Tuesday night in Kings Cross. Come naked.

Q: Which direction is North in Australia? (USA)
A: Face south and then turn 180 degrees. Contact us when you get here and we'll send the rest of the directions.

Q: Can I bring cutlery into Australia? (UK)
A: Why? Just use your fingers like we do.

Q: Can I wear high heels in Australia? (UK)
A: You're a British politician, right?

Q: Are there supermarkets in Sydney and is milk available all year round? (Germany)
A: No, we are a peaceful civilization of vegan hunter/gatherers. Milk is illegal.

Q: Please send a list of all doctors in Australia who can Dispense rattlesnake serum. (USA)
A: Rattlesnakes live in A-meri-ca which is where YOU come from. All Australian snakes are perfectly harmless, can be safely handled and make good pets.

Q: I have a question about a famous animal in Australia, but I forget its name. It's a kind of bear and lives in trees. (USA)
A: It's called a Drop Bear. They are so called because they drop out of Gum trees and eat the brains of anyone walking underneath them. You can scare them off by spraying yourself with human urine before you go out walking.

Q: Do you have perfume in Australia? (France)
A: No, WE don't stink.

Q: I have developed a new product that is the fountain of youth. Can you tell me where I can sell it in Australia? (USA)
A: Anywhere significant numbers of Americans gather.

Q: Can you tell me the regions in Tasmania where the female population is smaller than the male population? (Italy)
A: Yes, gay nightclubs.

Q: Do you celebrate Christmas in Australia? (France)
A: Only at Christmas.

Q: I was in Australia in 1969 on R+R, and I want to contact the girl I dated while I was staying in Kings Cross. Can you help? (USA)
A: Yes, and you will still have to pay her by the hour.

Q: Will I be able to speak English most places I go? (USA)
A: Yes, but you'll have to learn it first

11.6.07

Tuguíadas com concorrência de peso


"(...)
E entre gente remota identificaram
Novo reino, que tanto sublimaram.
"
Aníbal Cavaco Silva, P.R.P., 10/6/MMVII

O Desinfeliz é edificante! O Desinfeliz é um marco na História! De Portugal e da Literatura! O Desinfeliz é a vanguarda, não da classe operária, que está em total declínio e não interessa a ninguém, mas da classe apolítica, que é em si mesma a vanguarda, para não dizer a herdeira, da classe política, também ela inapelavelmente ultrapassada pelo espírito dos tempos.

A classe apolítica, superiormente representada pelo Presidente Aníbal Cavaco Silva, num breve mas elucidativo momento de desinspiração, que não pode senão ter sido inspirado no Desinfeliz, assinalou o 10 de Junho com uma versão alternativa d'Os Lusíadas. Apresentado ao Mundo, incluindo Portugal e as Comunidades Portuguesas, como uma referência a Camões, tratou-se na verdade de um discreto piscar de olhos a'Os Tuguíadas (para não lhe chamar plágio).

Cavaco, um homem mais pragmático e menos auto-limitado que o Desinfeliz, levou a sua versão d'Os Lusíadas mais longe, em termos formais. Tomou liberdades com a métrica, acrescentando uma sílaba, coisa que o Desinfeliz tem tentado evitar. Mas é isso que se espera de um Presidente, e que não se pode exigir a um mero blog: acrescentar qualquer coisa. Para atadinho, já tivemos o Sampaio.

1.6.07

Um bom filme é...


Em querendo, tudo se pode complicar à exaustão. Mas há quem tenha o dom de não o fazer. Há quem use o poder do cérebro para simplificar e não para confusionar, tal como há quem use os dedos para tocar piano e não para tirar macacos do nariz.

Não é o meu caso, como qualquer blogoleitor minimamente atento e isento pode constatar por aí abaixo. Socorro-me, por isso, do poder dos outros. Cito os mestres, tentando apenas respeitá-los, sendo tão fiel às suas palavras quanto me é possivel.

Vamos a um caso concreto. O tema, como o título e a imagem poderão, de alguma forma, indiciar, é Cinema. Em conversas sobre o tema cai-se, por vezes, na questão primordial de saber qual é o critério, se é que o há, para distinguir um bom filme de um filme que não é bom. E, muitas dessas vezes, quando se resvala para a metafísica do cinema albanês ou para a análise semântica do frame contra-picado, não se chega, obviamente, a lado nenhum. Perde-se, quase sempre, a vontade de ir ver o filme que despoletara a conversa e muda-se de assunto. Mas já é tarde de mais, a cabeça já não quer saber de mais assunto nenhum.


Tenho um amigo que por sua vez tem outro amigo (do qual, infelizmente, não sei o nome, para lhe prestar a justíssima homenagem que merece) que tem sobre esse assunto uma visão 100% objectiva. A Lei de X (sendo X o amigo do meu amigo) é simplicíssima. Pode não se concordar com ela, tal como pode não se concordar que o limite máximo de velocidade numa auto-estrada seja de 120 Km/h. Mas é impossível dizer-se que não se entendeu o conceito.

Para contextualizar minimamente a Lei e apreciar simultaneamente a simplicidade cristalina com que se aplica, supunhamos que fomos ver o filme Y. O amigo X não viu o filme. Encontramos o amigo X e dizemos-lhe:

"Fui ver o filme Y. Viste?"

"Não", diz o amigo X. "É um bom filme?"

Aqui, nós, os que não conhecemos o amigo X, sem o saber já nos estamos a aproximar muito da Lei de X. Estamos à beirinha de a conhecer. Seja o que for que dissermos, ele vai enunciá-la, em termos que qualquer imbecil entende. Porque, seja o que for que nos ocorra dizer ou perguntar, só irá no sentido de complicar a questão. E o amigo X não vai por aí. Vamos supor que a nossa pergunta é:

"O que é para ti um bom filme?"

"Tem mamas?", é a questão que o amigo X prontamente coloca.

"Desculpa...?"

"Perguntei-te se tem mamas. Há alguma parte do filme em que se vejam as mamas de uma gaja? Nem que seja só por um bocadinho?"

"Uhh... Não... Acho que não... Por acaso não, mas olha que..."

"Isso não é um bom filme", atalha o amigo X, antes que a gente se ponha para ali a contar o filme todo do princípio ao fim. "Para mim, um bom filme tem que ter mamas. E se não tem mamas, não é um bom filme". Simples, claro, sem duas leituras possíveis.

Não conhecendo pessoalmente o Mestre X, não sei se a conversa terá seguimento, no caso de o filme não cumprir a Lei de X. Duvido. Mas é um poderosíssimo instrumento de medida, um critério universal e aplicável a todo e qualquer género de filme e/ou de espectador. E isso, em certos temas de conversa, pode fazer muita falta.

O bom velho Coutinho é que sabe

Esta apanhei-a numa das tais crónicas do ex-puto João Pereira Coutinho, e é uma das tais provas de que nem tudo na vida tem de ser complicado e/ou relativizado. Há coisas que são como são. Haja quem as diga ou escreva bem e, de preferência, de forma sucinta. Depois haja quem as oiça ou leia, ou seja, quem as divulgue (um puto dos de hoje usaria provavelmente o verbo partilhar, e não o divulgar, mas vai dar no mesmo).

Neste caso, a propósito do valor da conversa, do conversar pela noite e pela própria conversa fora, por oposição ao falar por falar ou só para dizer uma porcaria qualquer, o ex-puto cita um tal Dr Johnson (que humildemente confesso que não conhecia até me ser apresentado na Avenida Paulista pelo bom velho Coutinho; note-se também que, pelo contexto, presumo que o Dr Johnson tenha exposto a sua ideia por alturas do século XVIII, pelo que haverá que introduzir na frase o elemento inflação e ter em conta que a meia-noite de então corresponderia, no mínimo, às nossas 2 ou 3 da manhã):

"Whoever goes to bed before midnight is a rogue".


Sem ir ao dicionário em busca da tradução convencionada para 'rogue' (deixo esse exercício ao estimado blogoleitor) permito-me uma adaptação livre para o português de hoje:

"Um gajo que se deita antes das 2 da manhã é um bandalho".

Ou, tentando recuar ao português dos tempos que presumo terem sido os do Dr Johnson, qualquer coisa como:

"Aquele que recolhe ao leito antes da meia-noite não passa de um biltre".

Simples, conciso e (salvo casos pontuais de estrita imposssibilidade de proceder de outra forma, por qualquer razão de força maior) verdadeiro. Claro que há sempre as excepções que confirmam a regra. Conheço bem, e estimo muito, duas ou três pessoas que gostam de se deitar cedo e que para além disso também são excelentes pessoas, com as quais dá imenso gozo conversar sobre variados assuntos. Por acaso, ou talvez não, não me lembro de nenhuma delas alguma vez ter interrompido uma boa conversa, fosse a que horas fosse, a dizer que lamentava imenso mas estava na altura de ir para a cama.

Mais que uma opinião, o que o Dr Johnson exprime (e o velho Coutinho tão bem relembra e dá a conhecer aos ignorantes como eu) é uma Lei da Vida. Por oposição àquilo que o bom velho O'Neil (o Alexandre, o Grande) poderia ter rotulado como um decreto da vidinha, tudo em minúsculas e no diminutivo mais que perfeito.

31.5.07

Man!


Que o Manchester United é um grande clube, capaz de grandes feitos, ninguém duvidava. Pois se até ao Benfica já ganhou por mais que uma vez... Mas ontem conseguiu surpreender-nos a todos (ou quase) pela positiva.

Estou a imaginar a cena na alfândega, à chegada do par de compradores à velha Albion. "Anything to declare?", "Oh, yes, quite, as a matter of fact we do bring something from Portugal", "And what might that be, if you don't mind my asking?", "Anderson and Nani, I'm afraid", "Beg you pardon?", "Anderson and Nani", "Quite useful to fetch a nanny when you have another son, to be sure...".

Entretanto, por cá, toda a gente (ou quase) fica satisfeita, do Real Clube de Massamá ao tesoureiro do FCP, passando pelo congénere do SCP (neste caso, em perfeita sintonia com a maioria dos sócios e restantes adeptos), pela família e amigos do Nani e/ou do dinheiro do Nani, pela generalidade dos médios defensivos, trincos, centrais, laterais e outros que tais, que antevêem uma época ligeiramente mais tranquila...

Com um arranque destes, o mínimo que se pode esperar é que a corrida às contratações traga ainda mais alegrias ao povo. E ainda há por aí muito para levar: o Pepe, o Lucho, o Quaresma, o Veloso, o Moutinho, o Derlei, o Moretto... mercadoria é o que não falta, para todos os gostos e posições. Assim haja ingleses, americanos, russos, árabes ou chineses que comprem e levem.

Eu, por mim, declaro-me satisfeito.

28.5.07

De puto a velho em meia dúzia de páginas


Um puto. Um autêntico puto. Como chamar outra coisa a alguém que nasceu em 1976? Não vou dizer que podia ser meu filho, porque em 1975/76 a minha vida social ainda não tinha atingido esse patamar. Mas não seria biologicamente impossível.

Claro que podia chamar-lhe simplesmente João Pereira Coutinho, sem o puto (que, mesmo assim, não seria do pior que lhe têm chamado). Confesso que, apesar ou talvez por causa das diferenças (geracionais e ideológicas, por exemplo), nunca desgostei de o ler. Antes pelo contrário. Mas também não andava para aí doido a ler tudo e mais alguma coisa do puto, nem entrava em depressão se perdesse uma ou duas dezenas de colunas. Achava piada ao puto, pronto.

Mas confesso que não esperava lê-lo e sentir-me, subitamente, identificado com ele. Com o puto. Então não é que, lá pelo meio da Avenida Paulista (que a Sábado ofereceu, e que é uma colectânea de crónicas publicadas na Folha de São Paulo, ou seja, como prometido pela publicidade, inéditos para o leitor tuga como eu), o puto se revela um verdadeiro e profundo apreciador de P. G. Wodehouse, esse Mestre entre os mestres, que tantas vezes ajudou a iluminar os últimos estertores da minha adolescência e os primeiros e titubeantes passos na idade adulta (ou seja, até hoje)?



Agora, ainda a meio da Avenida Paulista, já me sinto a ler um livro do bom e velho Pereira Coutinho. Righty-ho e what not, João.

21.5.07

Há que dar os parabéns ao campeão

Já era expectável, mas houve que esperar mesmo pela última jornada para a confirmação. Agora não há outra hipótese que não seja aplicar os mais elementares princípios do fair-play:
Parabéns, Leixões.