"Pode ser que sim. Pode ser que não. Não posso garantir." - in Astérix, A Volta à Gália

18.5.07

Este já está



Isto da net em geral e dos blogues em particular e de uma pessoa aproveitar essas maravilhas dos nossos dias para dizer o que realmente quer, isso tudo tem que se lhe diga. Então não é que, pelos meus anos, alguém me ofereceu mesmo os Filhos de Húrin?

Quem, por esta altura, se achar demasiado fora de jogo, é favor descer um pouco por aí abaixo e ver, nem que seja de relance e na diagonal, um post anterior intitulado Ler ou não ler, comprar ou não comprar...

A história, não tendo mudado, não está nada mal cosida (1 ponto para Christopher). Deu-me até a ideia de estar um pouco aligeirada (não no sentido mais semântico mas no sentido mais literal, ou seja, contada em menos palavras e eventualmente num estilo um pouquinho mais upbeat e uptodate; o que, a ser verdade, retira o tal ponto já atribuído a Christopher, no meu entender, mas posssivelmente acrescenta-lhe mais 2 ou 3 pontos no entender de quem esteja a ler a história pela primeira vez e nunca a tenha visto mais au naturel).



O preço (versão em inglês, Harper Collins, capa dura, €24,75) também tem que se lhe diga. A mesmíssima coisa que eu tinha visto na Fnac (tradução, Europa-América, capa mole) custa agora 22 euros e picos. Pelos vistos, passei ao lado de uma pechincha, até porque aquilo era uma série numerada e tudo... Mas onde eu quero chegar é aqui: se a edição inglesa de capa dura chega cá a 2 euros mais que a local de capa mole, quanto mais será preciso roubarem-nos até que o povo se revolte e defenestre alguém ou deixe pura e simplesmente de reciclar embalagens, pagar impostos e fazer pisca-pisca (os tontos como eu, que fazem essas coisas)?

Quanto ao velho Túrin propriamente dito, foi com algum prazer que o reencontrei nas suas atribuladas e literalmente malditas vidas. Master of doom, by doom mastered. Não sei se, no vastíssimo universo Tolkieniano, não será o personagem com mais cognomes, heterónimos e nicknames. Para além do Turambar, que me estava bem agarrado aos neurónios, ele é o Adanedhel, ele é o Agarwaen, ele é o Bloodstained, ele é o Dread Helm, ele é o Gorthol, ele é o Neithan, ele é o Mormegil (o meu favorito pessoal), ele é o Wildman of the Woods, ele é o The Wronged, ele é o Bane of Glaurung, ele é o The Black Sword... (Não se aceitam reclamações de puristas a dizer que há aqui repetições do mesmo nome em línguas diferentes. Eu é que escrevo isto e faço como eu quero.) Claro que, em comparação, a desgraçada da irmã faz fraquíssima figura, com apenas o nome de nascença (Nienor) e um posteriormente adquirido (Níniel).

Eu, nem que seja a mim próprio, recomendo. Agora que se acabou vou continuar com something completely different que já andava a ler: o velho Rushdie, com o seu Shalimar the Clown. Do bom e do melhor.

13.5.07

A primeira Liga agradece


Leixões e Vitória de Guimarães, dois clubes com essa coisa rara que é terem adeptos próprios, que vão ver os jogos e tudo (mesmo quando aterram nos escalões secundários durante um ano ou durante dezoito), garantiram a subida à primeira. Matosinhos e Guimarães estão em festa a esta hora. E bem merecem.
A Liga, chame-se ela como se chamar para o ano, só tem a agradecer. Como cumpre sublinhar, o Olhanense contribuíu com a sua quota-parte para este belíssimo passo para a modalidade em Portugal, ao espetar 2 ao Rio Ave no José Arcanjo. A Vila da Restauração, com o tal dedinho de Álvaro Magalhães, fez o seu dever e cada golo rubro-negro foi festejado em Gondomar e em Moscavide (pelos adeptos do Vitória e do Leixões) como raras vezes se comemora seja o que for nos estádios da primeira Liga, por falta de quórum.
Três grandes clubes, dois dos quais de volta ao seu elemento natural cajuda do terceiro. É bonito, senhores, é bonito.

9.5.07

TROFENSE, 0 - OLHANENSE, 1



O "onze" comandado por Álvaro Magalhães garantiu a manutenção ao vencer no terreno de um adversário directo com quem ficará em vantagem em caso de empate pontual. Djalmir foi o autor do golo da vitória, a sete minutos do final, marcando o décimo primeiro da temporada na sua conta pessoal.

E assim se quebra um longo silêncio. E logo com boas notícias, quem diria. E começando mais que uma frase com o famigerado E. E tantas vezes que me disseram para evitar isto.

E por falar nisso: lembrei-me de um anúncio que anda ou andou recentemente aí pelos ares radiofónicos, que recorria justamente ao artifício da repetição da partícula E, para promover um e-service ou um e-mail ou um e-qualquer coisa. E a propósito desse, do qual só haveria a dizer bem, lembrei-me agora de um outro que grassa também nas ondas (nas da TSF, pelo menos) e que parte da equação do Einstein (essa, a do E=mc2), para chegar a uma nova fórmula: A=mt3, ou seja, A igual a m.t. ao cubo, o que depois, trocado por miúdos, dá A de Avis = milhas na Tap vezes 3. Vezes 3, note-se. Poderá não levar nenhum prémio em Cannes, mas uma equação em que o cubo passa a equivaler ao triplo não passará certamente despercebida ao pessoal do Nobel, ou das Olimpíadas da Matemática.

E prontos. Desinfelizmente, ou não, não me ocorre mais nada.

30.4.07

Ganhar em casa é sempre melhor


Foi o que fez o Olhanense. 3 a 1 ao Estoril. E já só falta um miserável pontinho para assegurar o objectivo (a manutenção). Simples, não é? Simples e algo contrastante com outras coisas que se vão vendo por aí, noutros palcos, e que nem dá vontade nenhuma de aprofundar.

18.4.07

O Desinfeliz errou



A estâncias 95 dos Tuguíadas havia um erro. Não quero com isto dizer que os Tuguíadas não sejam, na sua totalidade, um erro. Seria talvez presunçoso, na medida em que lhes estaria a atribuir um mínimo de relevância, que provavelmente não têm nem terão, e que, em boa verdade se diga, pouca falta lhes faz.

Os Tuguíadas, quais rosas, são os Tuguíadas são os Tuguíadas. Mas, tanto quanto possível, sem erros menores do género do que acabei de corrigir a estâncias 95 do Canto I (também conhecido nos mentideros por Canto Único).

Não vou fazer de conta que foi a Edite Estrela, ou o Pacheco Pereira, ou o Maradona, ou um descendente do Camões, ou o 24 Horas, ou mesmo o gabinete de comunicação do Primeiro-Ministro, que detectou o dito erro. Por muito que isso custe a estes e outros vultos e/ou entidades, fui eu próprio que me vi obrigado a dar com o gato e, logicamente, a emendá-lo.

Vem isto a despropósito de uma dúvida que me tem como que atormentado desde que me meti nisto dos Tuguíadas. Diz-se* que, algures no meio d'Os Lusíadas, há um verso errado, um verso que não rima ou que não bate certo na métrica, ou coisa que o valha. A dúvida que como que me atormenta é: a existir esse erro, os Tuguíadas deverão respeitá-lo ou corrigi-lo?

Perante a Obra e o Mestre, qual será o maior desrespeito? Copiar em tudo, até no erro, ou cair na tentação de o corrigir, que mais não é que uma ilusão de o superar nem que seja num mínimo detalhe? Não me é estranha a teoria do erro propositado, muitas vezes usada para 'explicar' os supostos 'erros' dos Mozarts ou outros génios. Nessa teoria, que tem o seu quê de Danbrownesco, o erro será a forma de o genial artista demonstrar a sua falibilidade, a sua mortalidade, a sua condição humana, imperfeita, não-divina.

Moral do post: se e quando descobrir o tal afamado erro d'Os Lusíadas, os Tuguíadas respeitá-lo-ão, ou não, consoante a ocasião.

* A fonte deste 'diz-se' há-de ser um prefácio de uma edição qualquer d'Os Lusíadas. Se alguém se interessasse ao ponto de querer saber ao certo, talvez eu me desse ao trabalho de procurar. Mas não garanto.

17.4.07

Ler ou não ler, comprar ou não comprar, eis as questões


Saíu hoje, se não me engano. Já o vi (na Fnac, a 20 euros e 7 cêntimos) e não o comprei por várias razões: os 7 cêntimos, claro; o facto de ser a versão portuguesa (Europa-América, ainda por cima); o facto de que já li esta história umas três vezes em outros tantos contributos do filho para a divulgação da obra do pai e vice-versa (Silmarillion, Unfinished Tales, The Book of Lost Tales - The History of Middle-earth, vol. II).

A história, em qualquer das versões, é forte e rica, para não lhe chamar densa. O personagem central, Túrin (o homem das mil alcunhas, das quais a única que me ficou foi Turambar) é um cromo dos mais difíceis que imaginar se possa. Comparadas com a vida deste sujeito, as noções de mau-fado e maldição são demasiado benignas. O destino do homem não é pesado nem pesadíssimo, é um pesadelo.

A questão é: conhecendo já três versões diferentes, valerá a pena comprar a quarta? Neste caso, a promessa de Christopher é de eliminar as contradições entre as várias versões quase em bruto que já foi publicando, acrescentando apenas as estritas e necessárias ligações para formar um todo coerente. O exemplo do Silmarillion leva-me a acreditar na promessa. As ilustrações do Alan Lee valem sempre a pena. Sendo eu um releitor quase compulsivo e provavelmente incorrigível, o mais natural seria dar por mim, um destes dias, a reler uma das tais versões em bruto. Ou seja: pelos vistos a questão está resolvida. É de comprar. Em inglês, naturalmente (só acrescento este pormenor porque, a comprar, não é obrigatório que seja eu a fazê-lo e, estando o meu aniversário já relativamente próximo, pode sempre haver quem esteja na dúvida entre o after-shave, a peúga e o Tolkien...).

16.4.07

Perder em casa é pior que empatar


Refiro-me, por enquanto, ao Olhanense. Ontem foi com o Leixões, ó *+#"%*!!! Derivado a estes e outros desideratos, infortúnios e afazeres (alguns dos quais de natureza turística, no plano interno, é certo, mas que mesmo assim afastam um desinfeliz dos seus teclados de estimação) este blog tem primado pelo recato. Pode ser que lhe passe brevemente, pode ser que não, não se pode garantir. Sá dê pã, como dizem os frogs.

2.4.07

Empatar em casa é melhor que perder




Estou a falar do Olhanense, claro, mas também de um modo mais geral. Noutro caso que pode vir à mente, não sei mesmo se o empate não se poderá vir a revelar melhor que a sacrossanta vitória. Essa conversa de que é muito bom uma equipa só depender dela própria não é uma verdade absoluta. Pelo que tenho visto do Benfica este ano, acho que é bem preferível ficar a depender também de outras equipas. Quanto ao Olhanense é que não me posso pronunciar muito, porque não tenho visto, mas ali onde está, na zona média-baixa da tabela, não me parece terrível.

22.3.07

Tuguíadas I, 103/106 (é o fim!) (do Canto Primeiro...)


Nessa equipa, entretanto reforçada,
Gente nova e famosa refulgia,
Entre outra que ficou mais olvidada:
Rui Costa, pelo Fafe, quem diria!
Penafiel, de fraca nomeada,
O bicho Jorge Costa defendia;
Do Porto não faltava a mocidade
De azul e branco, cores da cidade:

Toni, Tulipa e Cao — trio marado!
Nelson, que do Salgueiros então era,
Capucho (Gil Vicente) e o mais dotado
Luís Figo, bandeira da cantera
De Alvalade, que tanto nos tem dado.
Rui Bento, Gil, Abel de Xaviera,
Que o Benfica inda não representara,
Paulo Torres, fortíssimo dispara!


Tó, do Famalicão, e seus amigos,
Luís Miguel, do Rio Ave o mais esperto,
João Oliveira Pinto, dos antigos
Operários do Atlético, mais perto.
Por grandes ou por graves, os castigos
Que a vida após lhes tenha descoberto,
Naquele dia a mais louca esperança
Sorriu-lhes, carregada de bonança!

Saíu por cima, enfim, o lusitano
Perfume da jogada mais corrida!
Sobre este Canto cai agora o pano
(Boas novas, ó gente aborrecida!).
Faltam nove, se não muito me engano,
Para que a versalhada concluída
Seja, assim fora eu capaz do pleno:
Acabar este feito despequeno!

(...)

Nota: Ontem, por respeito ao Dia da Poesia, decidi guardar isto para hoje e assinalar também, com ligeiro atraso, o Dia do Pai. Usei as palavras do meu, que tantas vezes tanta falta me fazem.

21.3.07

Os mortos perguntam

Nos rumos perdidos dos ventos trocados,
Todos os rumos,
Nos fundos das piras dos mortos cremados,
Todos os fumos
de todas as piras...

Nas iras dos mares
Que beberam sangue
Todas as iras...

Na ânsia enlutada de todos os lares
Vazios de esperança
Todas as ânsias
De todos os lares...

Nos sexos sangrentos das virgens violadas
Os farrapos
a sangrar
De todos os sonhos que homens sonharam
E homens violaram...

Em todas as dores dos vivos da terra
todas as dores dos mortos da guerra...

E os rumos perdidos
e os corpos ardidos,
e as iras inúteis,
e as ânsias caladas,
E os sonhos, sujos como vidas de virgens violadas,
E todas as dores
de todos os mortos que a guerra matou,
e todos os lutos
de todos os vivos
que a guerra enlutou,
Perguntam,
perguntam,
perguntam
a todos os ventos
a todos os mares
às roupas de luto de todos os lares,
Se valeu a pena...

... Os mortos perguntam...
Mas os ventos trocam-se,
o mar não serena,
as viúvas continuam a chorar,
e os mortos não páram de perguntar
se valeu a pena...

... Mas a esperança é longa
é bela de agarrar no fundo dos martírios...

Os mortos perguntam,
Os mortos protestam...
... Irmãos, os braços são magros,
mas longos,
Longos da ânsia de querer...
... A pergunta é grande e a força é pequena,
mas só nós podemos, Irmãos, responder,
Se valeu a pena...

António Neto, 1948

20.3.07

Underson


Então não é que um homem lá acaba por se decidir a ir à Reboleira e vem este indivíduo desassossegar os músculos cardíacos de toda a gente? Valeu o outro personagem, quem diria. Luisão: volta depressa que há um Luizinho à tua espera na zaga e um lugar no banco à espera do Underson. Adepto sofre...

18.3.07

O tempora, o mores

Alguém me conseguirá explicar o que faz este fulano (para não lhe chamar indivíduo)


no lugar que já foi deste Homem


e deste senhor?


De tempos que eu me lembre como gente (ou seja, de Zé Gato, e já muito vagamente, em diante), só encontro um possível termo de comparação com o fulano: esse mesmo, o Bossio. Qualquer irmã ou tia-avó do Silvino, do Neno, do Enke, do Moreira, do Quim ou do Nereu (com as devidas desculpas a algum que me esteja a faltar de momento), dava mais sossego ao adepto que este criaturo (para não lhe chamar energúmeno). A única hipótese que me ocorre tem a ver com isto passar-se numa liga patrocinada por uma casa de apostas (hipótese que se aplica por maioria de razão às competições europeias, entregues à máfia propriamente dita, sob a designação de UEFA).

E o que é que leva um homem a considerar a hipótese de ir à Reboleira com aquilo (para não lhe chamar isto) entre os postes? Nós, os adeptos, somos loucos.

15.3.07

Tuguíadas I, 101/102


Um alfinete a mais já não cabendo,
São milhares co’a vida por diante,
Dando luz às bancadas, e sofrendo,
Nas entranhas, até, em cada instante,
O empate ou resultado mais horrendo.
Foi d’ouro, a geração, ou diamante
(Que corta, como vidro, a outra gente
Costumada aos triunfos, longamente)?

A glória se viveu por mais um dia:
No rubro estádio a festa começava,
Pelas ruas e praças se estendia,
P’lo continente e Ilhas se espraiava.
Do Mundo todo a taça reerguia.
A turma que Queirós bem comandava,
Duas vezes seguidas vencedora,
E a segunda na Luz, que nos adora.

(...)

12.3.07

Oh Lord won't you buy me a Mercedes-Benz?


Hoje este senhor faz anos. Parabéns (especialmente aos lucky few que tenham um, caso em que, no entanto, os sentimentos da inveja se podem sobrepor aos parabéns). Caso Deus exista e esteja sem saber o que me dar nos anos, aqui fica a sugestão. Caso Deus, a existir, não se lembre já do que criou em 1952, aqui fica a referência: Mercedes 300 SL.

9.3.07

Tuguíadas I, 99/100


A semente, regada, bem germina,
E repete o que o povo agora pede.
A mesma geração, ‘inda menina,
Na Luz a lotação agora excede:
São cento e trinta mil, ao que imagina,
Quem contar já não pode, já não mede.
Na final o Brasil a taça clama
Perante a lusa mão qu’ela reclama.


Termina sem vitória nem derrota
A contenda, aos noventa, prolongada
Por mais trinta, mas sem digna de nota
Bola nas redes bem encafuada.
Pr’ós penáltis prepara a sua bota
Quem tal carga lhe vê ser confiada.
E enquanto que o Brasil só dois metia
C’o dobro Portugal os mataria.


(...)

Pérolas Vermelhas (X)



"Dzhh! Dzhh! Dzhh..." Terão sido estas as últimas palavras de Estaline, na sequência de um badagaio de índole cardíaca que o deixou prostrado durante horas sem que ninguém se atrevesse sequer a ir ver o que é que se passava.

Quando, passadas essas horas, alguém sentiu o medo de não ir ver sobrepor-se ao medo de ir ver, o que viu foi o Ti Zé no chão, em pijama bastante urinado, contorcendo-se a custo e dizendo, apenas, "Dzzhh! Dzhh...". Seguiram-se mais uma carrada de horas, durante as quais o círculo mais próximo do Grande e Estrebuchante Líder procurava decidir o que fazer, para além de pegar no Ti Zé e deitá-lo no sofá da sala onde se encontrava.

Aquilo que noutras circunstâncias e com outras pessoas seria uma acção automática — chamar um médico — foi um dilema muito difícil de ultrapassar. Naquela altura, estava em curso uma purga sistemática da classe médica. Os médicos reconhecidamente mais competentes estavam acusados, presos, degredados e por aí fora. E todos eles, pelo facto de serem médicos, estavam sob suspeita. Havia um certo receio entre os potentados de que o Ti Zé, a reagir, reagisse mal ao simples facto de ver um médico por perto.

Entre todas as versões possíveis e imaginárias, do envenenamento à passividade propositada, a que surge como mais plausível da leitura do Montefiore* é talvez a mais simples e a mais terrível: medo. Medo de Estaline, ainda que visivelmente nas últimas, medo uns dos outros, medo puro, desmedido e entranhado.

The End - Koniec - Dzhh

* Relembro que todas estas pérolas são retiradas de Estaline, A Corte do Czar Vermelho, de Simon Sebag Montefiore.

6.3.07

Hoje somos todos portugueses


E o nosso coração só tem uma cor: azul e branco.

Ausência

O Desinfeliz tem estado calado. Há uma razão para um longo, pesado, sentido e singelo minuto desse silêncio.

28.2.07

Pérolas Vermelhas (IX)


Para hoje, seleccionei três pratos. Uma entrada ligeira, uma fortíssima pièce de résistance e uma saída comparativamente doce e airosa.

Para começar, temos Avô de Putin au naturel. Pois é. O avô do actual presidente russo, Vladimir Vladimirovitch Putin, foi chefe de cozinha numa das casas de Estaline. Segundo o neto, o Chef Putin nunca lhe revelou fosse o que fosse sobre esses episódios: "O meu avô mantinha um grande segredo a respeito da sua vida passada". O que é pena porque, antes de confeccionar as pantagruélicas jantaradas do Ti Zé, o Vovô Putin já tinha cozinhado para Lenine. E antes, ainda rapaz, tinha servido o próprio do Rasputine. Há que compreender que o segredo pode muito bem ter sido a alma da longevidade do homem, mas umas memórias deste Mestre dariam certamente umas centenas de páginas suculentas.

Agora, com os devidos avisos aos estômagos mais sensíveis, passamos ao prato principal, à base de carnes batidas e miolos fritos. A dada altura, o pequeno Iezhov supervisava os torturadores, que tinham um jargão próprio para o seu métier, do qual se pode destacar a "luta livre francesa" (frantsuskaya borba, no original), substantivo genérico para a modalidade ou processo de destruição de um ser humano inocente. Quando alguns destes rapazes foram por sua vez interrogados, uns anitos mais tarde, explicaram em detalhe como usavam o zhguti, o taco especial, e o dubenka, ou seja, o bom, velho e simples cacete, bem como as tradicionalíssimas privações do sono e os interrogatórios constantes, a que davam o nick de tapete rolante. A respeito destas sessões, Kaganovitch achava "muito difícil não ser cruel: é preciso ter em consideração que se tratava de Velhos Bolcheviques empedernidos; como poderiam testemunhar voluntariamente?". O sempiterno Molotov sublinha que "o Politburo estava cheio de gangsters". Salvo grandessíssimo erro da minha parte, o Molotov era um dos ingredientes do Politburo...


Para sobremesa, nada como uma apetitosa e calórica dacha. Estas casinhas, que nem sempre eram tão humildes ou rústicas como eu supunha, eram um item muito pretendido entre os potentados do regime (não sei porquê, a palavra dacha sempre me evocou na mente umas cabanitas simplórias e proletárias, mas havia de tudo, desde o antigo palacete recuperado à novíssima vivenda assinada por arquitecto certificado). Vichinski, por exemplo, sempre cobiçara a dacha de Leonid Serebriakov. No âmbito do julgamento de um outro fulano (Radek), Vichinski interrogou e acusou Serebriakov (vá-se lá saber de quê). Tendo o julgamento produzido os efeitos pretendidos, Vichinski exigiu a citada dacha para seu uso, conseguindo inclusivamente ser reembolsado pela sua antiga casa e receber um subsídio de 600.000 rublos para restaurar a 'nova'. Depois da morte do Ti Zé, a família Serebriakov conseguiu reaver metade das propriedades que lhes tinham sido confiscadas, mas os Vichinski conservaram a outra metade. Assim, em 2002, 60 anos depois de o pai ter sido fuzilado por ordem do vizinho, os Serebriakov passavam os seus fins-de-semana paredes-meias com os Vichinski.

De então para cá, não tenho mais notícias que sirvam de café ou de digestivo. À laia de ilustrações, o menú do dia é abrilhantado, não necessariamente por esta ordem, por Vichinski e Putin (o neto, que o avô não se encontra no google com facilidade).

27.2.07

Pérolas Vermelhas (VIII)

Tal como já se havia aqui mencionado muito en passant, o revisionismo histórico-fotográfico era uma das grandes especialidades da casa do Ti Zé. E sem photoshops a ajudar, tudo à unha.


Claro que os artistas mais consagrados estariam ao serviço do Pravda e de outras instituições, mas mesmo ao nível privado havia quem exercitasse os seus dotes de apagador de indesejáveis. Em casa de Anastas Mikoian, homem do núcleo duro que se aguentou até aos tempos de Khrushchev, habitava um jovem de nome Sergei Shaumian que ia sempre actualizando cuidadosamente os álbuns de fotografias da família, apagando todos os Inimigos à medida que iam sendo presos e executados.

Claro que o critério para definir os Inimigos era bastante abrangente. As pessoas eram presas, torturadas, deportadas ou, de preferência, mortas, não pelo que tinham feito, mas essencialmente pelo que poderiam fazer. Molotov explica: "O principal era que, no momento decisivo, não se podia confiar neles. Assinei a maior parte — na realidade todas — das listas de detenções. Debatíamos e tomávamos uma decisão. Havia sempre uma enorme pressa. Como seria possível entrar em todos os pormenores? Por vezes, eram pessoas inocentes. Obviamente, uma ou duas em cada dez foram detidas sem motivo, mas as restantes por boas razões" (num só dia, chegaram a ser aprovadas 3167 execuções). Estaline também não deixa grande lugar a dúvidas: "Um Inimigo do Povo não é só aquele que faz sabotagem, mas também aquele que duvida da justeza da linha do partido. E são muitos, e temos de liquidá-los". E Bukharine eleva o nível do discurso: "Há qualquer coisa de grande e ousado na ideia política de uma purga geral, (porque) fará nascer uma desconfiança perpétua (...). Deste modo, a liderança está a obter uma garantia plena para si mesma".


No seu livro A Casa do Cais, um tal de Trifonov relata como todas as manhãs o porteiro uniformizado da dita casa (um monstrengo à beira-rio, não muito longe do Kremlin, habitado por boa parte da nomenklatura, comissários do povo, Khrushchev incluído, e parentela de Estaline) comunicava aos moradores quem fora preso durante a noite. Para além do photoshop, ainda faltava o e-mail para tudo se fazer com mais comodidade.

Os bigodes do dia são de Mikoian e Molotov.

20.2.07

Pérolas Vermelhas (VII)



Ti Zé no seu melhor, em conversa com Chou En-lai, defendendo a tese de que os norte-coreanos poderiam continuar a lutar indefinidamente, de preferência sem apoio soviético e a expensas diplomáticas da China: "Eles não têm nada a perder, excepto homens". Poder de síntese absoluto .

16.2.07

E agora, au naturel

Ready, steady, go.

A melhor banda do mundo dá para tudo

Entre muitos outros pormenores maos, é pena o erro num dos melhores versos (que são do Allen Ginsberg, que é o tipo que se ouve sem ser o Strummer, by the way).

Once fate had a witness, and the years seemed like friends...

Pode não se gostar de ver, mas sabe bem ouvir. Apresentados de modo algo desinfeliz, ainda assim, cá vão eles: The Ghetto Princes of Gutter Poets.

Com boa música, tudo se faz

A maior banda do mundo, aqui só a servir de banda sonora a outro artista.

14.2.07

Pérolas Vermelhas (VI)


Tarde e más horas, o Ti Zé apercebeu-se da importância de ter A Bomba. A guerra estava nos finzinhos, já só faltava mesmo acabar de vez com os japoneses e repartir os despojos (repartir o estritamente indispensável...), e eis que Master Moustachov se apercebe, finalmente, de que a União Soviética tem de correr e bem para conseguir chegar à Bomba em tempo útil.

Vai de arranjar um nome de código a condizer com a importância e premência do projecto (Tarefa Número Um, nada que deixasse grande lugar a dúvidas), vai de nomear o camarada Béria para dirigir o projecto e vai de dar à coisa uma escala russa: qualquer coisa entre 330.000 a 460.000 pessoas, entre as quais 10.000 cientistas e outros técnicos, entre os quais avultava o físico Igor Kurtchatov (Nobel das Barbas, no mínimo).


Béria controlava esta maltósia nas charachkis, umas prisões especialmente concebidas para especialistas técnicos, que Soljenitsine descreve em O Primeiro Círculo. Quando algum dos envolvidos sugeria que talvez pudesse trabalhar melhor em liberdade, Béria, a quem não faltava o sentido de humor, contrapunha: "Não duvido, mas seria perigoso. O trânsito nas ruas é uma loucura, e podia ser atropelado".

Estaline, a quem a ciência aborrecia mas que ainda não estava completamente gagá e não perdia de vista o lado prático das coisas, acreditava num equilíbrio entre ameaças e mimos para pôr os cientistas a render: "Deixem-nos em paz. Podemos sempre fuzilá-los mais tarde".

13.2.07

Pérolas Vermelhas (V)


Hoje em destaque temos o camarada Lazar Kaganovitch, a.k.a. Lazar de Ferro, o ferroviário-mor do imenso país do sovietes. O responsável pela CP da CCCP.

Em parceria com um sujeito chamado Leonid Utesov, escreveu um manual intitulado Como Organizar Conjuntos de Canto e Dança e Orquestras de Jazz nos Caminhos-de-Ferro. A páginas tantas, o manual decretava a necessidade de constituir, implementar e manter em acção uma banda de dzhaz em cada estação de comboios soviética.

Há que reconhecer que sempre seria melhor do que os Mários Matas dos corredores do metro ou que os ceguinhos do acordeão, não desfazendo.

Humor lá de baixo

Peço desculpa a todos e cada um dos desinfelizes clientes, pois o que se segue é na realidade um forward que provavelmente já toda a gente terá visto. Só que eu não, e achei piada. Para não correr riscos desnecessários resolvi fugir das traduções e deixar no original, introduzindo apenas uma ligeiríssima correcção no nome da companhia aérea, que vem referida como Quantas. Deve ser o resultado da passagem do mail pela Reckitt...


According to the story, after every Qantas Airlines flight the pilots complete a 'gripe sheet' report, which conveys to the ground crew engineers any mechanical problems on the aircraft during the flight. The engineer reads the form, corrects the problem, and then writes details of action taken on the lower section of the form for the pilot to review before the next flight. It is clear from the examples below that ground crew engineers have a keen sense of humor - these are supposedly real extracts from gripe forms completed by pilots with the solution responses by the engineers. Incidentally, Qantas has the best safety record of all the world's major airlines.

(1 = The problem logged by the pilot.) (2 = The solution and action taken by the mechanics.)
1) Left inside main tire almost needs replacement.
2) Almost replaced left inside main tire.
1) Something loose in cockpit.
2) Something tightened in cockpit.
1) Dead bugs on windshield.
2) Live bugs on back-order.
1) Evidence of leak on right main landing gear.
2) Evidence removed.
1) DME volume unbelievably loud.
2) DME volume set to more believable level.
1) IFF inoperative.
2) IFF always inoperative in OFF mode.
1) Suspected crack in windshield.
2) Suspect you're right.
1) Number 3 engine missing.
2) Engine found on right wing after brief search.
1) Aircraft handles funny.
2) Aircraft warned to straighten up, fly right, and be serious.
1) Target radar hums.
2) Reprogrammed target radar with lyrics.

12.2.07

É a vida

O que se passou nestes dois últimos dias foi apenas um fim-de-semana. O que se passou na Póvoa não foi o fim do mundo e o que se passou no referendo não foi o fim da vida.

A magia da Taça de Portugal mantém-se intacta, e isso é sempre bonito de se constatar (o próprio item que desaparece perante a multidão, no passe de mágica, tem de ter a humildade e o fair-play de reconhecer que a multidão quer ver é o desaparecimento, e não o item em si - seja ele um avião, uma partenaire semi-descascada ou um Sport Lisboa e Benfica). Aliás, tomando em conta os equipamentos, o escalão em que milita, a solidez com que defende, a qualidade do guarda-redes e o veneno com que ataca, com uma linha avançada 100% constituída por internacionais, ninguém me tira da cabeça que aquilo era a Juventus, e não o Varzim. Acresce a isto, como atenuante à derrota do Benfica, que o mesmo já tinha sucedido a outros grandes do futebol português, como o Olhanense e não só. Mais: não tendo o Benfica, manifestamente, equipa para três frentes, que se lixe a Taça, começando pela de Portugal.

Quanto ao referendo, ao contrário do que as turminhas do não defendem sempre que se fala nesta questão, não era a vida que estava em causa. Nem a dos embriões a que a pergunta se referia, nem a dos fetos que se lhes seguem no normal decurso de uma gestação saudável, nem a dos queriduchos e irresistíveis bebés fotografados ou filmados após meses de mimos e boa nutrição, nem sequer a Vida em geral. A questão era, muito simplesmente, o que fazer com as mulheres que por qualquer razão recorram (ou sejam suspeitas de recorrer) ao aborto. O fantástico e nunca antes visto número do 'Vota não para que depois sim', do 'Não votes sim porque senão', do 'Não, por acaso, assim, concretamente e tal e qual desta maneira, não pode ser, bastava ser um nadinha ao lado e já estávamos de acordo', esse número era de facto mirabolante mas... não resultou.

Uma vez mais, a tugolândia mostrou que não anda por aí no dia-a-dia a desperdiçar o seu bom senso, a sua capacidade de análise e o seu condão de fazer coisas adequadas às situações e susceptíveis de melhorar alguma coisa na sociedade. A tugolândia prefere manter o nonsense quotidiano e guardar essa sabedoria para os dias das eleições. Antes isso, é o que se me oferece dizer.

Claro que, no plano puramente pessoal, são duas derrotas para o Engenheiro Fernando Santos num só fim-de-semana. Mas é a vida. Nem mais, nem menos.

6.2.07

Pérolas Vermelhas (IV)


O cromo de hoje é tão difícil que o Google não me consegue arranjar nenhuma foto. Acudia pelo nome de Aleksandr Nikolaevich Poskrebichev. E acudia depressa, pois era o chefe de gabinete do Ti Zé. À falta de foto temos várias descrições de contemporâneos, em que a palavra simiesco surge com regularidade. Ainda assim, Poskrebichev era casado com uma belíssima polaca. Dizia ela, na reinação, que o marido era tão feio que só conseguia ir para a cama com ele às escuras. O próprio não era cego, nem tinha falta de espelhos em casa. E não se orgulhava menos da sua fealdade do que da lealdade ao Vozhd. Dizia que Estaline o escolhera precisamente pelo seu aspecto assustador.


Talvez para compensar o impacto visual negativo que provocava, Poskrevichev desempenhava alegremente o papel de bobo da corte. Estaline desafiava-o a beber um copo de vodka de um só trago, sem um golito de água que fosse para ajudar. Ou então a ver quanto tempo conseguia manter as mãos levantadas com um pedaço de papel a arder debaixo de cada unha. "Vejam! O Sacha consegue beber um copo de vodka sem sequer franzir o nariz!", deliciava-se Estaline. Em não se estando a matar uns aos outros, sabiam divertir-se, estes sovietes.

5.2.07

Pérolas Vermelhas (III)


Este cromo, que dava pelo nome de Iagoda, foi um dos primeiros responsáveis pelo NKVD, a secreta dos bolchies.

Quando caíu em desgraça (o terreno era particularmente escorregadio e não faltavam mãos amigas a empurrar, como as dos já referidos Béria e Iezhov), as suas residências foram devidamente vasculhadas. Eis uma parte do inventário das buscas aos dois apartamentos no centro de Moscovo e uma dacha:

3094 fotografias e 11 filmes pornográficos, 9 casacos de senhora estrangeiros, 4 casacos de pele de esquilo, 3 capas de pele de foca, 1 capa de astracã, 31 pares de sapatos de senhora, 91 boinas de senhora, 22 chapéus de senhora, 130 pares de meias de seda estrangeiras, 10 cintos de senhora, 13 malas de mão, 11 fatos de senhora, 57 blusas, 69 camisas de noite, 31 coletes de senhora, 70 pares de meias de seda nacionais, 4 xailes de seda, 1 colecção de cachimbos e boquilhas com motivos pornográficos, 1 pénis artificial de borracha, 2 balas etiquetadas "Zinoviev" e Kamenev".

O pequeno Iezhov deve ter achado estes dois últimos artigos de bom gosto, pois fez questão de ficar com eles e guardá-los na sua própria casa. Note-se que os nomes inscritos nas etiquetas não indicavam o destino das balas, e sim a sua proveniência.

31.1.07

Pérolas Vermelhas (II)

Para que os mais desinformados não fiquem a pensar que o Béria era um daqueles cães que ladram muito e mordem pouco, aqui fica um dos pontos altos do curriculum do animal: depois de mandar despachar o seu velho amigo Lakoba, Béria encarregou-se de torturar pessoalmente a família do defunto. Colocou uma cobra na cela da viúva, o que a levou à loucura, e espancou os filhos adolescentes até à morte.

Nada que não fosse o preconizado várias vezes pelo Mestre Zé (Estaline, entenda-se): "Mais vale uma cabeça inocente a menos do que hesitações na guerra". Ou: "A maior das delícias é marcar o nosso inimigo, preparar tudo, vingarmo-nos totalmente e em seguida ir dormir".

Esta última foi confidenciada a Kamenev, que algum tempo depois proferia em tribunal as suas últimas palavras: "Seja qual for a minha sentença, considero-a antecipadamente justa. Não olhem para trás (dirigindo-se aos filhos). Vão em frente. Sigam Estaline."


Quem também se explicava bem a este respeito era o antecessor de Béria aos comandos do NKVD (escusado será dizer que acabou às mãos de Béria e de Estaline), um anão disforme que dava pelo nome de Iezhov e que chegou ao ponto de especificar que tipo de arbustos deviam ser plantados para cobrir as valas comuns resultantes do seu empenho frenético na função:

"Se, durante esta operação, forem fuziladas mil pessoas a mais, não fará grande mal"; "Batam, destruam sem discriminação"; "Vai haver algumas vítimas inocentes nesta luta contra os agentes fascistas. Estamos a lançar uma ofensiva geral contra o Inimigo; que não haja ressentimentos se empurramos alguém com o cotovelo. Antes sofram dez inocentes do que um só espião consiga fugir. Quando cortamos lenha, as lascas voam".


Este Iezhov é o que aparece e desaparece da fotografia. A ambos os fenómenos (Iezhov e os truques dos photoshops da época) haveremos provavelmente de voltar em posts subsequentes.

30.1.07

Pérolas Vermelhas (I)


Como referi de passagem há alguns posts atrás, tenho atravessado uma fase de alguma indefinição naquele ponto sensível do "na cama com quem?". Comecei por disfarçar a crise com o roupão do Tolkien, já aviei o Pulido Valente e o Paiva Couceiro e, não sei bem porquê, ainda não me deu para me meter com o Rushdie. Vai daí, eis-me de novo na cama com o Estaline & Cª.

O calhamaçov, para além de incómodo, não é particularmente bem escrito e nem sequer está muito bem estruturado. Mas, daquele mar de sangue, vão emergindo algumas pérolas. Exemplos:

Por alturas de 1937 o camarada Estaline faz uma visita à mãe, que se encontrava adoentada. Seria a terceira vez que ia ver a senhora desde a Revolução (em 20 anos, portanto). O que se segue é uma breve mas elucidativa amostra da conversa entre os dois.

— Por que é que me batias tanto? — pergunta o filho.
— Foi por isso que te saíste tão bem — responde a mãe. E pergunta, por sua vez: José, o que és tu exactamente, agora?
— Bem, lembras-te do czar? Sou uma espécie de czar.
— Tinhas feito melhor indo para padre.
O comentário terá deliciado Estaline.


Outro exemplo, sem sair do seio familiar: Artyom Sergeev, filho adoptivo de Estaline, recorda ouvi-lo gritar com Vassili (filho de sangue e de matrimónio) por este explorar em benefício próprio o nome do pai.
— Mas eu também sou um Estaline — protestava Vassili.
— Não, não és — respondia-lhe Estaline. — Tu não és Estaline e eu não sou Estaline. Estaline é o poder soviético. Estaline é aquilo que é nas notícias e nos retratos. Não és tu, nem sequer eu!

Alargando um pouco o círculo para os amigos mais chegados, chegamos ao ambiente de descontracção de umas férias primaveris, numa qualquer dacha. Estaline e Pavel Alliluyev jogavam bilhar com Alexander Svanidze e Stanislav Redens. Quem perdia tinha, tradicionalmente, de gatinhar por baixo da mesa. Quando o par de Estaline perdeu, Pavel sugeriu, diplomaticamente, que os filhos, Kira e Sergei, gatinhassem por baixo da mesa em vez deles. Sergei não se importou, talvez por ter apenas 9 anos, mas Kira, que tinha 18, recusou terminantemente. Insistiu em que Estaline e o pai é que tinham perdido e por isso deviam ser eles a passar por baixo da mesa. Pavel ficou histérico e bateu-lhe com o taco de bilhar.

Última pérola do dia (esta é do velho e bom Béria, a propósito de algum desinfeliz que para o caso não importa quem era):
— Deixem-me tê-lo durante uma noite, e eu faço-o confessar que é o rei de Inglaterra.


Mais pérolas virão, eu temo.

24.1.07

Pelo sim, pelo não...

... vale a pena esperar um pouco que descarregue e ver isto.

23.1.07

Tuguíadas I, 95/98 (de quando vinham boas novas de Riade)



Depois a Geração de Ouro, novinha,
Conquista o tal lugar, mais almejado.
A canalha, que nem vinte anos tinha,
Traz de volta o troféu mais cobiçado,
Dos reinos dessa Arábia sauditinha.
Co’a Nigéria a final, num disputado
Jogo, que saíu ganho e a contento,
Por dois e não apenas por um tento.

Tozé, o capitão, a taça amada,
Beijava e pelos outros dividia,
Da turma de Queirós bem comandada.
Ilustre gente já se distinguia,
Entre uns poucos, que nunca deram nada,
Muitos outros o Mundo aplaudiria:
Brassard, que na baliza se postava,
E o Peixe, que de todos destacava,


Dois Coutos, igualmente, mas não manos,
Hélio, Folha, Bizarro, gente rara,
João Vieira Pinto, em verdes anos,
No grande Paulo Sousa não repara
Só quem nos olhos tem mui graves danos,
Valido e mais Filipe, (a quem lembrara?)
Dois Paulos, o Madeira (quem diria?)
Mais o Alves, Abel Silva (pontaria

Não lhe faltou no crítico momento!),
Morgado e mais Resende e não findou
Sem Amaral, o tal assentamento
De quem a taça d’oiro conquistou.
Nunca jamais, apenas c’o argento
O povo, após tal feito, se bastou.
A fasquia, que dantes entravava,
Agora mais que nunca nos chamava.


(...)

22.1.07

Mais uma ligação, mais uma linkagem


O Desinfeliz não é pródigo em links. Nunca percebi se isso é bom ou se é mau, se interessa ou não, se é de mau ou de bom tom. Na verdade, nunca me preocupei muito com isso. E tenciono continuar assim, a não me preocupar muito com isso. O que não me impede de, muito ocasionalmente, dedicar um módico de atenção a esse assunto. Isso aconteceu hoje e produziu efeitos, que qualquer scroll até lá abaixo poderá comprovar. Saíu o Google News, que estava lá por defeito e provavelmente sem proveito nenhum para ninguém, e entrou o meu amigo João Nunes, que só ainda não constava da pequena lista por manifestos defeitos meus: a tal despreocupação com o assunto em geral, uma certa preguiça e também alguma ingratidão, pois (que eu saiba) o joaonunes.com foi, até agora, a única voz que chamou a atenção da blogosfera e do planeta em geral para a existência dos Tuguíadas. Em indo lá, recomendo uma olhadela à Guerra das Estrelas Muda.